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Ciência

O vírus e quem dele se aproveita (1)

09.06.2020
 
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O vírus e quem dele se aproveita (1)

  

  

A expansão dos vírus resulta de práticas irracionais de consumo e predação dos recursos do planeta, com o insano objeto da incessante acumulação de capital.

  

Para acelerar essa acumulação, os capitalistas encarregaram as classes políticas de alimentar o medo nas populações, para que aceitem o desemprego (depois da antecâmara do layoff), como fatalidade; e,  como criminosos, vigiados e punidos por pretorianos armados.

  

De modo mais discreto, os capitalistas apresentam listas dos apoios que exigem do Estado. Nesse banquete, o vírus é apenas a toalha da mesa.

 

1 - Algumas notas sobre os vírus

  

Existem 39 estirpes de coronavírus, desde que identificados em 1968. Entre aqueles, há sete vírus humanos conhecidos, dos quais três - descobertos depois de 2002 - podem ser mortais. A sua perigosidade resulta de um género de agulhas proteicas que podem introduzir-se nas células humanas do aparelho respiratório, provocando graves dificuldades; e isso, só foi tornado público a 4 de março último na revista Science, na sequência de investigação efetuada por cientistas chineses.

  

Nesse contexto, o vírus mostra-se perigoso para pessoas mais idosas, mais débeis e com várias patologias degenerativas, particularmente, as do foro respiratório. Daí toda o afã e a pouco digna competição recente para a aquisição de ventiladores.

  

Supõe-se que o surto inicial em Wuhan terá ocorrido quando o vírus transitou, para um homem dos seus 55 anos, no dia 17/11/2019. O vírus seria proveniente de morcegos; e, um pangolim-malaio terá sido o veículo de transporte para um ser humano. As 1100 espécies de morcegos são muito tolerantes aos vírus e, na sua presença, não adoecem, ao contrário do que acontece nos outros mamíferos; são pois, excelentes armazéns e também eficazes redistribuidores.

  

Dos três coronavírus humanos conhecidos e que podem induzir a morte, todos têm origem em morcegos. 

  

1 - O primeiro (SARS-CoV), surgiu em 2002, na China (Yunan), província que faz fronteira com o Myanmar, o Laos e o Vietnam: uma área montanhosa e florestada. Dos morcegos, passou para a civeta, um pequeno mamífero, muito apreciado na China e que intermediou a chegada aos humanos. O abate dos animais cativos fez desaparecer esse vírus que, entretanto infetara 8422 pessoas, das quais morreram 774, em 30 países. A sua taxa de letalidade foi de 10%; e acima da observada, a nível global, no momento presente;

  

2 - Em 2012 surgiu na Península Arábica o MERS-CoV que contagiou os humanos, tendo como intermediários, os dromedários. Teve uma baixa capacidade de contágio mas uma letalidade elevada (27%), afetando 2468 pessoas, das quais 851 morreram, em 27 países;

  

3 - O atual SARS-CoV 2 tem uma mais baixa letalidade (2 a 4%) mas uma grande capacidade de contágio: supõe-se que o intermediário terá sido o pangolim-malaio, que terá recebido o vírus de morcegos. Esta situação já provocou a proibição e criação e venda de animais selvagens em Wuhan, por cinco anos.

  

Esta sequência a que se seguiu a gripe das aves em 2004/05 e a gripe mexicana ou suína em 2009/10 não deixou dúvidas, junto dos cientistas, sobre o surgimento de uma futura crise sanitária; e a atual pandemia corrobora essa sensibilidade. Calcula-se que o atual e famoso SARS-CoV-2 possa chegar a mais de metade da Humanidade nos próximos anos; por outro lado, uma grande parte dos infetados poucos sintomas apresenta e 14% são assintomáticos.

  

Muitos fatores concorrem para o acima referido. A ciência só conhece 1% dos vírus dos animais selvagens e o surgimento de uma vaga de contágios é sempre uma surpresa, não admitindo uma real previsibilidade.

  

São múltiplos os factores susceptíveis de apresentar essas surpresas. O comércio e o consumo de animais selvagens; a desflorestação que prepara, em paralelo, com o aumento da área destinada á pecuária, o uso intensivo de nutrientes artificiais e de fármacos na produção de carne e de peixe em viveiros; as densidades populacionais enormes e crescentes nos espaços urbanos, associados à produção de lixos e de gases com efeito de estufa, resultantes da irracionalidade que preside à criação de áreas para o trabalho, outras para a habitação, outras para a educação, o lazer, para além da irracionalidade evidente nas deslocações em veículo próprio, muitas vezes apenas com o condutor nele contido, etc. E acrescente-se ainda, a mobilidade dos seres humanos, no âmbito do turismo e dos negócios que se processa sem quaisquer atitudes susceptíveis de deteção nos viajantes de elementos potencialmente contagiantes. 

  

O medicamento para a sida, quando apareceu, custava $ 10/15000 para a toma durante um ano, algo de inacessível para a esmagadora maioria dos infetados. Como na Índia não é permitido o direito de patente em caso de crise humanitária, foram disponibilizadas tomas com um custo diário de $ 1. Por outro lado, a Declaração de Doha em 2001 permite que, em caso de emergência, um país fabrique ou importe de países terceiros um dado medicamento. Na última Assembleia Mundial da Saúde, o dueto maravilha - Trump-Boris - constituiu a única oposição à disponibilidade como bem público dos fármacos para a covid-19, em detrimento das multinacionais.

  

Quanto a vacinas para a covid-19, os habituais ratinhos de laboratório não são utilizáveis em experiências uma vez que são imunes; perante a pressão para controlar a doença, admite-se o recurso a voluntários, apesar dos riscos que essas "cobaias" possam correr e dos efeitos que entre outras pessoas dali possam surgir. 

  

Referir-se prazos de 12/18 meses para a comercialização da vacina seria algo de inédito ou de burla, algo demasiado comum no capitalismo de hoje. Pode-se pensar na irresponsabilidade de gente como Trump, que decidiu tomar (durante algum tempo)  hidroxicloroquina, um medicamento anti-malárico usado para os doentes com lúpus mas, sem validação das autoridades de saúde dos EUA para aplicação em caso de covid-19. Perante os comportamentos de um Trump ou, de um tal Bolsonaro, pode imaginar-se os danos possíveis que podem advir nos regimes políticos atuais - que nada têm de democráticos -  e sobre os quais, as pessoas comuns não têm qualquer controlo.

  

A Humanidade é uma apenas mas, assim como é constituída por imensas culturas, línguas, crenças e hábitos, também os vírus e outras formas de vida microbiana são distintos, embora aparentados. A sua variedade e mutabilidade é grande e exige, certamente constante investigação e formas de evitar desequilíbrios danosos na expressão da biodiversidade; dai resulta que o bem-estar não pode ser visto apenas tendo como sujeito o ser humano mas integrar este último numa saúde global que inclua ecossistemas e animais. E é essencial que se perceba esse desiderato não cabe e está muito acima dos correntes cálculos financeiros de rendabilidade que orientam as meninges dos acionistas, dos especuladores financeiros, dos gestores de topo, fixados na valorização dos ativos; bem como dos membros das classes políticas que vivem em permanente concubinato com os primeiros; e ainda, dos media cujo funcionamento se baliza pelas receitas da publicidade e pelas medidas das audiências.

  

É necessário abandonar a narrativa vinda de religiões de que um ser divino qualquer, certamente como forma de combater o seu tédio, criou uma série de infraestruturas no planeta Terra que, uma vez terminadas, foram colocadas à disposição, ao serviço do ser humano, para que esta espécie crescesse e se multiplicasse (como aliás já aconteceria... para plantas e animais). Assim, um tal Bill Gates não respeita o desejo do Altíssimo quando entende que deve existir um decrescimento do número de seres humanos; e esse decrescimento, claro, não incluirá o citado e os seus abastados amigos que terão o dinheiro suficiente para reservar uma poltrona de onde possam assistir a esse genocídio não assumido.

  

A globalização não é apenas a dos mercados comerciais e financeiros u dos vírus; deve englobar todos os aspetos com incidência na vida e no bem estar, não só dos humanos mas também dos outros seres vivos; o que, por seu turno, exige uma atenção especial, por exemplo, á gestão da água, da atmosfera, dos recursos minerais e da geografia que o planeta construiu há milhões de anos.

  

Ler na íntegra e a versão original

https://grazia-tanta.blogspot.com/2020/05/o-virus-e-quem-dele-se-aproveita-1.html

 


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