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Ciência

Como é que "microbebês" podem sobreviver no Brasil

08.12.2006
 
Como é que "microbebês" podem sobreviver no Brasil

Nesta semana um bebê nasceu na China com apenas 630g. Do tamanho da palma de uma mão, ele venceu as adversidades e conseguiu sobreviver. No Brasil, casos como esse também ocorrem. Tanto na rede privada quanto na pública, aparelhos e profissionais especializados conseguem, em cerca de metade dos casos, salvar a vida de crianças que nascem muito abaixo do peso normal, chamadas de “microbebês”. No entanto, as conseqüências para muitas delas são sérias.

Os médicos consideram “recém-nascidos de baixo peso” aqueles que nascem com menos de 2,5kg. “Recém-nascidos de muito baixo peso” têm menos que 1,5kg. Casos como o do bebê chinês são considerados “recém-nascidos de extremo baixo peso”. E não precisam ter apenas 600g. Abaixo de 1kg, a saúde de qualquer bebê corre risco.

Há outros fatores envolvidos na questão. Mesmo que tenha um peso considerado suficiente para sua idade gestacional, uma criança que nasça com menos de 24 semanas (ou 6 meses) de gestação não consegue sobreviver. Mesmo com toda a tecnologia disponível em países desenvolvidos, o organismo simplesmente não agüenta porque os pulmões não conseguem trabalhar.

A partir dessa idade, os médicos usam a estatística para considerar a “viabilidade” da sobrevivência da criança. Esse número varia de país para país e de serviço para serviço. “Consideramos ‘viável’ o peso de uma criança se 50% dos nascidos nessa faixa conseguem sobreviver por 28 dias”, explicou ao G1 o neonatologista Milton Harumi Miyoshi, da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). “No Brasil, o limite extremo de viabilidade está entre 500g e 600g”, conta ele.

Dois grandes avanços permitem esse “milagre”. O primeiro, segundo Miyoshi, é a utilização de remédios a base de corticóides nas mães nas horas que antecedem o parto. “Quando a mãe começa a ter contrações e sabemos que ela vai parir uma criança de baixo desenvolvimento, damos o corticóide -- cerca de 6 a 12 horas antes. Isso acelera a maturação da criança”, explica. O segundo é o uso de “surfactantes”, compostos que impedem que o pulmão do recém-nascido entre em colapso. “Além desses dois importantes avanços, há, é claro, melhorias na área de tecnologia -- como respiradores e incubadoras -- e a especialização de médicos e enfermeiras na área”, diz ele.

No entanto, mesmo com todos esses benefícios da medicina moderna, um bebê que nasce com menos de 750kg depende também de sorte. “A chance é de 50%. É como se jogássemos uma moeda. Pode ir para qualquer lado”, diz ele.

Mesmo que a criança consiga sobreviver aos 28 dias, sua odisséia ainda não acabou. Bebês de baixo peso ficam internados na UTI neonatal até atingir um peso mínimo de 2kg -- o que pode levar meses. Após a alta, as taxas de reinternação são grandes. E, conforme o bebê cresce para se tornar uma criança, um adolescente e um adulto, muito acompanhamento é necessário. “Se você nasceu prematuro com extremo baixo peso, você vai ser vigiado pelo resto da sua vida”, afirma Jucille Meneses, do departamento científico de neonatologia da Sociedade Brasileira de Pediatria.

As conseqüências variam, indo desde muito leves a muito graves. “A criança precisa ser acompanhada por uma equipe multidisciplinar, composta por pediatra, fonoaudiólogo, fisioterapeuta, psicólogo, e, aos poucos, vamos vendo o que surge. Algumas passam a vida toda sem problema nenhum. Outras podem ter problemas mais graves. Podemos, por exemplo, acompanhar uma criança e ver que ela vai passando de 1 ano de idade, 2 anos e não anda. É sério, precisamos intervir logo”, diz Jucille. “Outras crianças vão seguir normalmente e daí, com 8, 10 anos de idade, os pais vão perceber que ela tem dificuldade para acompanhar os colegas na escola. É um problema menos grave, mas que vai atrapalhar muito a vida desse jovem”, afirma a médica.

As altas taxas de mortalidade e as dificuldades de se evitar seqüelas graves, segundo ela, fazem muitos médicos na Europa e nos Estados Unidos sequer investir em casos como esses. “Lá, eles têm a chance de acompanhar a gestação a cada semana e quando vêem que a criança vai nascer prematura demais, já conversam com os pais sobre as alternativas. Se o recém-nascido não sobreviver sozinho, eles nem tentam fazê-lo respirar”, explica.

No Brasil, fazer isso é muito mais difícil, principalmente, porque a maioria das mães de prematuros é pobre ou adolescente (em muitos casos, os dois) e não faz exames pré-natais com a freqüência necessária. “Não é raro o médico só conhecer a mãe quando ela passa pela porta do pronto-socorro gritando que está parindo”, diz Jucille. “Aí, como é que você vai explicar todas as conseqüências?”, questiona.

Para a neonatologista, falta conscientização da população tanto antes quanto depois do nascimento da criança. “O pré-natal é fundamental para a sobrevivência da mãe e do bebê. E não uma ou duas consultas. Várias vezes a mulher faz um exame e nem chega a fazer o segundo, já está dando à luz. A gravidez precisa ser acompanhada por um médico desde sua descoberta até o momento do parto”, alerta a médica.

Depois que a criança nasceu, se ela foi classificada como sendo de extremo baixo peso, a família precisa ficar atenta, para detectar qualquer seqüela. “Quanto mais cedo for detectado um problema, mais cedo poderemos intervir para que aquela conseqüência seja a menor possível”, afirma.

Segundo "Tecnocientista"


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