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Ciência

O sub-prime do petróleo

18.09.2008
 
O sub-prime do petróleo

Pouco se tem dito a respeito da extração de petróleo das areias betuminosas do Canadá, talvez a prática extrativa mais agressiva ao meio ambiente dentre as inúmeras que maltratam nosso planeta.

As reservas petrolíferas de Alberta, no Canadá, são seis vezes maiores que as da Arábia Saudita, mas a sua prospecção e o processo de retirada do óleo impregnado em areia são caros, demandam enormes quantidades de água e gás natural. Nada disso, no entanto, impede a atividade frenética que se desenvolve incessantemente, até sob o rigoroso inverno da região (as temperaturas chegam a -40º C), cujos índios usavam o óleo para impermeabilizar suas embarcações.

O custo de extração do hidrocarboneto ali é estimado em cerca de US$ 27 por barril, e só a Shell, pretende processar 500 mil barris diários, de um total de 1.200, incessantemente, por até 50 anos. Ainda que a tecnologia atual só permita à industria retirar dez por cento do petróleo das areias de Atabasca, a região produz atualmente mais que o Kuwait. O trabalho, extremamente árduo e sujo, é feito por hordas de imigrantes de várias partes do mundo.

Os moradores da cidade de Fort Mac Murray já pagam o preço da maldição do petróleo, com altos índices de alcoolismo, prostituição, depressão, tráfico de drogas e ouros males. A chuva ácida resultante das atividades vai destruindo a vegetação e incontáveis árvores. Grandes lagos artificiais com água altamente envenenada por hidrocarbonetos carcinogênicos e metais pesados completam o cenário pré-apocalíptico.

Não obstante o perigo ambiental esta modalidade de exploração de petróleo esconde também um nada desprezível risco econômico. É o que revela reportagem de 17 de setembro do jornal inglês The Guardian.Segundo o diário, a indústria petrolífera pode estar à beira de uma crise equivalente à das hipotecas, o chamado sub-prime, que assola os Estados Unidos e já contamina as economias européia e japonesa.

As empresas Shell e British Petroleum (BP) foram alertadas por investidores que seu envolvimento em processos de produção de hidrocarbonetos como o que desenvolvem no Canadá pode desencadear uma crise tão grave quanto a do mercado imobiliário americano.

A reportagem se baseia em um relatório de autoria do Fórum de Investimentos Sociais do Reino Unido em co-autoria com o Greenpeace, intitulado “BP e Shell, crescentes riscos financeiros dos investimentos em areias betuminosas”.

À medida que muitas empresas estrangeiras são expulsas da Venezuela e da Rússia, aumenta o olho grande sobre as reservas canadenses, inclusive sob o argumento de o país ser politicamente estável, próximo dos EUA e confiável.

A crise bancária demonstrou a facilidade que os operadores do mercado financeiro têm de cometer erros de avaliação dos riscos que costumam rondar a economia mundial. A Shell e a BP são duas das empresas mais bem conceituadas no mercado acionário. A Shell, no entanto, tem trinta por cento de suas reservas petrolíferas em areias betuminosas, o que representa um risco nada desprezível quando os custos desta modalidade de extração crescem e os preços do petróleo caem abaixo de noventa dólares – um alerta para o Brasil, que comemora efusiva e exageradamente as descobertas do pré-sal.

Estima-se que as areias canadenses contenham 180 bilhões de barris de óleo, e os ambientalistas alertam para o fato de a conversão de betume em óleo cru sintético contribuir entre três e cinco vezes mais para o efeito estufa do que as formas tradicionais de prospecção de petróleo. Para se ter uma idéia, o processo de conversão de um barril de areia betuminosa em petróleo sintético para uso em refinarias comuns consome 14 m³ de gás natural e grandes quantidades de água.

A Shell e outras empresas do ramo alegam poder reduzir substancialmente as emissões de carbono resultantes da atividade através de técnicas de seqüestro de carbono – uma tecnologia muito cara.

A Rede para a Conservação da Natureza (WWF) observa que estas formas de prospecção de hidrocarbonetos poderão levar o mundo a um processo irreversível de mudanças climáticas.

Se a economia mundial recuperar-se rapidamente da crise atual a demanda crescente por energia redundará na continuidade e ampliação de novas e perigosas formas de obtenção de hidrocarbonetos, presentes em grande quantidade também sob o leito submarino do Ártico.

Mas este velho mundo sempre colocou os interesses político-econômicos à frente de muitas questões cruciais para a humanidade, e não há sinais de mudanças no horizonte.

Luiz Leitão da Cunha luizmleitao@gmail.com


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