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Desinformação da grande mídia facilita proliferação do Aedes aegypti

22.03.2008
 
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Desinformação da grande mídia facilita proliferação do Aedes aegypti

Brasil: Se atuasse de olho no interesse público, grande imprensa teria identificado ainda em outubro o avanço da dengue no Rio de Janeiro. Em vez disso, preferiu criar factóides e sugeriu inclusive uma epidemia que nunca existiu, desviando foco de problemas reais. Alerta foi feito na imprensa alternativa um mês antes dos jornais.

Por Gustavo Barreto, da redação - Fazendo Media e Revista Consciência.Net

Um órgão ligado à prefeitura do Rio de Janeiro, com a tarefa de fiscalizar as contas municipais e ignorado pelo prefeito, foi o primeiro a enfatizar: a dengue vem aí. Logo depois o Ministério da Saúde – que também é poder público, lembremos – alertou enfaticamente: está aberto o caminho para o Aedes aegypti. A imprensa alternativa e setores organizados da sociedade civil, atentos aos reais problemas da população no campo da saúde pública, ampliaram: lá vem o mosquito. (Leia ao final carta enviada a César Maia em janeiro)


Nada disso ecoou da forma que deveria. Motivo: a grande imprensa está concentrada nas mãos de poucos e incompetentes políticos – privados ou públicos –, que criam e recriam o noticiário sem qualquer compromisso com o interesse público e chegam tarde demais no foco do problema. A dengue no Rio é mais um entre diversos exemplos gritantes.
No dia 24 de janeiro de 2008, antes mesmo da epidemia ser reconhecida pelas autoridades mais responsáveis na área de saúde – excluindo, claro, a prefeitura do Rio -, a imprensa alternativa alertou para o fato de que o prefeito César Maia, por meio de seu secretário de saúde à época, não executou ou desviou para outras áreas os recursos que deveriam ir para o controle de vetores – incluindo o mosquito da dengue (leia ao final).


Segundo um relatório deste órgão da própria prefeitura, por exemplo, no exercício de 2006 23% do recurso transferido no próprio exercício (até dezembro), por meio da rubrica Teto Financeiro de Vigilância em Saúde (TFVS), não foram liquidados (utilizados) pela prefeitura. Desceram e simplesmente foram devolvidos, por incompetência gerencial.


"Despesas não relacionadas com sua finalidade"


Um montante de aproximadamente cinco milhões e meio de reais deixaram de ser utilizados, considerando-se a parcela transferida já no mês de janeiro, referente ao mês de dezembro de 2006. "Mesmo os recursos utilizados não foram totalmente aplicados adequadamente", completam os relatores. "Ao analisar as despesas efetuadas no programa de trabalho específico, elencadas no quadro analítico da execução orçamentária, observam-se despesas não relacionadas com sua finalidade".


Dentro da grande imprensa, o JB online saiu na frente, mesmo que atrasado, no dia 28 de fevereiro e confirmou o que havíamos apontado um mês antes: "Um levantamento da Controladoria-Geral do Município mostra que há tempos o combate ao Aedes aegypti deixou de ser prioridade da Secretaria de Saúde. No ano passado, a pasta pretendia investir R$ 13,7 milhões em programas de vigilância epidemiológica. Gastou apenas R$ 6,7 milhões - 49,3% do que havia planejado". Completamos: os investimentos são tímidos, quase que insignificantes, e o resultado está aí. Já são até a noite desta quinta-feira (20/3) 23.555 pessoas infectadas e 30 óbitos, a maior parte crianças.


Enquanto o secretário estadual Sérgio Côrtes reconhece responsavelmente a epidemia e se mobiliza para cobrir a falta de investimentos da prefeitura, César Maia inventa um suposto declínio dos casos, sem ao menos ter dados em mãos (!). O mesmo ocorreu em 2002. O Ministério da Saúde foi ainda mais longe: notificou sobre o risco de epidemia em outubro de 2007! Saiu alguma nota no jornal?


Destacamos que epidemia é um conceito político e variável, porém científico. Segundo este critério, a incidência da dengue é avaliada historicamente – em 15 anos, por exemplo - e comparada, excluindo os anos epidêmicos. Um aumento notável pode ser considerado, segundo análise criteriosa de especialistas, uma epidemia. É o que pensa dois deles: Sérgio Côrtes (esfera estadual) e José Gomes Temporão (esfera federal). Perceba que a imprensa não tem, por algum motivo, o hábito de citar nominalmente o secretário municipal de saúde. Maia está centralizando todas as respostas – tudo por email, claro.


Abaixo, vamos publicar na íntegra uma carta que foi enviada ao prefeito César Maia, em janeiro e fevereiro de 2008, e tornada pública em seguida. Nenhum dos emails de Maia voltaram e a fonte de que são emails dele é seu próprio "ex-blog". Nesta carta, estavam graves acusações na utilização de recursos públicos, tais como o desvio apontado pelo órgão ligado à própria prefeitura, ao qual me refiro no começo deste artigo: o Tribunal de Contas do Município (TCM).


Na carta ao prefeito de 24 de fevereiro, destaquei: "Enquanto os governos divulgam em campanha na TV neste final de semana (23 e 24/2) que o combate à dengue é um dever de todos, a imprensa carioca continua a "esquecer" que o prefeito César Maia não executou ou desviou diretamente 38% do dinheiro que serviria para combater o Aedes aegypti - nada menos que pouco mais de 15 milhões de reais. Apesar do problema continuar diariamente, como informa a própria imprensa, falta o nexo causal: nenhum grande meio questiona a Secretaria Municipal de Saúde sobre o orçamento mal utilizado." (leia no final)

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