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As ações da CIA no Báltico para desmantelar a URSS

18.03.2017
 
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As ações da CIA no Báltico para desmantelar a URSS

Os territórios bálticos pertenceram ao Império Russo durante séculos e no final da Segunda Guerra Mundial voltaram a ser anexados pela União Soviética. A partir daí, Estônia, Letônia e Lituânia foram palco de atividades separatistas por mais de 40 anos, até reconquistarem sua independência em 1991.

 

Eduardo Vasco

 

A primeira etapa começou ainda durante a Guerra. Com a invasão alemã, alguns habitantes da região aderiram a guerrilhas para enfrentar o nazismo, enquanto outros apoiaram as forças de Hitler na perseguição a judeus e comunistas.

Quando o III Reich foi expulso pelo Exército Vermelho, antigos nazistas alemães, lituanos e russos se juntaram à guerrilha na Lituânia (BDPS) para lutar contra a União Soviética, especialmente contra sua política de coletivização de terras.

A guerrilha lituana recebeu apoio técnico e financeiro de EUA, Inglaterra, Alemanha Ocidental e Suécia. Habitantes dos territórios bálticos e emigrantes que viviam nos EUA também foram recrutados. As atividades eram coordenadas pela CIA e pelo SIS (Serviço Secreto de Inteligência britânico).

Segundo John Prados (Safe for Democracy: the secret wars of the CIA), os estadunidenses pagavam U$ 125 por semana para três meses de treinamento e U$ 100 por dia quando eram realizados em áreas proibidas, com um bônus de U$ 1000 se as missões fossem bem-sucedidas.

Um dos líderes guerrilheiros lituanos, Juozas Luksa, fugiu para a Europa Ocidental em 1947. Iniciou contatos com os serviços de inteligência ocidentais e recebeu treinamento de espionagem da CIA em 1950. Logo depois, voltou para a Lituânia, onde acabou sendo preso e executado pelo serviço secreto soviético em 1951.

As atividades guerrilheiras com apoio do Ocidente ocorreram mais intensamente na Lituânia, mas também tiveram lugar na Estônia e na Letônia, na mesma época. Nos três territórios, seu tempo de atuação não chegou a uma década. A contrainteligência soviética conseguiu desmantelar com certa facilidade os grupos armados e a ajuda estrangeira.

A última batalha na Letônia foi em fevereiro de 1950. No mesmo período, restaram poucos guerrilheiros na Estônia, ajudados com escasso armamento pelo Ocidente. A atuação da guerrilha lituana durou até 1952, apesar de terem havido algumas ações violentas e mesmo fatais até a década de 1960.

Além do armamento e do serviço de espionagem, o Ocidente fornecia principalmente apoio técnico para a radiodifusão de conteúdo antissoviético nos territórios bálticos. Foi assim que, em 1953, a CIA iniciou o Projeto AEFREEMAN, com o objetivo de fortalecer o sentimento nacionalista e anticomunista e assediar a URSS a partir daquela região.

Esse projeto incluía o Projeto AEPOLE (1949-1959), antes chamado de BGLAPIN e de AECHAMP, destinado à desestabilização da República Socialista Soviética da Lituânia. Além dele, pertenciam ao AEFREEMAN o AEBASIN/AEROOT (1953-1960), destinado ao apoio de emigrantes estonianos e de suas atividades contra a RSS da Estônia, e o AEFLAG (1955-1962), direcionado à RSS da Letônia.

Esses projetos ofereciam dados operacionais e de inteligência aos seus colaboradores no Báltico por meio de correspondência, ligação com organizações de emigrantes, instruções políticas e psicológicas e especialmente participação em protestos e na emissão de programas de rádio.

As transmissões de rádio eram feitas a partir de estações clandestinas e veiculavam conteúdo nos idiomas locais para todas as regiões da União Soviética. A Voice of America iniciou suas transmissões para a Lituânia em 1952 e foi seguida pela Radio Free Europe e Radio Liberty, que participaram das incitações antigovernamentais e anti-URSS durante o levante de 1956 na Hungria e a Primavera de Praga de 1968.

Além dessas, por meio do AEFREEMAN, a CIA financiou e dirigiu os serviços no Báltico da Radio Madrid (Radio Nacional de España), da Radio Roma e da Radio Vaticano. Elas eram utilizadas com o propósito de disseminar propaganda e ações políticas contra a União Soviética.

O projeto também englobava organizações de cidadãos letões, estonianos e lituanos vivendo no Ocidente, principalmente nos EUA. Eles cooperavam com a CIA, recebendo financiamento e apoio técnico por seu serviço. Muitos deles eram editores de publicações impressas voltadas à comunidade báltica no Ocidente, mas que acabavam tendo penetração nas repúblicas bálticas.

Uma das organizações que colaboravam estreitamente com a CIA era o Joint Baltic American National Committee, que ainda atua nos mais altos níveis do governo dos EUA, participando de sessões do Congresso e organizando a cooperação dos países bálticos com os EUA nos temas relacionados à Rússia. O JBANC foi criado pela CIA, como revela um documento da agência de inteligência de 1962: "O apoio do Joint Baltic American Committee, o qual a CIA foi um instrumento na criação, continuou a florescer durante o ano passado [...]" (a entidade foi fundada em 1961).

O objetivo do AEFREEMAN era ainda apoiar as lideranças culturais dos países bálticos, orientando-os a partir de uma visão pró-Ocidente e pró-EUA. Também buscava dar apoio financeiro ao pessoal contratado cujos serviços contribuíssem para o sucesso da montagem de operações secretas.

O documento citado é uma folha de notificação da aprovação do projeto para o ano fiscal de 1963, com dados orçamentários. Segundo relatado, a "fibra moral e sentimento nacionalista na parte soviética do Báltico tem sido, em parte, um resultado da ação efetiva do programa de ação encoberto" da CIA.

Essas atividades clandestinas da CIA no Báltico continuaram ocorrendo da mesma maneira, investindo na emissão de programas de rádio (Voice of America, Radio Free Europe e Radio Liberty) e na distribuição de material impresso antissoviético, mesmo após o fim do projeto AEFREEMAN, em 1964.

A agência estadunidense também se manteve por trás da Radio Vaticano durante toda a Guerra Fria. Aproveitando-se do tradicionalismo e forte religiosidade de grande parte da população lituana, as emissões da rádio serviram para inflar o sentimento contra o sistema soviético. Em 1979, a Igreja Católica encabeçou uma petição que teve 350 mil assinaturas pedindo a independência da Lituânia. Segundo estimativas do governo soviético, 75% dos lituanos era ligado à Igreja.

No início da década de 1980, ganhou grande força o assunto das nacionalidades e aumentou muito a pressão nacionalista na URSS, principalmente no Báltico. De fato, esse foi um fator chave para a queda da União Soviética, impulsionado pela crise econômica influenciada por elementos internos e externos.

Durante toda essa década as rádios estiveram ativas na divulgação da propaganda nacionalista, antissoviética e pró-americana. Como confirmam os arquivos da CIA, os EUA sempre buscaram explorar e influenciar o problema das nacionalidades.

Descentralização do poder soviético, pressões para a liberalização e mudanças dentro do país, maximização da influência dos EUA por meio das rádios RFE e RL e missões e intercâmbio oficial e não oficial entre URSS e EUA eram estratégias para enfraquecer a União Soviética.

"Adicionalmente, precisamos olhar para outros meios de incrementar o contato/influência religiosa conforme essa dimensão seja central para várias das situações das diferentes nacionalidades", completa um relatório secreto de 1982 publicado recentemente.

Outra estratégia para incentivar o sentimento nacionalista foi a ideia de abrir serviços oficiais em regiões de minorias, assim como consulados em regiões muçulmanas da URSS.

Na mesma época, a agência de espionagem iniciou o processo de criação do Soviet Nationalities Interagency Group. "Esse grupo deve ter responsabilidade para encorajar a alocação de recursos financeiros e institucionais adequados para o desenvolvimento de grupos étnicos e nacionais soviéticos", relata outro relatório, de 1983.

Expandir atividades da VOA, RFE e RL e reforçar redes de distribuição de jornais, livros e fitas cassete com conteúdo subversivo também fazia parte das iniciativas.

Começaram a crescer a cada ano as manifestações nacionalistas e separatistas, por vezes violentas, nos territórios do Báltico. Chegaram às centenas no final da década de 1980.

Algumas das organizações que tiveram contato com a CIA nos anos 60 e 70, ou membros daquelas, também participaram das mobilizações que levaram à independência das repúblicas bálticas.

Na Lituânia, o movimento de independência entre 1987 e 1990 foi em boa parte inspirado na guerrilha dos anos 40 e em seu líder Juozas Luksa, exaltando seu sentimento nacionalista.

A União Soviética caiu em 1991, fragmentando-se em 15 países diferentes. No entanto, o nacionalismo estimulado pela CIA influenciou o ressurgimento de ideias nazifascistas em alguns países do Báltico e do leste europeu nos últimos anos.

 


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