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O Ocidente e a crise da Ucrânia, uma análise retropectiva

17.04.2018
 
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Artigo de Opinião: O Ocidente e a crise da Ucrânia, uma análise retropectiva

O pós-Guerra Fria, na Europa, configurou-se como uma dualidade. Por um lado, os Estados Unidos saíram do período da bipolaridade como a única superpotência do globo e viveram um "momentum imperial", o que se refletiu na estratégia de integração das repúblicas da extinta União Soviética à esfera de influência ocidental (BANDEIRA, 2013, p. 53). Por outro lado, debilitada devido ao esfacelamento da URSS, a Rússia viu os países que anteriormente compunham a esfera de influência soviética se aproximarem e adotarem padrões político-econômicos do Ocidente. Com efeito, instituições ocidentais - notadamente OTAN e União Europeia - avançaram sobre as antigas repúblicas soviéticas.

Diferentemente do pensamento convencional, que atribui a Putin a responsabilidade pela crise, Mearsheimer (2014) argumenta que o Ocidente detém a maior parcela de culpa pelo que ocorreu na Ucrânia. A razão para isso é que o Ocidente ameaçou interesse estratégico fundamental da Rússia ao buscar tornar a Ucrânia "um bastião do Ocidente". Assim, o Ocidente não deixou alternativa à Rússia, senão agir "agressivamente" para assegurar seus interesses estratégicos na Ucrânia, o que ocasionou a anexação da Crimeia.

Deve-se lembrar que o processo de alargamento da OTAN continuou e intensificou-se ao longo das décadas de 1990 e 2000, apesar dos protestos russos. No ano de 2008, quatro meses após a reunião de Bucareste, a Rússia invadiu a Geórgia, o que, segundo Mearsheimer (2014), deveria ter sido o suficiente para dissipar qualquer dúvida sobre a determinação russa de evitar que Ucrânia e Geórgia entrassem para a OTAN. Apesar da advertência, a OTAN jamais abandonou sua intenção de admitir os dois países. Além disso, continuou o processo de alargamento e, no ano seguinte, Albânia e Croácia foram admitidas.

De acordo com Sussman e Krader (2008), a influência política do Ocidente sobre os ocorridos na Geórgia e na Ucrânia adotou duas táticas: unificação da oposição; e financiamento de pesquisas de boca de urna.

            A estratégia ocidental de mudança de regime, aplicada na Ucrânia em 2004, fenômeno conhecido como Revolução Laranja, triunfou. Essa ferramenta do Ocidente de promoção da "democracia", que foi utilizada para afastar a Ucrânia da Rússia e incorporá-la ao seu bloco, corroborou com o processo anteriormente descrito de alargamento da OTAN e marcha do Ocidente a leste, à custa da Rússia (MEARSHEIMER, 2014).

A cooperação dos membros da União Europeia pode ser percebida desde assuntos de política interna (combate à corrupção; acesso ao mercado europeu sem barreiras tarifárias; e da adoção de legislação comercial comum), até temas de cooperação multilateral como, por exemplo, a gestão integrada de fronteiras (EUROPEAN COMMISSION, 2016; PARK, 2014).

Ao invés do acordo com a União Europeia, a Ucrânia buscou fortalecer cooperação com a Rússia (BBC, 2014). A razão para isso foi que a Rússia pressionara a Ucrânia a não assinar o acordo. Algumas semanas mais tarde, o presidente russo, Vladimir Putin, ofereceu um acordo de assistência econômica à Ucrânia, concordando com a compra de US$ 15 bilhões da dívida ucraniana, redução do preço do gás natural fornecido à Ucrânia em um terço e investimento no setor industrial do país (BBC, 2014; PLEKHANOV, 2015).

Ainda no final de novembro de 2013, milhares de manifestantes formaram os maiores protestos do país desde a Revolução Laranja, de 2004 (BBC, 2013). No início do mês de dezembro, oitocentas mil pessoas ocuparam a Praça Maidan, em Kiev, pedindo o afastamento do presidente ucraniano e a retomada das negociações com a União Europeia (BBC, 2013). Dessa vez, as manifestações tornaram-se violentas.

Um importante movimento realizado no conflito foi dado pela Rússia. Em resposta à queda do presidente da Ucrânia, o Kremlin denunciou a nova liderança ucraniana como ilegítima (HILLE, 2014). No dia primeiro de março, o parlamento russo aprovou o pedido de Putin para usar a força e proteger os interesses russos na Ucrânia (BBC, 2014). Seu interesse primordial era a manutenção da base naval de Sebastopol, na Crimeia. Esse porto é considerado a base da frota naval russa do Mar Negro, vital para a projeção de poder naval para o Mar Mediterrâneo e para a defesa do porto de Novorossisk - maior porto comercial da Rússia, localizado em sua costa no Mar Negro (HILLE, 2014).

A urgência em defender a base naval de Sebastopol decorreu da mudança de regime em Kiev. Havia uma ameaça do novo governo cancelar a concessão do uso do porto de Sebastopol pela frota naval russa até, pelo menos, 2042. Se a nova administração o fizesse, a frota russa da base de Sebastopol não teria mais respaldo político para se manter na Crimeia. Além do que, estaria aberto o caminho para que a Ucrânia fechasse acordo com a OTAN para que esta utilizasse as bases, até então russas, em Sebastopol (HILLE, 2014).

Para preservá-la, portanto, os russos decidiram tomar a Crimeia. Em 27 de fevereiro, ainda antes do pedido formal de Putin ao parlamento, forças armadas russas começaram a tomar pontos estratégicos da península. Em virtude das milhares de tropas já estacionadas na base de Sebastopol - cerca de quinze mil -, não foi necessário invadir a Crimeia, apenas a dominar.

De acordo com Plekhanov (2015), esse episódio deteriorou mais ainda as relações entre Rússia e Ocidente. Os governos dos EUA e diversos países europeus condenaram a ação russa. A Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou resolução apoiando a soberania territorial ucraniana e incentivando a comunidade internacional a não reconhecer o referendo que ocorrera na Crimeia (com maciça aprovação de sua incorporação à Rússia). Países ocidentais impuseram sanções econômicas sobre a Rússia e interromperam cooperação em várias áreas.

Como afirma Marshall (2015), líderes ocidentais têm dificuldade de desvendar as ações da Rússia. Após a anexação da Crimeia, Putin foi acusado de ser irracional, de querer ressuscitar o império soviético e foi comparado a Hitler. Segundo a opinião prevalecente no Ocidente, a responsabilidade pela crise da Ucrânia pode ser atribuída quase que inteiramente à Rússia. No entanto, na visão de Mearsheimer (2014), trata-se de um equívoco, uma vez que segundo ele, os EUA e seus aliados são quem detêm a maior parte da responsabilidade pela crise. Nessa direção, a intervenção russa na Ucrânia deve ser entendida a partir da tentativa dos líderes russos de "lidar com a geografia": sua vulnerabilidade em terra firme e falta de portos de águas quentes - levaram à sua ação na Ucrânia, em 2014.

Portanto, a crise da Ucrânia foi responsabilidade do Ocidente. Para tal explicação, pode-se dizer: primeiro, a Ucrânia se configura como interesse estratégico fundamental da Rússia. Em segundo lugar, o Ocidente avançou sua tróica sobre a Ucrânia: financiou a Revolução Laranja, de 2004 e se aproximou política, econômica e militarmente dela (por meio da União Europeia e da OTAN). Em terceiro lugar, a Rússia reagiu, ao anexar a Crimeia. Conclui-se, portanto, que a ação do Ocidente adotada no pós-Guerra Fria - expressa pelo avanço da OTAN, pela promoção da democracia e pela expansão da União Europeia - estimulou, portanto, a Rússia a agir agressivamente na Ucrânia, em 2014. Em outras palavras, a ameaça imposta pelo Ocidente provocou resposta da Rússia, que defendeu seus interesses estratégicos fundamentais. Entretanto, tal resposta foi provocada por uma série de ações alavancadas pelo Ocidente, em especial, pelos Estados Unidos e seus aliados.

Referências

BANDEIRA, Luiz. (2013) A Segunda Guerra Fria. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

BBC. (2005). Timeline: battle for Ukraine. Londres: BBC News. Disponível em:. Acessado em: 26 set. 2016.

______. (2013). Huge Ukraine rally over EU agreement delay. Londres: BBC News. Disponível em:. Acessado em: 24 out. 2016.

______. (2014). Timeline: Ukraine crisis. Londres: BBC News. Disponível em:. Acessado em: 24 out. 2016.

EUROPEAN COMISSION. (2016). Eastern partnership. Bruxelas: European Comission. Disponível em:

HILLE, Kathrin. (2014). Ukranian port is key to Russia's naval power: Moscow relies on Sevastopol Black Sea base for regional security. Londres: Financial Times. Disponível em:. Acessado em: 26 out. 2016.

MARSHALL, Tim. (2015). Prisoners of geography. Nova York: Scribner.

MEARSHEIMER, John. (2014). Why the Ukraine crisis is the west's fault: the liberal delusions that provoked Putin. Nova York: Foreign affairs. Disponível em:. Acessado em: 12 jun. 2016.

PARK, Jeanne. (2014). The European Union's eastern partnership. Nova York: Council on foreign relations. Disponível em:. Acessado em: 17 out. 2016.

PLEKHANOV, Sergei. (2015). Assisted suicide: internal and external causes of the Ukrainian crisis. In: Black, Joseph; Johns, Michael. The return of the Cold War: Ukraine, the west and Russia. Nova York: Routledge.

SUSSMAN, Gerald; KRADER, Sascha. (2008). Template revolutions: marketing U.S. regime change in Eastern Europe. Westminster: Westminster Papers in Communication and Culture, v. 5, n.3, p. 91-112. Disponível em:. Acessado em: 20 set. 2016.

Fred Leite Siqueira Campos

Beatriz Marcondes de Azevedo

Iuri Endo Lobo

Nota editorial: A Rússia não invadiu a Geórgia, fez uma operação contida depois da Geórgia ter atacado Ossétia Sul e ter assassinado elementos russos na equipa de efectivos pela paz. Na Crimeia, a Rússia não tomou posse. Na ausência do presidente eleito democraticamente, Yanukovich, a entidade com poder executivo legal na República foi A Assembléia Constituinte, que organizou um referendo livre e democrático. Os habitantes da Criméia votaram para retornar à Rússia.

Timothy Bancroft-Hinchey

 


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