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A leitura de Svetlana Aleksiévitch

28.01.2017
 
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A leitura de Svetlana Aleksiévitch 

(A morte da União Soviética foi a maior catástrofe geopolítica do século. Vladimir Putin)
A História não é uma luta entre mocinhos e bandidos como num filme de faroeste ou numa novela do Globo. O bem e o mal costumam se misturar dialeticamente na vida de personagens e nos fatos históricos.

A construção e a morte de um sonho a partir da leitura de Svetlana Aleksiévitch 


Uma leitura dos três maiores movimentos sociais do século XX, as Revoluções Russa, Chinesa e Cubana, fornecem material suficiente para comprovar essa tese.
Tomemos, por exemplo, a Revolução de 1917 na Rússia, a mais importante de todas elas, porque além da mudança que provocou na geografia do mundo ocidental, tinha como sustentação toda uma teoria política construída desde que Marx publicou, junto com Engels, o Manifesto Comunista de 1848.

Mesmo que na cabeça dos seus principais líderes, principalmente Lenin, estava clara a ideia de que ela seria o primeiro passo para a construção da tão sonhada ideia do socialismo, para a maioria da população o que os bolchevistas ofereciam era, primeiro a paz e depois pão e terra.

Depois que os revolucionários bolchevistas tomaram o Palácio de Inverno, em São Petersburgo e proclamaram o caráter socialista do movimento, os mencheviques e socialistas revolucionários, que junto com os bolchevistas tinham derrubado o regime do Tzar, queriam que revolução parasse no estágio capitalista democrático, porque a Rússia não estaria preparada ainda para o passo seguinte.

Foi quando Lenin fez sua famosa pergunta: vocês querem que se interrompa a revolução e se chame o Tzar de volta?
Ninguém queria chamar o Tzar de volta.

Lenin foi o grande herói da revolução proletária porque era acima de tudo um humanista que sonhava com um mundo onde as pessoas teriam todas as mesmas oportunidades e ninguém viveria do trabalho dos outros.

Mas, quando a guerra civil irrompeu e as intervenções estrangeiras pretenderam destruir a nascente república soviética, lançou o chamado "terror comunista" contra os "brancos" e os que sabotavam a revolução.

Defensor da propriedade estatal dos bens de produção e do uso comum da terra, não titubeou em lançar uma nova política econômica, a NEP, em 1921, que durante algum tempo incentivou a propriedade privada, para superar um período de fome intensa e a sabotagem dos agricultores.
Foi Lenin, também, quem não concordou com a chamada "guerra revolucionária" contra a Alemanha e depois aceitou a Paz de Brest Litovsk, mesmo com as condições draconianas impostas pelos alemães

Outro grande personagem da Revolução Russa foi Leon Trotsky. Menchevique de origem, crítico de Lenin, se tornou depois seu aliado.

Sua tese de "nem paz, nem guerra" nas negociações com os alemães, para a saída dos russos da guerra e a desmobilização das tropas, se mostrou catastrófica.
Foi, porém Trotsky que organizou o Exército Vermelho, que no caos da Rússia pós 1917, foi quem sustentou o regime socialista.

Foi Trotsky, sempre visto como defensor da liberdade e do direito à democracia em todas as instâncias do Partido Comunista, quem defendeu a militarização dos sindicatos e ordenou o ataque à Fortaleza de Kronstadt, em 1921, pondo fim a revolução dos marinheiros, que reivindicavam o cumprimento das promessas feitas em 1917 de mais liberdade e democracia.

Finalmente, Josef Stalin, o mais longevo dos revolucionários soviéticos, que se dizendo seguidor das ideias universalistas de Marx, defendeu a estranha proposta do socialismo num só país.

Que se dizendo um humanista, instaurou uma das ditaduras mais cruéis da História. 

Que, teorizando sobre a importância do companheirismo e lealdade entre os revolucionários, foi abatendo um a um, todos eles, em processos forjados que envergonham até hoje os que no passado defendiam seu governo.

Foi Stalin, que mesmo sendo advertido para as ambições expansionistas dos nazistas em relação ao Leste europeu, promoveu um enorme expurgo no Exército Vermelho nas vésperas da segunda guerra, permitindo que os alemães, quando a guerra foi declarada, chegassem às portas de Moscou.

Mas, foi Stalin quem, a ferro e fogo, transformou a economia russa para produzir em curto espaço de tempo tanques, aviões e canhões, mobilizou um povo inteiro para resistir aos ataques nazistas e depois comandou a ofensiva que só terminou em Berlim.

Foi também Stalin quem, depois de negociar com americanos e ingleses as zonas de influência na Europa de pós-guerra, usou o Exército Vermelho para garantir a construção de sistemas socialistas de fachada na maioria dos países do Leste Europeu, colocando no poder políticos sem qualquer identificação com seus povos.

O sistema que os socialistas criaram na Rússia em 1917 e que transformou o País na única grande potência capaz de rivalizar com os Estados Unidos, com grandes conquistas tecnológicas e dispondo de um poderia militar assombroso, ruiu como um castelo de cartas, sem tiros, nem derramamento de sangue, em 1991.

Como isso foi possível?
Uma boa maneira de tentar entender como isso aconteceu é lendo o livro "O fim do homem soviético" de Svetlana Aleksiévitch, Prêmio Nobel de Literatura em 2015.
Usando uma técnica de entrevistas, a autora dá voz, desde as pessoas mais simples, até outras, que mesmo não sendo o que se convencionou chamar de figuras históricas, influenciaram de alguma maneira os acontecimentos políticos da Rússia.

Através desses depoimentos, recuperamos os tempos difíceis da guerra; depois, o orgulho de pertencer a uma grande nação respeitada no mundo inteiro e ao mesmo tempo o medo de um estado policial, que prendia e torturava (suprema ignomínia de um estado que se dizia socialista) os que se atreviam a contestar suas normas; mais adiante as esperanças surgidas a partir de 1985, com a perestroika e a glasnost de Gorbatchóv, que prometia um modelo europeu de consumo para os russos e a decepção que vai se seguir, com as concessões que ele vai fazendo para agradar os americanos ; o fim da União Soviética, com os tempos tempestuosos de Iéltsin, marcando a volta de um capitalismo selvagem, com uma inflação que chega a mais de 2.000 ao ano, a presença das máfias disputando a ferro e fogo o controle dos negócios e finalmente a retomada de uma certa estabilidade com Putin e junto com ela a nostalgia do velho comunismo igualitário.

A autora toma cuidado em não assumir um lado em meio as divisões frontais que separam seus entrevistados porque, como diz, não pergunta sobre socialismo, mas sobre o amor, o ciúme, a infância e a velhice.

Leia como um romance e você vai aprender muito sobre essa aventura imensa que foi a construção e a destruição da União Soviética.

Marino Boeira é jornalista, formado em História pela UFRGS

 


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