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'Anjo da Morte' é condenado à prisão perpétua

29.10.2011
 

'Anjo da Morte' é condenado à prisão perpétua. 15843.jpegUm dos símbolos macabros da ditadura argentina, Alfredo Astiz foi chefe de inteligência do Grupo 3.3.2 da Marinha, e um dos primeiros integrantes da Escola Superior de Mecânica da Armada (ESMA) reconhecido publicamente como um brutal repressor no final da década de 70. Em sua lista de acusações estão os assassinatos de Azucena Villaflor, fundadora das Mães da Praça de Maio, e das monjas francesas Alice Domon e Leonie Duquet, torturadas na ESMA e jogadas no mar. Outros 17 ex-marinheiros foram condenados por crimes de lesa humanidade. A reportagem é de Francisco Luque, direto de Buenos Aires.

Francisco Luque - Correspondente da Carta Maior em Buenos Aires

Após quase dois anos de processo, a Justiça argentina anunciou a sentença contra 18 ex-marinheiros acusados de crimes de lesa humanidade cometidos no centro de detenção e tortura da Escola Superior de Mecânica da Armada (ESMA), um dos mais emblemáticos da última ditadura. Os repressores foram responsabilizados pela detenção, privação, torturas e homicídio de 86 pessoas, entre elas, o jornalista e escritor Rodolfo Walsh, as fundadoras das Mães da Praça de Maio, Azucena Villaflor, Mary Bianco e Ester de Careaga, e as monjas francesas Alice Domon e Leonie Duquet, missionárias que apoiavam os familiares dos detidos desaparecidos no início da ditadura.



Os oficiais acusados no processo ESMA são: Alfredo Astiz, Jorge Acosta, Antonio Pernías, Oscar Antonio Montes, Raúl Schiller, Jorge Radice, Alberto González, Nestor Savio, Ricardo Cavallo, Adolfo Donda, Julio César Coronel e Ernesto Weber, todos condenados à prisão perpétua. Manuel García Tallada e Juan Carlos Fotea, a 25 anos; Carlos Octavio Capdevilla, 20 anos, e Juan Antonio Azic, 18 anos. Pablo García Velazco e Juan Carlos Rolón foram absolvidos, mas seguirão na prisão por outros crimes.

O tenente Alfredo Astiz é um repressor símbolo da ditadura. Chefe de inteligência do Grupo 3.3.2 da Marinha, foi um dos primeiros integrantes da ESMA reconhecido publicamente como um brutal repressor, para muitos, o emblema do terrorismo de Estado na Argentina no final da década de 70. Astiz foi acusado de infiltrar-se no grupo fundador das Madres da Praça de Maio, fazendo-se passar pelo irmão menor de um desaparecido, e de sequestrar a fundadora, Azucena Villaflor.

Apelidado de "Menino Gustavo" ou "Anjo da Morte", Astiz foi condenado à revelia pela Justiça francesa pelo assassinato das monjas Domon e Duquet, torturadas na ESMA e lançadas ao mar. Também é responsável pela morte da cidadã sueca Dagma Hagelin, ocorrida em 1977. Graças às leis do Ponto Final e da Obediência Devida, aprovadas no final da década de 80, Astiz foi eximido de responsabilidade na qualidade de militar de média patente, até que, em 2003, o Congresso argentino anulou estas leis, provocando a reabertura dos processos. Em sua longa lista de acusações está incluída uma investigação aberta pela Audiência Territorial de Nuremberg (Alemanha) em função da execução e desaparecimento de cidadãos alemães durante a ditadura.

Jorge "Tigre" Acosta, chefe da inteligência e do Grupo de Tarefas 3.3.2 da ESMA, foi acusado pela detenção e desaparecimento do jornalista Rodolfo Walsh, autor do livro "Operação Massacre" e da "Carta aberta à Junta Militar", um texto escrito e difundido por Walsh durante seu período na clandestinidade, um ano após o golpe militar. Nesta carta, ele acusa as forças armadas de realizar um plano de extermínio contra opositores e pela instalação de um plano econômico neoliberal dirigido pelo ministro de Economia da ditadura, José Martínez de Hoz., Rodolfo Walsh foi visto pela última vez nas instalações da ESMA.

A deputada Patricia Walsh, filha do escritor, disse que "essa é a primeira vez que houve testemunhos que contaram com detalhes o que ocorreu na última casa em que meu pai viveu (em San Vicente), que ficou completamente destruída, onde roubaram seu último conto "Juan se iba por el río" e que, atualmente, está ocupada por uma família de um policial aposentado.

A leitura da sentença foi recebida com júbilo pelos familiares das vítimas, sobreviventes e organizações de direitos humanos. Fora do tribunal e das instalações da ESMA, milhares de pessoas acompanharam o julgamento por telões. O ex-presidente Néstor Kirchner converteu a ESMA em um lugar para a memória.

Tati Almeida, integrante das Mães da Praça de Maio, Linha Fundadora, disse que "sempre buscamos justiça dentro da legalidade e não pelas próprias mãos". "É um dia pleno de felicidade para toda a sociedade argentina que acredita na justiça e nos direitos humanos. Não esperávamos assistir em vida a esse julgamento e agradecemos às organizações sociais e aos jovens que nos apoiaram".

Para Christian Castillo, dirigente do PTS (Partido dos Trabalhadores Socialistas), esses julgamentos são uma vitória para todos aqueles que lutaram durante todos esses anos para conseguir justiça e verdade. Em especial, os sobreviventes da repressão que tiveram que ficar mais uma vez frente aos repressores, uma questão que não é menor ao se recordar o caso de Julio López, sobrevivente da repressão e autor de uma ação contra o policial Ethcecolatz. No dia da sentença, López saiu de sua casa para ir ao tribunal e nunca mais se soube dele.

Tradução: Katarina Peixotohttp://www.patrialatina.com.br/editorias.php?idprog=070c425fd005e11aec1a90706dda66f5&cod=8805


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