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Ciência

Da multimistura à farinata, uma história de disputas políticas sobre a nutrição infantil

13.02.2018
 
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Da multimistura à farinata, uma história de disputas políticas sobre a nutrição infantil

O pro­jeto de apro­vei­ta­mento de ali­mentos em vias de perder a va­li­dade, a cha­mada fa­ri­nata, foi dei­xado de lado pela pre­fei­tura de João Dória, mas o de­bate sobre o com­bate ao des­per­dício e a nu­trição in­fantil, ainda mais em novos tempos de es­cassez para mi­lhões de fa­mí­lias, con­tinua vá­lido. Neste sen­tido, con­ver­samos com a mé­dica e nu­tri­ci­o­nista Clara Brandão, cri­a­dora da cha­mada mul­ti­mis­tura, fór­mula ali­mentar que ajudou a di­mi­nuir a des­nu­trição em di­versas re­giões do Brasil em dé­cadas pas­sadas.

"con­se­guimos in­tro­duzir a mul­ti­mis­tura no Brasil todo e ou­tros países da Amé­rica La­tina e Ásia. A grande van­tagem é ser sempre sus­ten­tável. A quan­ti­dade é mí­nima, qual­quer pessoa aprende e con­segue fazer. Se não tem folha de man­dioca, pode usar a folha de salsa, qual­quer folha, a que tiver acesso. E ela é muito rica em vá­rios nu­tri­entes, em par­ti­cular zinco e vi­ta­mina A. Também tem quase me­tade do se­lênio da cas­tanha do Pará, o mais co­nhe­cido an­ti­o­xi­dante", ex­plicou, em sua vasta ex­po­sição sobre as vir­tudes da mul­ti­mis­tura.

Pre­miada em con­gressos e se­mi­ná­rios, além de apoiada por ór­gãos como a FAO e a Unesco, a mul­ti­mis­tura perdeu es­paço, se­gundo afirma Clara, em razão de in­te­resses po­lí­ticos e cor­po­ra­tivos, a ponto de ter sido re­le­gada pela pró­pria Pas­toral. Sobre a cha­mada fa­ri­nata, anun­ciada com pompa pelo pre­feito de São Paulo, diz que falta trans­pa­rência e es­cla­re­ci­mento a res­peito de sua for­mu­lação, além de afirmar que a questão pre­cisa trans­cender a ali­men­tação em es­colas e al­cançar as fa­mí­lias, num mo­mento onde a vul­ne­ra­bi­li­dade ali­mentar voltou a crescer.

"Quem fa­bri­caria a fa­ri­nata? De­pois que Doria saísse con­ti­nu­aria o pro­grama? No mundo de hoje o pro­blema não são pro­teínas e ca­lo­rias. Também são, mas o maior pro­blema, que atinge pra­ti­ca­mente me­tade da po­pu­lação, é a "fome oculta", isto é, de­fi­ci­ência de mi­ne­rais e vi­ta­minas, o que afeta imu­ni­dade e todo o sis­tema imu­no­ló­gico", pon­derou.

A en­tre­vista com­pleta com Clara Brandão pode ser lida a se­guir.


Cor­reio da Ci­da­dania: Qual é a his­tória da mul­ti­mis­tura, ideia criada por você e tra­ba­lhada com apoio das pas­to­rais da igreja e qual a di­fe­rença entre a fór­mula da mul­ti­mis­tura para ou­tras que re­a­pro­veitam ali­mentos em vias de des­per­dício?

Clara Brandão: Sou for­mada pela USP em me­di­cina e também sou nu­tró­loga, o que na época queria dizer mé­dica mesmo. Na dé­cada de 70, fui para o in­te­rior do Pará, San­tarém, no baixo Ama­zonas, onde não tinha ne­nhum pro­grama de ali­men­tação e nu­trição. No pri­meiro dia que atendi no am­bu­la­tório, só tinha cri­ança des­nu­trida, casos graves. Apesar de es­tarmos ao lado do maior rio do mundo, havia uma seca enorme, o chão até ra­chava e fal­tava água di­reto, em es­pe­cial nos bairros pe­ri­fé­ricos. 

Ao chegar na ci­dade, queria co­nhecer sua eco­nomia, há­bitos ali­men­tares etc. Co­nheci ja­po­neses que ha­viam aca­bado de chegar à área rural. Quando os vi­sitei, vi um po­zinho meio cinza, que pa­recia pi­menta do reino. Dis­seram que era fa­relo de arroz. Per­guntei o que tinha de bom para co­lo­carem na co­mida. Ex­pli­caram que ge­ral­mente se fazia po­li­mento do arroz e jo­gava fora o fa­relo. Como sou filha de ja­po­neses sabia que não es­tavam usando al­guma coisa porque ou­tros ti­nham jo­gado fora, ainda mais na agri­cul­tura. Fui ver a ta­bela de com­po­sição do ali­mento e vi que não tinha fa­relo - no que está a di­fe­rença entre o arroz in­te­gral e o po­lido também. De­pois, vi que aquilo era um con­cen­trado de mi­ne­rais e vi­ta­minas, além de pro­teínas. 

Como gosto de co­zi­nhar, fui testar. Meus fi­lhos, ma­rido, todos co­meram sem notar di­fe­rença. Na época também fui a um trei­na­mento em 13 cre­ches, quase 400 cri­anças. Era um drama, che­gava uma cri­ança que tinha aca­bado de ser as­seada, a outra já es­tava toda suja, pois essas cre­ches eram de chão ba­tido. E fi­cava o mau cheiro, pois fezes e urina in­fil­travam e, por isso, pen­sava-se em fechá-las. 

Dei um trei­na­mento para as co­zi­nheiras e mo­ni­toras com o fa­relo de arroz, não disse o que tinha. Todas gos­taram, fa­laram que era uma de­lícia. De­pois contei como era a com­po­sição e in­tro­du­zimos nas cre­ches. Usá­vamos uma co­lher de sopa, 15 gramas per ca­pita, o que não mu­dava o sabor, pois não fa­zíamos mu­dança de há­bito ali­mentar. Sem mudar o sabor, en­ri­que­cíamos a co­mida, pois uma co­lher de sopa de 15g tem apenas mi­cro­nu­tri­entes - e gor­duras e pro­teínas só são me­ta­bo­li­zadas se ti­verem mi­cro­nu­tri­entes.

Nesses dias, fui a um con­gresso e quando voltei, com a co­mida numa concha, não me dei­xaram nem descer do carro. As mães e mo­ni­toras vi­eram falar "a me­nina não caga mais", um "drama". Foi im­pres­si­o­nante. Em um mês a di­fe­rença das cri­anças era gri­tante. Antes não saíam do lugar, de­pois vi­viam cor­rendo e brin­cando. Acabou a di­ar­reia, do­enças res­pi­ra­tó­rias se re­du­ziram dra­ma­ti­ca­mente... Meu ma­rido co­meçou a fo­to­grafar as cri­anças antes e de­pois, co­mecei a apre­sentar o tra­balho em con­gressos e nin­guém acre­di­tava.

Cor­reio da Ci­da­dania: Qual a ex­pe­ri­ência da mul­ti­mis­tura na so­ci­e­dade? Onde o pro­jeto se aplicou e como foram os re­sul­tados?

Clara Brandão: Re­ce­bemos até um re­pre­sen­tante da Unicef, e olha que San­tarém não é pas­sagem de nada, é ponto final. Eu pre­sidia um nú­cleo de vo­lun­ta­riado e es­co­lhia a di­re­toria. Que­riam in­dicar gente e não dei­xamos. Aca­baram per­mi­tindo que es­co­lhês­semos di­re­toria e de­mais co­la­bo­ra­dores sem li­ga­ções po­lí­ticas. Foi muito bom, pois fi­zemos um tra­balho téc­nico, com re­sul­tados de­mons­trados em con­gressos e se­mi­ná­rios. 

Na dé­cada de 80, fui apre­sentar o tra­balho em Belém, num con­gresso de en­fer­magem. A Zilda Arns ouviu a pa­lestra e me con­vidou para a Pas­toral da Cri­ança, ainda em seu início. E in­tro­du­zimos a téc­nica. A Pas­toral da Cri­ança apre­sentou o soro ca­seiro, mas ele pre­vine apenas a de­si­dra­tação. O que im­pede di­ar­reia é só uma imu­ni­dade alta. Era exa­ta­mente o que a mul­ti­mis­tura fazia: au­men­tava a imu­ni­dade. Como não mu­dá­vamos o sabor a acei­tação era rá­pida. Co­lo­cá­vamos em sopa, mingau, fa­rofa, ma­carrão, ta­pioca, cuscuz, molho... No que a cri­ança ti­vesse acesso.  

Os re­sul­tados vi­eram, aper­fei­ço­amos o tra­balho e em 1983 ga­nhamos o prêmio de me­lhor tra­balho contra a mor­ta­li­dade in­fantil num con­gresso de pe­di­a­tria. Foram ótimos re­sul­tados e uma das coisas que fiz questão desde o início é que não fosse pa­tro­ci­nado. Ou é sus­ten­tável ou não. Se de­pende de verba não é sus­ten­tável. 

De­pois, co­me­çamos a acres­centar ele­mentos. Lá em San­tarém e no Pará há muita folha verde. Apro­vei­tamos a folha da man­dioca, e lá de modo geral se come muita folha, em es­pe­cial na ma­ni­çoba, que se pa­rece com a fei­joada, mas com fo­lhas verdes em vez de feijão. Fi­zemos di­fe­rente: de­si­dra­tamos a folha. Assim, mul­ti­pli­camos por cinco a con­cen­tração de nu­tri­entes. 

Já na USP Pi­ra­ci­caba, através da pro­fes­sora Eli­sa­bete de Nadai, co­or­de­na­dora de mi­cro­nu­tri­entes da Unesco, se queria fazer um tra­balho sobre o zinco nos ali­mentos, mas não havia fi­nan­ci­a­mento. Du­rante sua pes­quisa, ela des­co­briu que a mul­ti­mis­tura tinha muitos ini­migos, muita gente contra. 

Ela veio com um pes­qui­sador da ONU e um mé­dico da Unesco, co­nhe­ceram o tra­balho e re­sol­veram fazer o pro­grama. Mas não con­se­guimos verba mi­nis­te­rial. A ar­gu­men­tação do Con­selho Fe­deral de Pe­di­a­tria e também dos nu­tri­ci­o­nistas era que podia haver con­ta­mi­nação, por ser feita de modo ca­seiro, ou que tinha fi­tato (subs­tância que existe em toda cé­lula animal e ve­getal, con­si­de­rada mul­ti­nu­tri­ente), o que di­minui a ab­sorção de cálcio, ferro e zinco. Em 2000, a Uni­camp pu­blicou que o fi­tato é "o" an­ti­o­xi­dante, não um an­ti­o­xi­dante. Pois tudo de­pende da quan­ti­dade in­ge­rida. Se você bebe muita água pode morrer também. 

O fi­tato, além de hoje ser con­si­de­rado um bom an­ti­o­xi­dante, tem ou­tras ca­rac­te­rís­ticas, tais como au­mento da pro­dução de gló­bulos ver­me­lhos, re­ti­rada de odor de ál­cool... Ajuda na con­ser­vação da pró­pria vida. Se você isola fa­relo de arroz, o fi­tato tem um custo de 3000 dó­lares o quilo. Fa­relo de arroz é um bom ali­mento, não um sub­pro­duto.

Há vá­rios mé­todos para me­lhorar o apro­vei­ta­mento deste fa­relo do arroz. É muito bom. Por exemplo, o co­lostro, o pri­meiro leite que a mãe dá para a cri­ança, por­tanto o mais im­por­tante, é rico em fi­tato. É quando se cria a imu­ni­dade. Se o pri­meiro leite que a cri­ança toma cria imu­ni­dade e tem muito fi­tato, o resto não in­te­ressa, certo? 

Com a Pas­toral con­se­guimos in­tro­duzir a mul­ti­mis­tura no Brasil todo e ou­tros países da Amé­rica La­tina e Ásia. A grande van­tagem da mul­ti­mis­tura é ser sempre sus­ten­tável. A quan­ti­dade é mí­nima, qual­quer pessoa aprende e con­segue fazer. Se não tem folha de man­dioca, pode usar a folha de salsa, qual­quer folha, a que tiver acesso. É que a de man­dioca é a mais des­per­di­çada do mundo, porque Ásia, África e Amé­rica La­tina plantam man­dioca e jogam a folha fora. E ela é muito rica em vá­rios nu­tri­entes, em par­ti­cular zinco e vi­ta­mina A. Também tem quase me­tade do se­lênio da cas­tanha do Pará, o mais co­nhe­cido an­ti­o­xi­dante. Mas sa­bemos que o quilo da cas­tanha do Pará bate os 100 reais. E além de cara tem gente alér­gica a ela.

Cor­reio da Ci­da­dania: Po­demos con­si­derá-la de valor nu­tri­tivo no mí­nimo si­milar ao car­dápio tra­di­ci­onal bra­si­leiro?

Clara Brandão: A mul­ti­mis­tura não é fa­rinha, apesar de também ser. É o prin­cípio bá­sico da nu­trição, o que dá qua­li­dade é a va­ri­e­dade, o pró­prio nome ex­plica. Numa sa­lada você põe, além de al­face, vá­rias fo­lhas, limão, uma ce­noura ra­lada, uma fruta... Todo ali­mento a mais au­menta a mis­tura e a qua­li­dade, que por sua vez não de­pende de pro­teína animal. O im­por­tante é a com­bi­nação ade­quada de ve­ge­tais, pois já tem tudo.

A FAO mos­trou em es­tudo em que uma cri­ança de 5 anos na In­gla­terra pre­cisa de 700 gramas para ficar bem ali­men­tada. Num país pobre, com os mesmos nu­tri­entes, ela pre­cisa de 1 quilo a mais por dia. E tem mais chance de ficar des­nu­trida. A FAO propõe que se use, no caso bra­si­leiro, três por­ções de arroz pra uma de feijão, o fa­moso baião de dois, um pu­nhado de fo­lhas verdes es­curas (muito mais nu­tri­tivas que as verdes claras). Na mata só tem folha verde es­cura, ainda que co­mamos verde clara, re­polho, acelga, al­face... Soma-se a 5% ou 10% de óleo e em média se usa me­tade do que a cri­ança pre­cisa de co­mida. 

Quanto custa um pro­grama desses? De­pende de uma de­cisão po­lí­tica. E o pró­ximo gestor pode não dar con­ti­nui­dade. Mas se usar a mul­ti­mis­tura, 15 gramas per ca­pita, pode-se re­duzir em média 30% do vo­lume de ali­mento in­ge­rido. E se repõe pra­ti­ca­mente todos os mi­cro­nu­tri­entes. A opo­sição diz que pre­cisa de com­pro­vação ci­en­tí­fica. Não pre­ciso com­provar ci­en­ti­fi­ca­mente que a folha de man­dioca que tanto se come no norte sem ne­nhum caso de morte faz bem. 

Há ainda ger­gelim (tos­tado e moído), que tem bem mais cálcio que o leite, e 70% de fa­relo, de pre­fe­rência de arroz, se não o de trigo. Pode-se ofe­recer 15 gramas por dia, in­de­pen­den­te­mente da idade. 

Ainda há vá­rios ou­tros as­pectos na mul­ti­mis­tura. Grá­vidas, por exemplo, não sentem 'de­sejo', não têm câim­bras, e o zinco, que ajuda muito na mus­cu­la­tura e de­sen­vol­vi­mento da pla­centa, não per­mite he­mor­ragia pós-parto, além de ace­lerá-lo. Reduz có­lica mens­trual, TPM, ra­cha­duras na pele do cal­ca­nhar e da mão... Como ela tem muito com­plexo B, numa creche, onde tem pi­olho (que não dá só em creche de pobre) ou sarna, acaba-se com isso em no má­ximo uma se­mana. Ou seja, co­meça-se a atacar a causa, não a con­sequência. Cri­ança quando tem anemia não é só por falta de ferro. Falta vi­ta­mina C, B6, e a fór­mula tem tudo isso. 

Cor­reio da Ci­da­dania: Já houve apro­xi­mação e co­la­bo­ração com algum go­verno em re­lação à mul­ti­mis­tura?

Clara Brandão: Tem um pro­blema muito sério. Como nós en­si­namos a fazer, qual­quer mãe ori­en­tada aprende. Quando fomos ao Ceará, a Se­cre­taria da Edu­cação fez o curso e in­tro­duziu em al­gumas es­colas. Re­du­zimos o custo da ali­men­tação em 75% e au­men­tamos até a apro­vação es­colar. Pois tudo que fa­zemos tem re­ação quí­mica: nascer, chorar, aprender... 

Tudo en­volve nu­tri­ente, isto é, o que se come. É muito sim­ples, mesmo que dê tra­balho. Mas a Pas­toral da Cri­ança fez par­ce­rias com a No­vartis, Nestlé... E co­meçou toda uma cam­panha pra fe­char a fá­brica da mul­ti­mis­tura. 

No en­tanto, para dar um exemplo, o con­selho de nu­tri­ci­o­nistas aprovou a ração hu­mana feita por nu­tri­ci­o­nistas, e aí nin­guém fala nada.

Cor­reio da Ci­da­dania: Como você a com­para com a ideia apre­sen­tada pelo pre­feito João Doria, a cha­mada fa­ri­nata?

Clara Brandão: Não tive acesso à com­po­sição do pro­duto. E di­fícil falar. Pelos com­po­nentes que se di­vul­garam pre­sentes na fór­mula, pa­rece uma de­cisão apenas po­lí­tica, quando pre­cisa ser uma de­cisão de po­lí­tica pú­blica, onde será dis­cu­tida a com­po­sição, a origem, quem são os fa­bri­cantes, quanto custa etc.

Quem passa fome não é quem está na es­cola, é a fa­mília. Ao se de­si­dratar frutas e ver­duras, por exemplo, que têm um vo­lume muito grande e pouco es­paço pra serem ar­ma­ze­nadas, te­ríamos uma van­tagem, pois au­men­taria a vida útil de tais pro­dutos. Mas pre­cisa dar acesso a qual­quer fa­mília, caso seja bom. Se é bom, não pre­cisa ser só na es­cola.

O Mi­nis­tério da Saúde fez o Nu­triSus em cre­ches, mas não o le­van­ta­mento da de­fi­ci­ência nu­tri­ci­onal por re­gião. Sa­bemos a com­po­sição, mas não a origem e preços, por quanto tempo vale. Aqui em Bra­sília de­ci­diram usar em apenas duas cre­ches. Por que só duas? O que mais pre­cisa pra ser am­pliado? Essas coisas pre­cisam ser le­van­tadas.

Quem fa­bri­caria a fa­ri­nata? De­pois que Doria saísse con­ti­nu­aria o pro­grama? No mundo de hoje o pro­blema não são pro­teínas e ca­lo­rias. Também são, mas o maior pro­blema, que atinge pra­ti­ca­mente me­tade da po­pu­lação, é a "fome oculta", isto é, de­fi­ci­ência de mi­ne­rais e vi­ta­minas, o que afeta imu­ni­dade e todo o sis­tema imu­no­ló­gico.

O zinco, por exemplo, ace­lera ci­ca­tri­zação de quei­ma­duras, de cortes ci­rúr­gicos etc. A sí­filis pode ser tra­tada com um frasco de be­ze­tacil, que custa dois reais. Por que não está dis­po­nível?

Pre­ci­samos pensar a curto, médio e longo prazos. Até o final do sé­culo vamos chegar a 9,3 bi­lhões de ha­bi­tantes, o que exi­giria mais des­ma­ta­mento, mais agro­tó­xico etc. Por que não po­demos tra­ba­lhar por bioma? Cada um tem sua se­gu­rança ali­mentar pla­ne­jada. Quais ali­mentos temos para cada es­tação do ano, como apro­veitá-los ao má­ximo?

A com­po­sição com­pleta de cada parte da planta podia ser usada. O mesmo vale para o arroz. Daria pra fazer eco­nomia de água, me­lhorar a questão nu­tri­ci­onal e até comer menos. As áreas de plantio até po­de­riam ser re­du­zidas, mas a qua­li­dade me­lho­raria. 

No Brasil temos de­fi­ci­ência de cálcio, com­plexo B, mag­nésio, zinco, de modo que po­de­ríamos ver quais plantas dis­põem de tais pro­pri­e­dades. 

Cor­reio da Ci­da­dania: A es­ma­ga­dora mai­oria dos bra­si­leiros tem na ali­men­tação uma parte im­por­tante de seu or­ça­mento pes­soal, as­pecto onde a in­flação sempre gera in­sa­tis­fação po­pular e se sente a piora no poder de compra. Não es­ta­ríamos nos per­dendo nas gritas po­lí­ticas, ou po­li­ti­queiras, e dei­xando de fazer o de­bate ne­ces­sário?

Clara Brandão: Temos de tra­ba­lhar a ideia do bem comum. Na nu­trição e ali­men­tação também. Em Bra­sília se faz 500 mil re­fei­ções por dia. Para tomar suco, são 500 mil copos pra lavar, sem contar todo o lixo pro­du­zido. Como o DF é pe­queno, por que não se dis­tribui a planta? Não é que falta fruta, mas é pre­ciso con­si­derar o bioma e tra­ba­lhar em cima disso. Comer aquilo que a pró­pria re­gião ofe­rece na de­vida época do ano é o me­lhor pos­sível. Fazer hortas, não as tra­di­ci­o­nais, e sim as pe­renes, é outro as­pecto im­por­tante. 

Po­demos en­sinar as cri­anças desde cedo a res­pei­tarem a na­tu­reza e evi­tarem o des­per­dício. Na ali­men­tação es­colar pra­ti­ca­mente todo dia tem trigo, lei e açúcar. E existem muitas com­pro­va­ções ci­en­tí­ficas que mos­tram a ine­fi­ci­ência disso, a exemplo da de­pen­dência de açúcar, que já atinge mais de 50% da po­pu­lação. E por que não se tra­balha tal questão? Todas as so­ci­e­dades de pe­di­a­tria, nu­trição e far­mácia pre­cisam tra­ba­lhar na busca da pro­moção da saúde. 

Mas não dá pra fazer po­li­ti­cagem em cima, pois es­tamos fa­lando de qua­li­dade de vida, e das cri­anças, que são nosso fu­turo. Nesse sen­tido, não basta ser contra apenas por ser. Se for algo cor­reto, apro­vei­tando fo­lhas verdes es­curas e frutas, au­men­tando o tempo de vida dela, para que mais pes­soas te­nham acesso, vale a pena. Des­per­di­çamos mais de 30% das fo­lhas, no mí­nimo. Em al­guns lo­cais até mais que isso. Não tem ló­gica.

A dis­cussão é téc­nica, e não po­lí­tica. Passa por po­lí­tica pú­blica, mas aí é outro ter­reno, pois in­de­pen­den­te­mente do gestor o pro­grama con­tinua caso seja bom. 

Isso pode co­meçar em casa também, todos po­de­riam ter mais edu­cação neste sen­tido. Quando co­nheci a In­gla­terra, ha mais de 50 anos, já via que todo apar­ta­mento tinha seus pe­quenos plan­tios. Em vez de im­portar uma planta da China, pode se usar esses tem­peros verdes, que têm muito mais nu­tri­entes.

Pre­ci­samos de uma po­lí­tica pú­blica vol­tada à agri­cul­tura fa­mi­liar, de acordo com cada bioma, re­gião e es­ta­ções do ano. Por exemplo, o ger­gelim dá quatro meses por ano. Em um hec­tare você pode co­lher dois quilos, e con­servá-lo por dois ou três anos. Já para ter leite, são ne­ces­sá­rios ca­beças de gado, des­ma­ta­mento pra dar pasto aos ani­mais, be­zerros, evitar a pre­sença de co­bras, va­ci­nação, sal... Em média, uma vaca produz 3 li­tros de leite no país. Quanto custa este leite? Temos de tra­ba­lhar menos com leite, cri­anças não pre­cisam de leite na es­cola. Pre­ci­samos buscar o me­lhor, não aquilo que a cri­ança gosta. "Mas meu filho adora sal­sicha". Que se coma em casa, na es­cola tem de aprender a comer da me­lhor forma. Como ges­tora eu faria isso.

Outra coisa que nin­guém fala: na zona rural às vezes a cri­ança acorda 5 horas da manhã pra chegar às 7 na es­cola. Quando chega, que horas terá a pri­meira re­feição? 9h:30m, 10 horas. A cri­ança está de 12 a 14 horas com hi­po­gli­cemia, de­pois não sa­bemos por que tantas perdem o ano le­tivo e se tornam anal­fa­betas fun­ci­o­nais. Por que não dão um caldo na hora que ela chega? Temos vá­rias ques­tões prá­ticas e rá­pidas, sem ne­ces­si­dade de usar fogo, que po­de­riam se usar em cre­ches e es­colas.

Cor­reio da Ci­da­dania: Di­ante da imensa crise econô­mica e alto nível de de­sem­prego que aco­metem o país já há al­guns anos, você diria que a in­se­gu­rança ali­mentar está vol­tando a pa­ta­mares altos no país?

Clara Brandão: Está au­men­tando. Todo mundo de­veria plantar al­guma coisa. Vejo en­tre­vistas de pes­soas de­sem­pre­gadas ha dois ou três anos, mas elas se­quer re­ci­clam o lixo da porta da casa, não usam o es­paço da casa pra fazer horta. Tem que fazer al­guma coisa. Quando che­gamos a lo­cais que pas­saram por guerras, vemos que todo mundo planta al­guma coisa, não dá pra ficar de braço cru­zado. 

Fui no Lixão da Es­tru­tural (maior aterro sa­ni­tário da Amé­rica La­tina, fe­chado pelo go­verno do DF neste ja­neiro), agora ex­tinto, e é in­crível. Nin­guém tem um pé de co­entro. A ci­da­dania deve ser con­quis­tada, claro, não é só esse o pro­blema, mas as pes­soas têm de usar me­lhor as in­for­ma­ções que con­se­guem acessar hoje. Não basta dar renda para as pes­soas, é pre­ciso al­fa­be­tizá-las. Um anal­fa­beto tem cerca de 500 vo­cá­bulos. E nesses casos não adi­anta ex­plicar o que pode ser feito, pois não en­ten­derá. 

Já temos es­tudos que mos­tram a di­fe­rença entre a folha verde es­cura e a verde clara. Outro ponto: todo mundo acha que leite é rico em cálcio; 100ml de leite lí­quido vai dar cerca de 10% do que pre­ci­samos por dia de cálcio. Te­ríamos de tomar 10 copos. E ge­ral­mente to­mamos com açúcar, o maior se­ques­trador de cálcio que há. A folha da abó­bora tem 4 vezes mais cálcio, o ger­gelim 10 vezes mais. 

É pre­ciso in­for­mação e apren­di­zado As pes­soas só comem se ti­verem o sabor re­gi­o­na­li­zado, senão, pode ser a coisa mais nu­tri­tiva do mundo que não comem. Ou seja, deve-se trans­formar a in­for­mação em coisas prá­ticas e pa­la­tá­veis. Nossos pro­gramas pre­cisam de alto valor nu­tri­tivo, custo baixo, pre­paro rá­pido e sa­bores adap­tados aos lo­cais. No Brasil, qual­quer coisa pode ser fa­rofa. São coisas prá­ticas. Não pre­cisa de açúcar na li­mo­nada. Use um limão a menos, es­prema um limão na co­mida que se au­men­tará a vi­ta­mina C, a imu­ni­dade e o ferro no or­ga­nismo. 

Nu­trição não é tão sim­ples.

Ga­briel Brito é jor­na­lista e editor do Cor­reio da Ci­da­dania.

 Foto: Clara Brandão / Arquivo pessoal

Por Gabriel Brito, do Correio da Cidadania

 


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