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Ciência

Em Busca de um instrumental teórico para análise de desastres em história ambiental

22.10.2013
 
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Intenta-se, aqui, formular um instrumental teórico que permita abordar o fenômeno dos desastres naturais e antrópicos a partir de Carlo Ginzburg, Fernand Braudel e Edgar Morin. Os conceitos de norma e anomalia, utilizados por Ginzburg em seus estudos de micro-história, permitem, segundo creio, considerar as regularidades ambientais naturais e antrópicas como norma e as irregularidades como anomalia.

Por Arthur Soffiati*

Ao romperem a norma, as anomalias naturais ou antrópicas podem ser consideradas desastres. Em termos ecológicos, a norma representa a homeostase de um ecossistema nativo ou antrópico, enquanto que a anomalia representa uma intervenção de ordem interna ou externa ao ecossistema que pode provocar desequilíbrio temporário ou final ao sistema.

Quando temporário, o sistema recupera a norma, o equilíbrio temporariamente abalado. Quando final, o sistema presidido por uma norma se desorganiza por completo, dando lugar à organização de novo sistema regido por outra norma e sujeito a outras anomalias.

Tanto a norma quanto a anomalia devem ser entendidos como relativas e mensuráveis. Podemos exemplificar norma e anomalia naturais valendo-nos da Época do Holoceno ou Atual. A partir de 11-10 mil anos antes do presente (AP), uma norma de aquecimento global natural substituiu a norma da última glaciação da Época Pleistocênica. As temperaturas globais subiram progressivamente até 5.100 anos AP. O nível do mar elevou-se pouco a pouco, produzindo o fenômeno de transgressão marinha. A lenta transgressão pode ser tomada como anomalia em escala longa ou uma norma dentro de outra maior, se considerada em escala curta, comportando, pois, anomalias menores. Assim, norma e anomalia dependem da escala, sendo, portanto, relativas.

Tomando a fase atual do Holoceno, podemos considerar a tsunami e o desastre nuclear por ela causado no Japão como anomalias rompendo a norma. As tempestades de vento, cada vez mais intensas, podem ser entendidas como anomalias climáticas naturais. Contudo, como a ação humana coletiva interfere cada vez mais na norma climática do Holoceno, o natural e o antrópico interagem. Existe o natural mas ele se intensifica pela interferência antrópica.

Mais ainda: mesmo que a anomalia climática seja inteiramente natural, as mudanças antrópicas produzidas no planeta podem torná-la mais virulenta, como no desastre climático que assolou a Zona Serrana do Rio de Janeiro no verão de 2011. O desmatamento, o avanço do meio urbano sobre áreas perigosas e o assoreamento dos cursos d'água acentuaram os efeitos das chuvas, que seriam menos intensos se elas encontrassem superfície florestada e cursos d'água com mais capacidade de vazão e absorção de suas áreas marginais.

Aos conceitos de norma e de anomalia, podemos associar os conceitos de estrutura, conjuntura e evento, formulados por Fernand Braudel. A estrutura equivale a norma. Dependendo da escala, a conjuntura pode corresponder a norma ou a anomalia. O evento é sempre a anomalia. Na estrutura do Holoceno, o breve aquecimento global natural de meados da época pode ser tanto uma conjuntura climática de longa duração como um evento duradouro atuando sobre uma estrutura de longuíssima duração. A grande fome e a peste negra, no século XIV, equivalem a eventos de desastre marcando o fim do breve aquecimento natural medieval, se considerado como conjuntura, franqueando passagem a uma nova conjuntura, esta de resfriamento, que se estende de meados do século XIV a meados do século XIX.

Daí em diante, uma nova conjuntura será caracterizada por mudanças climáticas em que o natural e o antrópico se misturam. Ladurie estuda a grande estrutura climática que, no hemisfério norte, estende-se do ano 1000 ao século XIX. Brian Fagan, sob influência do conhecimento relativo ao aquecimento global antrópico, identifica três estruturas-conjunturas holocênicas ao longo do período estudado por Ladurie, detendo-se na primeira delas.

A maioria esmagadora dos climatologistas da atualidade está convencida de que o aquecimento global, que tem como marco inicial o ano de 1860, tem raiz antrópica. Assim, ele seria uma nova conjuntura, agora produzida pela ação humana coletiva, com eventos climáticos extremos que vêm se acentuando na última década. Estes eventos corresponderiam a anomalias engendradas no interior e por uma conjuntura anômala. Levanta-se até a hipótese de uma nova estrutura a suceder o Holoceno, batizada de Antropoceno.

Por derradeiro, porém exigindo análise mais detalhada, tanto a norma como a anomalia, a estrutura como a conjuntura e o evento são fenômenos complexos, como Edgar Morin entende o conceito de complexidade. Tomando um ecossistemas nativo como norma ou estrutura, verifica-se que, em seu interior, ele contém ordem e desordem a interagir e a gerar organização. O anel recursivo ordem-desordem-interação-organização é sempre retroativo e auto-organizado. A complexidade do sistema pode produzir emergências.

Arthur Soffiati é Doutor em História Social pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (2001).

O autor é historiador ambiental desde 1979 e aplica conceitos dos autores mencionados, além de De Certeau, no estudo de história regional. Suas análises procuram compreender as resultantes das relações das sociedades humanas com os ecossistemas nativos, atento não apenas às ações humanas, mas também às respostas dos não-humanos, entendidos em seus estudos como sujeitos de história. Suas investigações sobre as relações de grupos humanos com manguezais revelam que este ecossistema responde com relativa rapidez às intervenções humanas. Suas respostas vão desde a manutenção da norma a anomalias diversas, das quais a morte é a mais radical. Agora, o autor, integrando o Núcleo de Estudos Socioambientais da Universidade Federal Fluminense/Campos dos Goytacazes, volta-se para a história das anomalias climáticas na Ecorregião de São Tomé, por ele delimitada entre os Rios Itapemirim (ES) e Macaé (RJ).

LIVROS PRINCIPAIS de sua autoria:

Ecologia: Reflexões para Debates. São Paulo: Paulinas, 1988.

De um Outro Lugar: Devaneios Filosóficos sobre o Ecologismo. Niteroi: Eduff, 1995.

Entre Câncer e Capricórnio: Argumentos em Defesa dos Manguezais do Norte do Estado do Rio de Janeiro - Brasil.Rio de Janeiro: Xérox do Brasil, 1997.

Com BIDEGAIN, Paulo e BIZERRIL, Carlos. Lagoas do Norte Fluminense. Rio de Janeiro: Semads, 2002.

O Manguezal na História e na Cultura do Brasil. Campos dos Goytacazes (RJ): Faculdade de Direito de Campos, 2006.

Os Manguezais do Sul do Espírito Santo e do Norte do Estado do Rio de Janeiro (com alguns apontamentos sobre o norte do sul e o sul do norte). Campos dos Goytacazes: Essentia, 2009. Segunda edição no prelo.

As Lagoas do Norte Fluminense: contribuição à história de uma luta. Campos dos Goytacazes: Essentia, 2013.


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