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Para onde vai o leste europeu: Os russos estão voltando (I)

17.04.2009
 
Pages: 12
Para onde vai o leste europeu: Os russos estão voltando (I)

Flávio Aguiar*

Quando a União Soviética se dissolveu, em 1991, houve uma repartição de poderes muito especial. Aos poucos, restaurou-se o espírito czarista, com estrutura e hierarquia religiosa e tudo, mas um czarismo renovado, adaptado às novas necessidades e circunstâncias de um capitalismo selvagem com predomínio no mundo inteiro.

“Os russos estão chegando!” é o título de uma excelente comédia de Norman Jewinson, de 1966, que ganhou dois Globos de Ouro em 1967: melhor comédia e melhor ator de comédia, com Alan Arkin. O roteiro é uma adaptação feita por William Rose, de um romance de Nathanael Benchley, “The Off-Islanders”, de 1961. No romance, eram alemães; no filme, são russos de um submarino que encalha à beira de uma ilha da Nova Inglaterra, nos Estados Unidos, em plena Guerra Fria.

O comandante russo envia um destacamento à terra, liderado pelo tenente Rozanov (Arkin), para conseguir barcos que ajudem o submarino a desencalhar. E daí vai-se a comédia, com o contraponto de uma tripulação russa apavorada e de habitantes da ilha que resolvem tomar nas mãos o “manifest destiny” de acabar com os então soviéticos.

Claro, não falta um clima de melodrama porque o marinheiro russo (John Phillpi Law) ensaia um namorico com a jovem norte-americana (Andréa Dromm), tudo supervisionado por um elenco de primeira. Além de Arkin lá estão Jonathan Winters, Brian Keith, Eva Marie-Saint, Carl Reiner, gente de primeira, muito melhor do que os Reagan, Bush, Putin e outros de que teremos de tratar neste artigo. Não viu? Corra na locadora mais próxima, para matar as saudades dos bons tempos em que a Guerra Fria tinha colorações ideológicas.

É, porque a atual não tem. A atual virou uma disputa de posições como antes da Primeira Guerra Mundial. Como assim? Vamos lá.

O fim da Guerra do Vietnã, visto de hoje, assinala o fim, não o começo, de uma era, ou momento. Foi um momento revolucionário, cujo começo remonta a 1905 (ou será 1871, ou 1848, ou 1789, ou 1776?), mas cujo epicentro é a Segunda Guerra Mundial, seus antecedentes e seus desdobramentos.

No fim da Guerra do Vietnã a maior potência da história humana saiu derrotada de um pequeno território onde se afundou em contradições. Mas seu poderio militar saiu intacto da derrota. Ao contrário do que se poderia prever, dali por diante se fortaleceu. Melhorou tecnologicamente; com a terceirização de certos serviços se segurança mais sujos, ganhou em eficiência; do que tinha vergonha (praticar tortura), passou a admitir sem rebuços, com as doutrinas posteriores, especialmente depois de George Bush Filho e da ascensão de Condoleezza Rice a ideóloga de governo.

Sobretudo, saiu com o olho fixo no inimigo principal, a União Soviética. E derrotou-a, numa guerra peculiar.

Os analistas mais ousados hoje (ver o livro de Fiori e outros, “O mito da queda do poder americano”, Ed. Record, e suas fontes, por exemplo) apontam para o conceito de que a vitória norte-americana e capitalista na Guerra Fria foi uma vitória militar, antes (mas com esse segundo aspecto) de ser política. O principal derrotado foi o Exército Vermelho, criado em 1918 por Leon Trotsky e rebatizado em 1945 como Exército Soviético.

Apontam essas análises para a idéia de que o Exército Vermelho seria o principal responsável pela manutenção do ideal e da existência da União Soviética. E que foi sua derrota militar que provocou, ou pelo menos deu o tiro de misericórdia, na finada pátria/mátria do comunismo.

Mas essa derrota também foi uma derrota peculiar. Não houve uma invasão, um destroçamento, do Exército. Sequer houve um tipo de “last stand”, como houve, por exemplo, até mesmo no caso do exército alemão ao fim da Segunda Guerra, em Berlim, contra aqueles mesmos soviéticos. O Exército Vermelho, cercado por suas glórias, e a que humanidade deve tanto, soçobrou economicamente: tornou-se caro demais, e na sua disputa com a nomenklatura do partido que ocupava o governo de seu país-chefe, a Rússia (com a cortina de fumaça da União Soviética), passou a enfrentar privações: falta de peças de reposição, de avanços tecnológicos, até mesmo de apoio político. Resultado: assim como o exército norte-americano afundou no Vietnã, os russos, quinze anos depois, afundaram no Afeganistão. Mas de lá saíram desmoralizados, sem apoio interno, criticados por todos os lados, com uma contestação enorme em suas repúblicas-satélites onde houvesse grandes populações muçulmanas. Já os norte-americanos capitalizaram essa derrota. Entre outros feitos, aproximaram-se militar e politicamente dos talibãs, de Osama Bin Laden e da Al-Qaeda, e de Sadam Hussein, com as conseqüências que se conhece. Mas isto é assuntou para ainda outro artigo. Voltemos aos russos.

O arsenal do Exército ex-Soviético, ex-Vermelho, agora Russo, ficou intacto em seu setor máximo: o nuclear. Além disso, seu poderio em terra ficou preservado; e desta vez não houve os expurgos patrocinados por Stalin no passado. Ele trocou de lugar, no entanto: sua submissão aos interesses do Kremlin ficou mais aguda, pela dependência econômica, ainda mais porque seu arqui-rival, a OTAN, continuou a cercá-lo. Sob o comando de Reagan, em plena era Thatcher, a OTAN armou-se de mísseis até os dentes na Europa, e começou a invadir as áreas que antes eram do rival: a ex-Iugoslávia, o Kossovo, a Polônia, a ex-Tchecoeslováquia, e assim por diante.

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