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Ciência

"Império do Caos" na Casa

30.01.2015
 

Ninguém, na imprensa-empresa comercial ocidental, dirá a você por que o presidente Barack Obama dos EUA atirou-se para Riad com delegação de alta voltagem, para "apresentar seus respeitos" ao novo potentado da Casa de Saud, rei Salman.


Um perfeito Quem-é-Quem de nomes ilustríssimos na comitiva - o presidente da CIA, John Brennan; o comandante do Comando Central dos EUA, Centcom, general Lloyd Austin; o secretário de Estado, John Kerry; a líder dos Democratas na Câmara, Nancy Pelosi; e até o senador senil John "Bombardeie o Irã" McCain.


27/1/2015, Pepe Escobar,  RThttp://on.rt.com/gyqe76  


Deve ter sido de partir o coração para vários dessa turma, não poder visitar o Taj Mahal na Índia, informados de que estavam escalados para uma parada "não agendada", coisa de último momento, em Riad.

Eis como aquela mais espetacular mediocridade que também serve como vice-conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, Ben Rhodes, divulgou a coisa: "Principalmente, acho que é para marcar aquela transição na liderança e para prestar nossos respeitos à família e ao povo da Arábia Saudita, mas tenho certeza de que, já que estaremos lá, eles discutirão algumas dos temas e campos principais nos quais cooperamos muito intimamente com a Arábia Saudita." 

A Casa Branca e o Pentágono não se deram o trabalho de "prestar seus respeitos" em pessoa ao povo da França depois do massacre na redação de Charlie Hebdo. Mas a Casa de Saud - 'nossos' top-felásdaputa no Golfo Persa - é, claro, muito mais importante.

E, sim, Air Force One, estamos com um problema. Fontes de alto nível nas finanças norte-americanas garantiram a esse correspondente que a viagem foi integralmente dedicada ao esforço, de Obama, para obter o apoio do novo rei para a guerra financeira/econômica contra a Rússia, no momento em que a Casa de Saud já começava a reavaliar posições. O papel dos sauditas nessa guerra foi introduzir o choque do petróleo barato - o que feriu não só a Rússia, mas também o Irã e a Venezuela, dentre outros. Além do mais, o fantoche dos EUA teoricamente no poder na Ucrânia, Petro Poroshenko, acabava de visitar a Arábia Saudita.

Rússia não é Irã  - com todo o respeito devido ao Irã. Se a Casa de Saud realmente crê que estivesse falando ao chefe de uma superpotência, não com boneco de ventríloquo - que é o papel de Obama - estão efetivamente danados. Nada do que Obama diga significa coisa alguma. Os verdadeiros "Masters of the Universe" que comandam o Império do Caos querem que a Casa de Saud faça grande parte de seu serviço sujo contra a Rússia; e, em estágio posterior, que cuidem dos "cabeça-de-toalha" - como se ouve dizer em Washington - e do desenvolvimento de mísseis nucleares com o Paquistão. E especialmente porque o preço do petróleo lançado pelos sauditas está a um passo de destruir a indústria norte-americana do petróleo - contra os interesses nacionais dos EUA.

A Casa de Saud nada tem a ganhar, absolutamente não, dessa guerra financeira/econômica não declarada contra a Rússia. Os sauditas já "perderam" o Iêmen e o Iraque. O Bahrain é conduzido por tropas mercenárias que contêm a alienação da maioria xiita. Estão enlouquecendo ante a possibilidade do "inimigo" final conseguir um acordo nuclear com A Voz do Dono. Estão desesperados porque "Assad não sai de lá". Querem ter toda a Fraternidade Muçulmana à vista - ou dos arredores - na cadeia ou degolados. Morrem de medo, mais do que da praga, de levantes ao estilo da Primavera Árabe. E há também o falso Califato do ISIS/ISIL/Daesh a ameaçar um avanço sobre Meca e Medina. A Casa de Saud está efetivamente cercada, isso sim.

O mapa do caminho suicida 

Entrementes, enquanto a tempestade aproxima-se, tudo são sorrisos - em pleno silencioso banho de sangue familiar. O poderoso clã Sudairi obteve sua "vingança", antes do cadáver do rei Abdullah esfriar. O rei Salman, quase 80, e com Alzheimer já praticamente a convertê-lo em geleia, não perdeu tempo e já nomeou seu sobrinho, Mohammed bin Naif, como vice-príncipe coroado. E para o caso de alguém não ter visto o nepotismo, também nomeou seu primo, príncipe Mohammed bin Salman, ministro da Defesa. Mohammed bin Naif é um dos queridinhos do Pentágono/CIA: chefe do contraterrorismo na Casa de Saud.

Assim se vê que, sim, é uma versão-deserto do clássico de Giuseppe di Lampedusa, OLeopardoSe vogliamo che tutto rimanga com'è bisogna che tutto cambi ("tudo tem de mudar, para tudo continuar como sempre foi"). Mas o bago mais sumarento é que parece aplicar-se muito mais à Casa de Saud, hoje em dia, que ao "Império do Caos".

Aparentemente, o jogo de tronos entre os 'nossos' felásdaputa leva a tudo permanecer como sempre: eles continuam a ser os 'nossos' felásdaputa privilegiados. O Pentágono até apareceu com a adorável ideia de o Comandante do Estado-maior dos EUA patrocinar um concurso de ensaios em homenagem ao falecido rei Abdullah.

Ponham-se todos a desengavetar ensaios que elogiem o rei pela repressão desatinada contra a minoria xiita no leste da Arábia Saudita, onde mora o petróleo. Elogiem-no por sentenciar o xeique Nimr Baqir al-Nimr - popular clérigo xiita e destacado dissidente político: deve ser degolado, ao estilo Daesh, apenas porque comandou um movimento não violento para promover direitos dos xiitas, direitos para mulheres e reforma democrática na Arábia Saudita (até a ONG Human Rights Watch admitiu que os xiitas da Arábia Saudita "enfrentam discriminação sistemática na religião, educação, justiça e emprego.")

Homenageiem também o rei morto, pelos milhares de prisioneiros políticos; pelas acusações de "terrorismo" contra mulheres que se atrevam a dirigir carros; pelos 25% da população que vive abaixo da linha da miséria; e por fim, mas não menos importante, por facilitar a expansão da al-Qaeda no Iraque, que se converteu em ISIS. O Pentágono amará quem fizer tudo isso.

Toda aquela tempestade no deserto de dinheiro saudita consumido para a divulgação, a pregação, a doutrinação pró wahabismo global - e vi exatamente isso do Maghreb até Java - é legado muito poderoso; uma "religião" tóxica, medieval (nada a ver com o Islã legítimo) que continuará a matar e destruir vidas e comunidades e a nutrir fanáticos até o Juízo Final. Saúdem o rei por tudo isso - em nome do Pentágono. E esqueçam para sempre a possibilidade de ler sobre qualquer dessas coisas na imprensa-empresa comercial árabe - totalmente controlada pela Casa de Saud.

"Reforma" na Casa de Saud? Que a afaste daquele establishment salafista nefando, bárbaro? Só se for a piada do milênio. Tudo continuará absolutamente inalterado.

Mas jogar o jogo "Império do Caos" - guerra financeira/econômica contra a Rússia - é movimento radical, como brincar com fogo. As sanções de EUA/União Europeia, ataques ao preço do petróleo e ao rublo, com derivativos gigantes como agentes, é algo que está muito acima da grade de pagamento dos sauditas. A Casa de Saud jurou que não mudaram sua quota de produção durante 2014. Mas há excesso de oferta - e chegou ao mercado para ajudar a causa do crash do preço do petróleo, além da manipulação por especuladores de derivativos.

Legiões de analistas de petróleo ainda não conseguem entender por que a Casa de Saud pôs-se a caçar a Rússia; todas as razões são política, não há razões econômicas (o apoio dos russos à Síria e ao Irã, os norte-americanos concordando com a estratégia, etc.). Fato é que Moscou interpretou a coisa como declaração de guerra econômica pela Arábia Saudita.Petroleum Intelligence Weekly, cautelosamente, já começou a sugerir que a coisa pode piorar muito, tipo "alto potencial de ruptura nas monarquias do Golfo."

Muito cuidado com o Imperador que chega com presentes - ou para o enterro do falecido rei. O "Império do Caos" está pedindo, essencialmente, que a Casa de Saud que se mantenha em rota de kamikaze contra a Rússia. Mais cedo ou mais tarde, alguém em Riad perceberá que aí está o mapa do caminho para o suicídio da Casa.

O livro mais recente de Pepe Escobar é Empire of Chaos

 


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