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Eleições parlamentares na Rússia e o silêncio 'ocidental'

18.09.2016
 
Eleições parlamentares na Rússia e o silêncio 'ocidental'. 25109.jpeg

As mídia-empresas ocidentais estão aplicadamente dedicadas a não noticiar as eleições russas, porque a atmosfera de calma e ordem democrática nas quais se desenvolvem prova mais uma vez que a Rússia é país estável e sóbrio, que desenvolveu apurada arte de viver bem.

Dentro de apenas três dias acontecerão eleições para o Parlamento Russo, e parte de mim ainda não compreende por que as mídia-empresas ocidentais, sempre tão rápidas em dar manchetes à Rússia, desde que não haja celebridade a promover ou desastre natural sobre o qual manifestar fingida consternação, mantêm o mais rigoroso silêncio sobre as eleições na Rússia. 

Mas há vários motivos.

Porque as eleições na Rússia serão justas e livres, nenhum 'jornalista' ocidental pode aparecer com "dentro de três dias, eleições manipuladas em Moscou". 

- Sim, claro que sempre podem mentir sobre a natureza das eleições, como mentem sobre tudo que tenha a ver com a Rússia. Mas, apesar da incansável política do establishment e das velhas mídias 'ocidentais' de culparem Putin por todos os males do mundo, fato é que já está no ar uma ampla e interessante reaproximação com os russos. 

Vários desenvolvimentos recentes já demonstraram que a Rússia não pode ser considerada culpada e condenada pelo crime de ser e saber continuar a ser um bem-sucedido estado independente. O trabalho de ajudar a restaurar a paz no Oriente Médio conquistou a favor da Rússia muitos corações e mentes que, de outro modo nem tomariam conhecimento de notícias sobre a Rússia, nem às verdadeiras nem às inventadas.

- Por fim, e mais importante: em países de cidadãos em paz e satisfatoriamente informados sobre o próprio governo, que se sintam atendidos e respeitados, as eleições são consideradas evento corriqueiro, até tedioso. 

Ao longo da moderna história eleitoral, eleições importantes são em geral as que ocorrem em época de turbulência, não as que ocorrem em tempos de estabilidade e de cidadãos em paz e bem atendidos. 

Considerem-se por exemplo as eleições britânicas de 1945. Aquelas eleições haviam sido adiadas por muito tempo, por causa da eclosão da 2ª Guerra Mundial. Quando chegou o momento de selar o destino do Parlamento Britânico pós-guerra, os cidadãos votaram massivamente a favor do programa socialista do Partido Trabalhista, apesar de os Conservadores ostentarem como bandeira um herói de guerra do tamanho de Winston Churchill. 

No final dos anos 1970s, com a economia britânica já em cacos, houve outra eleição dramática. Dessa vez, o partido Conservador neoliberal de Thatcher saiu das urnas como vencedor (resultado que muitos britânicos contestam até hoje). 

Outro exemplo de eleições 'excitantes' por causa da instabilidade política, foram as eleições de 1993 para o Parlamento Russo, quando o Partido Liberal Democrático de Vladimir Zhirinovsky obteve vitória massiva, em eleições que, de fato, foram um referendum sobre a crise constitucional de Boris Yeltsin (também chamada "golpe de Estado" e/ou "mudança de regime") do início daquele ano.

Depois de 1993, tudo trocou de lado, em termos de estabilidade. A Grã-Bretanha debate-se hoje numa sua própria crise constitucional, por causa da decisão pró-Brexit; e os EUA têm de lidar com a eleição presidencial mais ensandecidamente disputada de toda a história recente do país. 

Na Rússia, por sua vez, reina a estabilidade política. Os criadores de problemas dos anos 1990s mergulharam no esquecimento político e os partidos que ou manterão ou expandirão as respectivas fatias do eleitorado em relação às eleições anteriores, em 2011, são os liderados por caras bem conhecidas, com programas políticos que promovem diferentes versões de estabilidade dentro do quadro político da Rússia contemporânea. 

Diferente disso, muitas caras políticas bem conhecidas no ocidente ou já sumiram (David Cameron), ou sumirão em breve (Barack Obama), ou não têm qualquer chance de vencer alguma eleição futura (Angela Merkel e François Holland). 

Na Rússia, por sua vez, os quatro principais rostos políticos são o ex-presidente Dimitry Medvedev ("Rússia Unida"), o líder eterno da oposição, desde os tempos da URSS e novamente hoje na Rússia, Vladimir Zhirinovsky (Partido Liberal Democrático), o prolífico Gennady Zyuganov, que lidera o Partido Comunista da Rússia desde 1993, e o comparativamente temporão Sergey Mironov, que lidera "Uma Rússia Justa" há meros dez anos. 

Em outras palavras, a eleição terá resultado previsível porque o país vive clima de estabilidade política. 

Será interessante ver se as sanções terão feito aumentar o apoio aos comunistas, porque o PC há muito tempo fala de autossuficiência econômica; ou se, na mesma linha, farão crescer mais o Partido Liberal Democrático, cujos avisos no campo da política externa, no passado, já são hoje fatos geopolíticos em campo, o que mostrará algum eventual aumento no número de assentos do PLD como uma espécie dereferendum silencioso de apoio a uma Rússia defensivamente forte, para enfrentar as ameaças globais. Nada disso é assunto que merece muito destaque nas mídia-empresas internacionais. 

Mesmo assim, ainda me surpreendo um pouco com as mentiras descaradas que vêm do ocidente. 

A mídia-empresa ocidental não é fonte de informação confiável, mas vez ou outra ajuda a dar boas risadas. Por exemplo, a sugestão, implícita em todas as notícias, ou bem clara, na CNN, na BBC e em outras redes, de que Putin andaria tão ocupado em manipular os resultados das eleições nos EUA... que teria esquecido de manipular resultados eleitorais na própria Rússia. Ok. Talvez tenha estado ocupado demais manobrando o resultado do referendum pró-Brexit? Ou, quem sabe, Putin ache quehackear e-mails de Hillary Clinton seria mais divertido que hackear as coleções de Gennady Zyuganov, de fotos de monumentos a Lênin? 

Não! A resposta certa foi antecipada - adivinhada, de fato, com notável presciência - por Peter Lavelle em coluna recente sobre Hillary Clinton. O motivo pelo qual o ocidente ainda não veio com 'notícias' de Putin a manipular resultados das eleições russas é que Putin anda ocupadíssimo a envenenar Hillary Clinton, para que seu agente secreto infiltrado Donald Trump, da Oblast de New York possa conspirar em paz, trair os EUA e levar o mundo à beira da paz! 

Impossível não rir. A Rússia é país realmente estável, estável demais para que suas eleições parlamentares, numa das maiores e mais importantes nações do mundo, chegue às manchetes. Mas a boa notícia para o ocidente é que, se querem instabilidade e incerteza política, escândalo, mentiras e eleições manipuladas têm lá mesmo, perto deles. Basta abrir a porta da frente. *****

16/9/2-16, Adam Garrie, The Duran

 


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