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Ciência

Perigo: O Uso Indiscriminado dos antibióticos

06.11.2006
 
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Perigo: O Uso Indiscriminado dos antibióticos

Por Gustavo Barreto, Para o Instituto Oswaldo Cruz (www.ioc.fiocruz.br), 27/10/2006

Mudar o olhar em relação ao uso indiscriminado de antibióticos e ampliar o olhar em relação ao quadro clínico a ser apresentado pela classe médica – esta foi uma das conclusões centrais dos debates realizados nesta quarta-feira (25/10) pela manhã, durante o segundo dia do III Simpósio de Resistência aos Antimicrobianos e do I Simpósio de Resistência a Drogas Quimioterápicas, organizado pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC). O evento reúne especialistas nacionais e estrangeiros no Hotel Glória (Rio de Janeiro), de 24 a 27 de outubro.

A perda de sensibilidade a antibióticos em enterobactérias foi o tema da pesquisadora da UNIFESP Ana Cristina Gales, que apresentou a palestra Mecanismos de resistência a beta-lactâmicos em enterobactérias . As enterobactérias habitam principalmente os intestinos do homem e dos animais, seja como membros da flora normal ou como agentes de infecção. Cristina procurou mostrar os estudos acerca dos mecanismos de mobilização e a disseminação de genes de resistência no caso estudado.

Segundo a pesquisadora, a diminuição de sensibilidade a alguns antimicrobianos beta-lactâmicos é um forte indício da produção das Betalactamases de espectro ampliado (ESBL) – enzimas mediadas por plasmídios que conferem resistência às cefalsporinas de amplo espectro e monobactans (aztreonam) – mesmo que o patógeno ainda seja categorizado como sensível a esses antimicrobianos pelos testes tradicionais.

Elizabeth Marques, pesquisadora do Laboratório de Bacteriologia do Hospital Universitário Pedro Ernesto, da UERJ, fez coro com a necessidade de desenvolver novos estudos sobre o tema. Ela citou o conceito de Biofilme , caracterizado como um conjunto de bactérias aderidas em superfícies e cobertas com uma substância extracelular polimérica tipo slime. A pesquisadora destacou que células em biofilme são muito mais resistentes às defesas do hospedeiro, bem como à ação dos antibióticos. Elizabeth questionou ainda quais seriam as melhores ferramentas para determinar a eficácia antimicrobiana contra bactérias como a Pseudomonas aeruginosa .

Hanseníase em questão

O terceiro palestrante da manhã foi Philip Suffys , do Laboratório de Biologia Molecular Aplicada em Micobactérias do IOC. Philip discutiu o tema Aspectos moleculares na resistência em hanseníase – segundo ele uma das mais importantes doenças causadas por micobactérias, juntamente com a tuberculose.

Além de fornecer características sobre o agente etiológico, o pesquisador lembrou que o Brasil é o segundo país do mundo em número de casos, atrás apenas da Índia. A Hanseníase é uma doença crônica, associada à bactéria Mycobacterium leprae , que ataca células da pele e dos nervos periféricos, passando à sobrevivência intra-celular. O Laboratório de Hanseníase do Departamento de Micobacterioses do IOC atua como centro de referência nacional para os programas de eliminação e controle da Hanseníase e da Tuberculose. Para Philip, a resistência a antibióticos tem relação com a grande variabilidade genética da bactéria.

O pesquisador mapeou a hanseníase no país, lembrando que a doença ocorre principalmente em lugares de baixo poder aquisitivo. Philip ressaltou que o mapeamento da bactéria é importante, pois os microrganismos associados à Hanseníase variam muito em cada país e mesmo nos diferentes Estados brasileiros. “Até agora se sabe relativamente pouco sobre a transmissão da doença”, afirma. Ele destacou que existem projetos em andamento no país sobre a multiresistência a drogas.

Dália Rodrigues, coordenadora do Departamento de Bacteriologia do Instituto Oswaldo Cruz, fechou o segundo dia do Simpósio com uma palestra sobre enteropatógenos bacterianos. Ela explicou o funcionamento de redes como a de laboratórios centrais de saúde pública (LACEN), ligados à Coordenação Geral de Laboratórios (CGLAB) e o Departamento de Vigilância Epidemiológica (DEVEP), todos vinculados à Secretaria de Vigilância Sanitária do Ministério da Saúde. Esta rede integra diferentes programas, entre os quais o monitoramento da resistência de enteropatógenos circulantes no Brasil.

A pesquisadora esclareceu também o papel dos laboratórios de referência nacional em funcionamento no Instituto, cujos objetivos principais são atuar no diagnóstico e rastreamento epidemiológico dos microrganismos de interesse para a a saúde pública, apontando o aumento da incidência e da multiresistência a drogas de última geração em enteropatógenos e suas conseqüências em nosso meio.

Pesquisador relata experiências do Canadá

Traçando um panorama sobre a resistência antimicrobiana em seu país, Michael Mulvey, da Agência de Saúde Pública do Canadá, foi o último a falar na primeira mesa de debates desta quarta-feira. Mulvey abordou de quê formas seu país realizou o controle de infecções bacterianas e apontou dificuldades relacionadas ao tema. Uma das experiências demonstradas por Mulvey foi realizada pelo programa de vigilância em infecção hospitalar canadense, o CNISP (do inglês Canadian Nosocomial Infection Surveillance Program ), que reuniu 41 hospitais de 9 províncias.

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