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Ciência

Micróbios, gripe e porcos transnacionais

26.07.2009
 
Micróbios, gripe e porcos transnacionais

Silvia Ribeiro/Brasil de Fato

Ainda que os casos comprovados de gripe suína humana cheguem a mais de 100 mil no mundo e se tema que as próximas mutações do vírus sejam mais letais, os governos e a Organização Mundial de Saúde (OMS) se esforçam em ignorar as causas reais da pandemia.

Ao invés disso predominam os enfoques fragmentários, seja em relação aos sintomas, ao desenvolvimento de uma vacina contra o novo vírus, que pode lhe fornecer sobre vida e até poderia e piorar a situação, o que é um grande negócio para as transnacionais que dominam esse mercado.

A atual pandemia de gripe suína é grave em si mesma e, no entanto, é apenas um indicador do acelerado processo de recombinação e criação de novos agentes patogênicos dos últimos anos. Não é um feito ilhado nem fortuito, é um componente lógico e coerente da grave crise generalizada de saúde a nível global, consequência das múltiplas crises econômicas, ambientais, climáticas, em que estamos imersos graças a décadas de lucro desenfreando das transnacionais, devastadoras da população e do planeta.

Ainda que as autoridades finjam demência (inclusive premiem os causadores da epidemia, como no México) está claro o papel fundamental da criação industrial de animais em grande escala, principalmente porcos, como promotores da criação de novas patologias. Não é o único fator, mas é a chave na origem da atual epidemia e nas que virão, porque os porcos atuam, mais que em outras espécies, como “crisol” para a recombinação de novos vírus. As condições de amontoamento de milhares de animais onde circulam diferentes tipos de vírus que podem infectar simultaneamente um mesmo animal, o estresse, as frequentes vacinações e exposição contínua a praguicidas, excedem esta capacidade.

A comprovação de que também os humanos transmitem o novo vírus A/H1N1 aos tipos, é muito preocupante porque acelera as causas de mutação do vírus que pode retornar aos humanos em formas mais agressivas. No entanto, em 16 de julho a OMS anunciou que a gripe suína humana (assepticamente chamada por eles A/H1N1 para exculpar os industriais de criação de porcos) se tem estendido tanto e o nível de contágio é tão comum, que já não se requer aos países reportar ao organismo os novos casos. De todos os modos, disse a OMS, isso é impossível porque o contágio vai muito mais rápido que sua capacidade de contabilizarmos. Segundo a OMS “a pandemia de gripe em 2009 vem disseminando em nível internacional com uma rapidez sem precedentes. Em pandemias anteriores, os vírus da gripe necessitarão de mais de seis meses para disseminarsse tão amplamente como o novo vírus A/H1N1 lhe tem feito em menos de seis semanas”.

Mostram assim outro fator chave da pandemia: o aumento do tráfego global de bens, animais, pessoas (e micróbios), inerente ao mercado mundial que necessitam as transnacionais.

Para esse mercado se constróem os grandes megaprojetos de infra-estrutura e energia (rodovias, grandes represas, hidrovias), aumenta o desmatamento e o avanço dos grandes monocultivos agrícolas e florestais (com a consequente expulsão das populações rurais em direção às cidades) destruindo a seu passo os habitats naturais e sua biodiversidade e, portanto, os competidores benéficos e inimigos naturais dos microorganismos patogênicos. A concentração resultante da população em grandes centros urbanos – também útil para as vendas centralizadas das transnacionais, carentes em sua periferia de serviços básicos, cria condições ideais para a transmissão em grande escala.

Em todos os casos de epidemias e surgimento de novos patologias das últimas décadas, tais como ébola, antavírus, vírus do Nilo, novos tipos de malária, dengue, HIV, há por trás alguns desses fatores. Há pertubação de hábitats de animais silvestres que atuam como reservatórios sem contrair a enfermidade, forçando sua migração a zonas mais povoadas; criam novos e abundantes criadouros de vetores das enfermidades (como poças d'água em zonas desmatadas que criam mosquitos como anófeles, vetor da malária; proliferação de moluscos e insetos nos lagos e rios afetados por grandes represas devido a mudanças de salinidade, aumentando exponencialmente os casos de leishmaniose, esquistossomose, e, etc); próximas de mega criadouros industriais de porcos e frangos, etc.

A isto há que se somar o crescente uso e manipulação industrial de vírus e bactérias, que são utilizados, por exemplo, para construir transgênicos, para produzir substâncias químicas e farmacêuticas, todo ele fator de aceleração de mutações.

As políticas fragmentárias também aumentam a velocidade de mutação e seu impacto. As campanhas de desinfecção massiva e o aumento de uso de antibacterianos, eliminam os microorganismos mais débeis, deixam espaço aos mais resistentes e obrigam aos vírus a multar mais rápido. As campanhas de vacinação criam uma imunidade temporal que produz que as novas gerações não tenham nenhuma defesa natural frente a este vírus, ao tempo que deixam nichos vazios para outros vírus, quiçá uma das causas do porquê a população mais jovem morre mais rápido com o vírus da gripe atual, aparentando com a gripe de 1918.

Ainda que as autoridades pretendam esquivar-se, pressionadas pelo sistema global e pelo lucro das trasnacionais, ver as causas do desastre em toda sua magnitude é uma tarefa imprescindível, assim como apoiar aos que seguem sustentando a biodiversidade e a saúde do meio ambiente e a natureza, como camponeses, indígenas e comunidades locais.

*Silvia Ribeiro é pesquisadora do Grupo ETC

Texto: Silvia Ribeiro/Brasil de Fato


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