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Ciência

O império mundial da violência contra-insurgente

19.03.2012
 

por Gilberto Lopez y Rivas [*]

O império mundial da violência contra-insurgente. 16625.jpegO centro de formação de terroristas do US Army. Através da Wikileaks tive acesso ao Manual de Campo 31-20-3 - Tácticas, técnicas e procedimentos de defesa interna para as Forças Especiais no estrangeiro, que é o terceiro de uma série produzida pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos para treinar e guiar a sua soldadesca nas tarefas intervencionistas e repressivas de âmbito mundial, sob a capa propagandística de ajudar outros governos "a libertar e proteger as suas sociedades da subversão, da desordem e da insurreição". O que seria de nós se os bons rapazes do tio Sam não estivessem sempre prontos para nos salvar do caos?

Recorda-se que os intelectuais do Pentágono inventaram uma quimera eufemística-política-ideológica a que eles chamam de "país anfitrião", isto é, governos subservientes aos EUA, que enfrentam situações de desestabilização de vários tipos, mas principalmente insurreições armadas e movimentos sociais que têm apoio popular, ante as quais recorrem à ajuda altruísta da contra-insurreição dos Rambos das forças especiais. Assim, o Manual de campo afirma: "Uma premissa básica da nossa política externa é que a segurança dos EUA, suas instituições e os seus valores (leia-se: o capitalismo) serão melhor preservados e fortalecidos fazendo parte de uma comunidade de nações realmente livres e independente (leia-se: sujeitas à órbita imperial). A este respeito, os Estados Unidos esforçam-se por incentivar outros países a fazer a sua parte na preservação dessa liberdade e independência (leia-se: o regime autoritário e renúncia de soberania). O objetivo é apoiar os interesses dos EUA através de um esforço conjunto (mais claro nem a água). Onde os interesses nacionais dos Estados Unidos estiverem envolvidos (leia-se: corporações, petróleo, territórios geoestratégicos) os EUA fornecerão assistência militar e econômica para complementar os esforços desses governos (leia-se: para manter a ordem estabelecida)". Em resumo, o propósito político do manual é defender os interesses imperialistas dos EUA através de aconselhamento e treino em contra-insurreição de tropas de cipaios do "país anfitrião".

A partir desta proposição essencial, o manual cobre com detalhe todos os aspectos da guerra de contra-insurreição, monitorizada pelos militares dos EUA: as atividades prévias à missão intervencionista, a análise preliminar, as "autorizações" para a formação, a instalação no "país anfitrião", programas de instrução das tropas, as operações tácticas, o controle das populações, as operações conjuntas, as atividades pós-missão, bem como anexos que vão desde questões legais (sic) de operações de informações, forças de autodefesa civil (paramilitares), o estabelecimento de bases, técnica de minas, etc.

Como em outros manuais, este texto dá importância ao verniz culturalista que os colegas antropólogos dedicados à contra-insurreição aconselharam aos militares. Isso inclui uma espécie de manual com as regras básicas de etiqueta e bom comportamento, para que os nativos não se sintam diminuídos, manipulados ou discriminados pelos assessores gringos, subitamente transformados em poliglotas, corteses, cuidadosos do multiculturalismo, as diferenças de gênero, e guardiões das leis e dos hábitos democráticos que aprenderam recentemente no Iraque ou no Afeganistão, pelo baixo preço que essa educação tem custado em países destruídos e "terroristas" executados, torturados, desaparecidos ou mantidos em prisão.

O manual não negligencia o papel dos meios de comunicação de massa nos esforços de contra-insurreição, inclusive, é claro, o do Serviço de Informação dos EUA (USIA), ao qual é atribuída a tarefa de influenciar a opinião pública de outras nações em prol dos objetivos já identificados da política externa de seu governo, divulgando as suas ações, fazendo contra-propaganda às opiniões hostis para os EUA, coordenando operações psicológicas abertas sob a orientação do Departamento de Estado.

Outro aspecto do manual a destacar é a importância que atribui ao recrutamento e à integração de forças paramilitares ou irregulares, como parte integrante da luta contra-insurreccional, componente clandestina que temos denunciado várias vezes para o caso do México, que continua a ter um papel estratégico agora com a ação de grupos de narcotráfico que atuam como paramilitares.

Além disso, o manual é muito claro sobre o envolvimento direto de forças de combate norte-americanas, "se a situação do governo do país anfitrião se deteriorar a tal ponto que os interesses vitais dos EUA estejam em risco" e para "fazer uma mudança decisiva no conflito", o qual pode ser, não só de natureza contra-insurreccional, como também causado pelo narcotráfico. Este aspecto deve ser levado muito a sério para uma análise mais responsável da "situação mexicana".

A ação de esquadrões da morte ou grupos de matadores é discutida no texto comentado, e até mesmo descrita com precisão e cinismo: "Caçar-matar. As forças amigas podem usar esta técnica (sic) nas operações de consolidação... Elas usam essa técnica para caçar e destruir os inimigos isolados. A equipe de caçar-matar consiste em duas secções: os caçadores e os assassinos. Os caçadores devem estar ligeiramente equipados e altamente móveis. A sua missão é localizar as forças inimigas, enquanto mantêm uma comunicação constante com os executores, que estão alerta e prontos para a ação. Quando os caçadores fazem contacto, notificam os assassinos". Sem dúvida que os caminhos da "democracia à maneira dos EUA" são sinistros e fatais.

O texto na íntegra do referido manual encontra-se em http://www.bidstrup.com/Army-Terrorism-Manual.pdf

O original encontra-se em www.resumenlatinoamercano.org

 Tradução de Guilherme Coelho.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info

http://www.patrialatina.com.br/editorias.php?idprog=0d8f8313c83e69d101e8997d3065fbff&cod=9492


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