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Doze milhões de brasileiros têm diabetes, mas a metade não sabe disso

11.11.2013
 
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BRASILIA/BRASIL - A diabetes fica caracterizada quando a chamada glicemia, a taxa de açúcar no sangue, é alta demais. Ela começa de forma silenciosa, quase sem sintomas, mas é muito perigosa. E cada vez atinge um número maior de pessoas, devido ao estilo de vida comum do mundo moderno que combina sedentarismo com má alimentação.

 

Por ANTONIO CARLOS LACERDA

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Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), quase 250 milhões de pessoas ao redor do globo têm diabetes e, como esse número vem crescendo, a instituição já classifica a doença como uma epidemia. A cada ano, sete milhões de indivíduos entram nessa lista.

No Brasil, a SBD (Sociedade Brasileira de Diabetes) estima que 12 milhões de pessoas tenham a doença, sendo que metade delas não sabe disso.

Para conscientizar a população sobre a importância de se fazer exames de sangue para o diagnóstico do problema e, em caso positivo, se tratar, no dia 14 de novembro celebra-se o Dia Mundial do Diabetes. Ao redor do mundo, monumentos, prédios públicos e empresas são iluminados na cor azul para marcar a data.

Aqui no Brasil várias associações médicas e de pacientes estão promovendo ações como exames gratuitos, distribuição de cartilhas informativas e alimentos saudáveis. Uma lista com a programação principal está disponível no site Dia Mundial do Diabetes.

Quanto ao fato de um diabético não pode comer nada com açúcar, a resposta que se tem de médicos é que essa afirmação é um mito, não é verdade, pois quando se está com a taxa de glicemia, o açúcar no sangue, muito acima do padrão, a recomendação médica é evitar ao máximo o açúcar. Mas, à medida em que o paciente consegue controlar a doença, ele pode, sim, consumir doces moderadamente.

"Não existe proibição absoluta. Depois que a pessoa está com um controle bem feito, nada impede que coma um doce eventualmente. O ideal é que seja sempre de sobremesa, porque depois das refeições o açúcar não é liberado no corpo tão rapidamente", recomenda o endocrinologista Felipe Gaia.

Mais sobre a doença

O diabetes fica caracterizado quando a chamada glicemia - a taxa de açúcar no sangue - é alta demais (a partir de 126mg/dl em jejum). "Isso pode acontecer porque o pâncreas não é capaz de produzir quantidade suficiente de insulina ou porque a insulina não é bem absorvida pelo corpo", explica o endocrinologista Felipe Gaia, consultor do laboratório Salomão Zoppi. A insulina é o hormônio responsável pela entrada do açúcar nas células.

A doença é classificada como sendo do tipo 1 ou 2. O tipo 1 não pode ser evitada: é uma doença autoimune que, em geral, se manifesta até os 35 anos, quando o pâncreas perde sua capacidade de produzir insulina. Já no caso do diabetes tipo 2, a maior parte dos casos poderia ser evitada com a prática regular de atividade física e uma alimentação saudável.

 

"E em 90% dos pacientes o diabetes é a do tipo 2", diz a endocrinologista Denise Franco, diretora da Associação Diabetes Brasil.

 

Independentemente do tipo de diabetes que a pessoa tem, o importante é se cuidar desde cedo, mesmo que não tenha sintomas, para não agravar o quadro e evitar as temidas complicações, pois a doença pode levar à cegueira, falência renal, problemas circulatórios e infarto.  "A educação é muito importante: o paciente precisa entender por que precisa cuidar da alimentação, fazer exercícios, tomar remédio", afirma Franco.

 

"Temos um estudo mostrando que 27% dos pacientes param a medicação ainda na primeira caixa. Veja, estamos falando de pessoas com acesso a medicamentos. Isso só acontece porque elas não entenderam a gravidade do diabetes", acrescenta.

 

Outra informação importante, defende Franco, é que o diabetes não tem cura, portanto, o tratamento é para a vida toda. Mas isso não significa o fim do prazer à mesa: se o paciente conseguir controlar bem seus índices de glicemia com hábitos saudáveis, pode ter uma vida praticamente normal.

 

"A regra de ter uma alimentação colorida, variada, com pouco açúcar e gordura, vale para todo mundo. Então, se o diabético conseguir organizar sua dieta, vai comer de forma muito semelhante às outras pessoas", afirma a endocrinologista.

 

Mitos e verdades sobre diabetes

 

Pessoa diabética não pode comer nada com açúcar? MITO: quando se está com a taxa de glicemia, o açúcar no sangue, muito acima do padrão, a recomendação médica é evitar ao máximo o açúcar. Mas, à medida em que o paciente consegue controlar a doença, ele pode, sim, consumir doces moderadamente. "Não existe proibição absoluta. Depois que a pessoa está com um controle bem feito, nada impede que coma um doce eventualmente. O ideal é que seja sempre de sobremesa, porque depois das refeições o açúcar não é liberado no corpo tão rapidamente", recomenda o endocrinologista Felipe Gaia.

 

Não há restrições alimentares para os diabéticos além de evitar o açúcar. MITO: além do açúcar, diabéticos precisam tomar cuidado com o consumo de carboidratos, encontrados em produtos como batatas, massas, pães, tortas e, em especial, os feitos com farinha branca. "Uso uma metáfora: o açúcar é um tijolo; o carboidrato é como uma parede feita de tijolos. O corpo desfaz essa parede para usar os tijolos", explica o endocrinologista Felipe Gaia. Assim como o açúcar, os carboidratos não estão completamente vetados da dieta, mas devem ser ingeridos com moderação.

 

Diabetes, na fase inicial, não provoca sintomas. VERDADE: na fase inicial da doença, o único indicativo é mesmo o exame de sangue. "Diferentemente de outras doenças, o diabetes não provoca dor. Até chegar às complicações severas, o paciente pode levar 10, 15 anos", afirma o endocrinologista Felipe Gaia. Por isso, é importante que os pacientes sejam bem orientados pelos médicos, para que não fiquem relapsos com o tratamento.

 

Transplante de pâncreas pode curar o diabetes. PARCIALMENTE VERDADE: o transplante de pâncreas é uma cirurgia complicada, com riscos. Depois, o paciente vai precisar trocar a insulina por imunossupressores, para serem tomados durante toda a vida. E o órgão doado não costuma durar mais do que 10 ou 15 anos. Há ainda a dificuldade de se encontrar doadores. "Por tudo isso, o transplante só é indicado em último caso, para pacientes que estão fazendo o melhor tratamento possível, mas ainda assim têm muita flutuação da glicemia. Em geral, o transplante se faz para quem já está com os rins afetados; então, se faz o duplo transplante", afirma a endocrinologista Denise Franco.

 

Comer doce demais pode causar diabetes tipo 2. MITO: o que faz com que a pessoa se torne diabética é o sedentarismo associado à obesidade e a uma inflamação discreta do tecido gorduroso. O componente genético também influencia. Não raro, uma pessoa obesa consome doces em excesso, mas não são eles que causam o diabetes. "Se uma pessoa come muito doce, mas faz exercícios, mantém sua cintura fina, é difícil que vá ter problemas com diabetes", afirma o endocrinologista Felipe Gaia.

 

Todo diabético precisa tomar insulina. MITO: para quem tem diabetes do tipo 1 não há mesmo escapatória, já que o pâncreas não é capaz de produzir insulina. Mas para os pacientes diabéticos do tipo 2, que são 90% dos casos, a insulina pode ser dispensada se a doença for detectada e tratada no início. "Um diabético pode passar a vida inteira sem nunca precisar de insulina. Mas se o pâncreas for sobrecarregado e começar a "falhar", a melhor solução é a insulina. Nesses casos, quanto antes, melhor", explica do endocrinologista Felipe Gaia.

 

Diabetes é uma doença crônica que não mata. MITO: embora atualmente os tratamentos médicos evitem as mortes por coma diabético, a doença afeta diversas funções do organismo que colocam a vida em risco. Ou seja, ela mata, mas de forma indireta. "Um diabético tem seis vezes mais chances de ter infartos e derrames, assim como tem mais câncer. Outra causa secundária de morte são as complicações renais", diz o endocrinologista Felipe Gaia.

 

Atividade física ajuda quem tem diabetes. VERDADE: durante os exercícios, o corpo usa a glicose como fonte de energia, ou seja, a atividade física tem um papel semelhante ao da insulina. Outra vantagem é que exercícios regulares levam à perda de peso, o que ajuda a melhorar o controle do diabetes. "A atividade física ainda contrabalança o estresse, um fator que agrava o quadro de diabetes", diz a endocrinologista Denise Franco.

 

O estresse piora o diabetes. VERDADE: fatores de estresse podem, sim, piorar o quadro de diabetes quando já existe o problema, mas isso não significa que o estresse cause o diabetes. "O nível de açúcar sobe quando as pessoas ficam nervosas, assim como a adrenalina e o cortisol. Quando o pâncreas está comprometido, ele não aguenta essa elevação", explica a endocrinologista Denise Franco. Segundo ela, o estresse tem o potencial de desbalancear os sistemas endócrino, imunológico e neurológico.

 

Diabéticos podem comer produtos diet à vontade. MITO: "Ninguém pode comer nada à vontade", alerta a endocrinologista Denise Franco, diretora da Associação Diabetes Brasil. "Muitas vezes a gente nem recomenda o produto diet, como um chocolate, porque ele tem mais gordura, o que também faz mal", diz. Já um doce de frutas com adoçante costuma ser uma boa opção de sobremesa diet.

 

Diabetes tipo 2 só aparece em adultos. MITO: até pouco tempo atrás, o aparecimento do diabetes tipo 2 (que está ligado ao sedentarismo e hábitos alimentares poucos saudáveis) era registrado em adultos, sobretudo a partir dos 40 anos. Mas hoje está cada dia mais comum também em adolescentes e crianças. "Até 15 anos atrás, a gente definia que o diabetes da criança era a tipo 1. Agora, isso não é mais verdade", afirma a endocrinologista Denise Franco.

 

Cirurgias de redução de estômago/intestino curam o diabetes. MITO: embora a maioria das pessoas que passa por essas cirurgias registre melhora nos níveis de glicemia, se voltar a engordar, a doença retorna. "Por enquanto, o diabetes não tem cura. A pessoa vai ter de se preocupar sempre em manter a doença controlada", informa a endocrinologista Denise Franco. As cirurgias bariátricas também não ajudam pessoas cujo pâncreas já foi danificado e não produz mais insulina.

 

Diabetes é genética. PARCIALMENTE VERDADE: no diabetes do tipo 1 há um forte componente genético, explica o endocrinologista Felipe Gaia. Filhos de uma mãe ou pai diabéticos têm 10% de chances de também desenvolverem a doença. Quando se trata do tipo 2, há uma série de causas, entre elas o fator genético, que deixa a pessoa mais propensa a ficar diabética. "Mas quem se cuida, se alimenta bem e faz exercícios, tem uma relativa proteção", garante o médico.

 

Chá de pata de vaca é bom para quem tem diabetes. PARCIALMENTE VERDADE: embora tenha o potencial de diminuir a glicemia, o chá da planta conhecida como pata da vaca é contraindicado como forma de tratar o diabetes. "Ele aumenta a secreção de insulina, mas é muito difícil fazer o ajuste para a dose certa quando se trata de um chá. Quanto do princípio ativo tem em cada xícara? Você também não tem como saber se o solo, por exemplo, influenciou na ação da planta", explica a endocrinologista Denise Franco.

 

Existe uma categoria de "pré-diabéticos". VERDADE: essa denominação é recente, mas vem sendo usada por muitos médicos de 2010 para cá, diz o endocrinologista Felipe Gaia. Ela é utilizada para designar alguém cujos índices de glicemina e outros indicadores de diabetes ainda não atingiram o patamar para que o paciente seja considerado oficialmente um diabético, mas que estão muito próximos do limite. "É como um sinal amarelo, e piscando com força", diz Gaia.

 

O diabetes do tipo 1 é pior que o do tipo 2. PARCIALMENTE VERDADE: o pâncreas do portador do diabetes tipo 1 não produz nenhuma insulina, o que torna o tratamento mais "trabalhoso", segundo o endocrinologista Felipe Gaia, consultor do SalomãoZoppi diagnósticos e da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. "Desde o início temos que fornecer insulina de forma a simular o trabalho do pâncreas", afirma. Já no diabetes tipo 2, o pâncreas produz insulina, mas ela não consegue atuar corretamente no corpo. "No começo do tratamento, e se a pessoa se cuidar sempre, basta emagrecer e fazer atividade física", diz. Mas, se o paciente não se cuidar, pode ficar com o pâncreas com a capacidade de produzir insulina totalmente comprometida, como o de um paciente do tipo 1.

 

Diabetes pode causar cegueira. VERDADE: embora o diabetes possa seguir muitos anos assintomático, uma das possíveis complicações de se ter a doença sem controle por um longo período é a cegueira. "O diabetes estimula o crescimento de vasos na retina, o que acaba levando a sangramentos. E também pode provocar o descolamento de retina", afirma o endocrinologista Felipe Gaia.

 

Diabetes pode levar à impotência. VERDADE: com o passar dos anos, o diabetes sem controle passa a afetar o organismo de várias formas. Por exemplo, danifica os rins, que não conseguem dar conta de uma quantidade tão grande de açúcar. O excesso de açúcar também afeta os vasos sanguíneos e os nervos, o que causa falta de sensibilidade nas extremidades. "Se afetar os vasos da região peniana, fica difícil encher o pênis de sangue e manter a ereção, assim como pode afetar a sensibilidade", explica o endocrinologista Felipe Gaia.

Existe diabetes que só aparece na gravidez. VERDADE: chamado de diabetes gestacional é a elevação dos índices de açúcar no sangue de mulheres que tinham taxas normais antes da gravidez. Os hormônios produzidos durante a gravidez dificultam a ação da insulina do corpo. Se a mulher já tem tendência, está acima do peso e tem mais de 35 anos, tem mais chances de que essa resistência seja elevada demais a ponto de se tornar um problema como o diabetes gestacional. ?Nas demais mulheres, o pâncreas aumenta um pouco a produção de insulina, porém, a pessoa não fica diabética?, diz o médico Felipe Gaia.

 

Há diabetes que são mais difíceis de se controlar. PARCIALMENTE VERDADE: "O diabetes é uma doença progressiva. Então, em alguém que tem o diagnóstico tardio, ou que não tratou adequadamente a doença desde o início, o controle vai ser mais complicado", explica a endocrinologista Denise Franco. A médica diz, no entanto, que mesmo para os casos mais complicados, a tecnologia tem ajudado bastante no tratamento: há vários tipos de monitores e sensores de glicose, bombas de insulina etc.

 

ANTONIO CARLOS LACERDA é Correspondente Internacional do PRAVDA.RU

 


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