Pravda.ru

Federação Russa

OTAN tira onda de botá pá quebrá (a Síria)

16.12.2015
 
OTAN tira onda de botá pá quebrá (a Síria). 23439.jpeg

OTAN tira onda de botá pá quebrá (a Síria)* 

Os Serviços de Segurança, Serviços Secretos e Serviços Especiais da Federação Russa (FSB, SVR GRU), quanto mais descobrem as conexões corretas, mais têm de concluir que Washington decidiu deixar que a Guerra Fria 2.0 escale até entrar em ebulição. 

Imagine a inteligência russa examinando o tabuleiro de xadrez geopolítico. 
15/12/2015, Pepe Escobar, RT
Um jato de passageiros russo é bombardeado por um afiliado do ISIS/ISIL/Daesh. Um jato de combate russo é emboscado e derrubado pela Turquia; e isso é cenário parcial, mas perfeitamente crível, de como se passaram as coisas.

Bandidos da direita ucraniana sabotam a rede de suprimento de energia da Crimeia. Uma base do exército sírio próxima de Deir Ezzor - importante posto avançado contra o ISIS/ISIL/Daesh no leste da Síria - é atacada pela Coalizão dos Oportunistas Finórios (COF) liderada pelos EUA. O FMI "perdoa" a dívida e 'legaliza' o calote da Ucrânia contra a Rússia, quando o país entra, de fato, na Guerra Fria 2.0.

E essa é listinha resumida.

Há aí uma progressão lógica. O CCGOTAN (Conselho de Cooperação do Golfo plus OTAN) na Síria já não se aguenta de angústia. A entrada da Rússia no teatro de guerra sírio - guerra à distância; não é guerra civil -, lançou no mais absoluto dessarranjo os planos elaborados e absolutamente criminosos para 'mudar o regime' sírio.

Se a COF liderada pelos EUA estivesse realmente interessada em dar combate contra o ISIS/ISIL/Daesh, os Oportunistas Finórios ter-se-iam posto ao lado do Exército Árabe Sírio (EAS) e não se poriam a bombardeá-lo ou tentar detê-lo.

E também teriam tentado ativamente fechar os pontos de passagem chaves na fronteira turco-síria - o corredor Jarablus que permanece, de fato, como uma Rodovia Jihadista operante 24 horas/dia, sete dias/semana.

O jogo da OTAN na Síria chafurda na mais escorregadia ambiguidade. Discussões com diplomatas da União Europeia dissidentes, não necessariarmante vassalos da OTAN, revelam uma contranarrativa de como o Pentágono mapeou a estratégia russa; como interpretaram que as forças russas estariam relativamente isoladas; e como decidiram permitir que Ancara, sob o Sultão Erdogan, enlouquecesse totalmente - ferramenta perfeita, garantindo negabilidade plausível.

O que nos leva de volta ao Su-24 derrubado. Avançando mais um passo, o especialista russo Alexei Leonkov mantém que não apenas a OTAN rastreou toda a operação pelos seus sistemas AWACS, mas que, além disso, outros sistemas AWACS da Arábia Saudita realmente guiaram os jatos F-16s da Turquia.

Os F-16s não têm capacidade para disparar mísseis ar-ar sem orientação de sistemas AWACS. Os dois conjuntos de dados, russos e sírios - que podem ser submetidos a verificação em separado - põem os sistemas AWACS norte-americano e saudita naquela área no momento. E, para completar, o detalhado contrato de venda dos F-16s entre EUA-Turquia estipula que os aviões não podem ser usados sem permissão contra qualquer terceiro país.

Tudo isso sugere possibilidade extremamente perigosa: operação direta de CCGOTAN contra a Rússia; é o que poderá ser mais bem explicado pela caixa preta recuperada do Su-24.

Como se isso não bastasse para fazer subir muitas sobrancelhas, pode ser também o primeiro movimento de um tabuleiro de xadrez que se expande. O alvo final: manter a Rússia bem longe da fronteira turco-síria.

Mas não acontecerá, por várias razões - das quais algumas das mais consideráveis são os ultraletais S-400s. A Força Aérea Turca está com tanto medo, que nem urubus e corujas decolam. Tudo q voa por ali está colado ao chão, não decola por nada no mundo, ao longo de toda a fronteira.

Entrementes, o componente de Inteligência Humana, Humint, vai sendo inflado: mais e mais coturnos ocidentais em solo, alemães incluídos, identificados como meros "conselheiros" - os quais, se mandados para campo de batalha, quase inevitavelmente cruzarão com o Exército Árabe Sírio. Para amolecer a opinião pública, a facção dos neoliberais conservadores alemães que prega bombardeio humanitário já está espalhando a novela de que Assad seria o verdadeiro inimigo, não algum ISISI/SIL/Daesh. Por fim, os alemães já deixaram bem claro que não trabalharão com a Rússia e o Exército Árabe Sírio, e só respondem ao Centcom na Florida e ao quartel-general da COF no Kwait.

O plano máster da OTAN para o norte da Síria nas próximas poucas semanas e meses apresenta, essencialmente, jatos de combate de EUA, Reino Unido e Turquia, com os franceses ainda em cima do muro (estamos colaborando de facto com os russos, ou é só pose?). Será vendido à opinião pública global como esforço da "coalizão" - e quase nem se faz qualquer referência à Rússia.

O plano máster, sob a máscara de que haveria algum bombardeio contra o antro do falso "Califato" em Raqqa, abriria, idealmente, a trilha para criar uma "zona segura" de facto com a qual Erdogan sonha, pelo corredor Jarablus, a qual de fato seria uma zona aérea de exclusão capaz de proteger a gangue completa de "rebeldes moderados", codinome "jihadistas salafistas de linha duríssima tipo al-Nusra".

Paralelamente, se preparem todos para uma enchente de 'notícias' e análises sobre a necessidade de "proteger" a minoria turcomena no norte da Síria, na verdade a Quinta Coluna da Turquia, pesadamente infiltrada por islamo-fascistas do tipo "Lobos Cinzentos". Já começou com Ancara acusando Moscou de fazer "limpeza étnica". Erdogan não mede palavras e já recorreu até à R2P ("responsabilidade de proteger" com libertação pela OTAN, ao estilo da Líbia.)

E é aqui que a OTAN está em total sincronia com Ancara; afinal, uma "zona segura" protegida pela OTAN e pululante de "rebeldes moderados" é ferramenta perfeita para turbinar o ataque contra o estado sírio.

Não é legal, mas nem ligo 

Claro que a intervenção da OTAN na Síria é absoluta e perfeitamente ilegal.

A Resolução n. 2.249 do Conselho de Segurança da ONU não respeita o Capítulo 7 da Carta da ONU. Mas mais uma vez a linguagem 'criativa' - artifício retórico à francesa - disfarça a evidência de que nada justifica o uso de força militar e dá a impressão de que o CS-ONU teria aprovado o que não passa de invasão.

E foi precisamente nessa direção (errada) que David das Arábias Cameron interpretou-a. Dissimular e enganar são itens integrados ao processo, com Londres já jurando que trabalhará ombro a ombro com Moscou.

A Resolução n. 2.249 é só mais uma, das leis da ordem internacional que fica aí reduzida a escombros. Porque esses - esporádicos - ataques aéreos de franceses e britânicos, mascarados sob o pretexto de que atacariam ISIS/ISIL/Daesh, jamais foram autorizados por Damasco, e o Conselho de Segurança da ONU não foi sequer consultado. A Rússia, sim, mas só ela, recebeu e atendeu à solicitação de ajuda, feita pelo governo de Damasco.

Além do mais, a Coalizão dos Finórios Oportunistas, COF não é coalizão de 60, 65 países como o governo Obama mente freneticamente que seria: não passam, na verdade, de uma camarilha de sete: Alemanha, França, Reino Unido, EUA, Turquia, Qatar e Arábia Saudita. Para encurtar a conversa, é um CCGOTAN aparado rente ao osso.

Quem realmente combate contra o falso "Califato" em solo são o Exército Árabe Sírio; o Hezbollah; os xiitas iraquianos com instrutores iranianos; e, por fora da aliança "4+1" (Rússia, Síria, Irã, Iraque plusHezbollah), também uma coalizão das Unidades de Proteção do Povo Curdo (YPG) e pequenas milícias árabes e cristãs, agora unidas sob uma mesma bandeira política, o Conselho Sírio Democrático, que Ancara, previsivelmente, abomina.

As provocações de Ancara não pararão - incluindo meios "criativos" para impedir a passagem de barcos russos do "Expresso Síria" pelo Bósforo e Dardanelos, sem violar abertamente a Convenção de Montreux.

Implica dizer que o "novo" plano máster da OTAN, vira e rola, ainda rasteja rumo ao objetivo principal: "libertar" o norte da Síria, ao estilo Líbia, e deixar que a região seja tomada por "rebeldes moderados" ou, no pior cenário, por sírios curdos os quais, em teoria, seriam facilmente manipuláveis.

ISIS/ISIL/Daesh nesse caso não seriam "contidos" (idioma do governo Obama) no leste da Síria, mas, sim, expulsos para o deserto no oeste do Iraque, onde dariam origem a um Sunistão. Erdogan quer alucinadamente um Sunistão, mas sua versão é ainda mais ambiciosa, incluindo Mosul.

Tudo isso acontece enquanto uma horda de rebeldes "moderados" sírios reuniram-se em - e onde poderia ser? - Riad, a Central Jihadista wahhabista/salafista, para escolher uma delegação de 42 pessoas para que essas "selecionassem os negociadores" das futuras conversações de paz sírias.

Mais uma vez resolveram que "Assad must go" já durante o processo de transição. E que "forças estrangeiras" devem sair da Síria. Claro que pode permanecer o tsunami de mercenários pagos e armados por Riyadh e por Doha e por Ancara.

Qualquer pessoa de mente funcional perguntaria como é possível que a Casa de Saud leve avante tal absurdo e safe-se: escolher quem é "moderado" numa nação em cuja desestabilização os próprios sauditas estão pesadamente investidos. É simples: porque Riad é proprietária de uma legião de lobbyistas norte-americanos e recompensa nababescamente alguns 'gurus' de Relações Públicas, como Edelman, proprietário da maior agência privada de Relações Públicas em todo o planeta.

E não por acaso, o Conselho Sírio Democrático não foi convidado para ir a Riad.

Os dados estão lançados. Invente Acara o que quiser - sob a cobertura da OTAN - para impedir que os "4+1" ganhem terreno na Síria, o que virá já está escrito no muro (da morte). Pode vir embalado em mísseis cruzadores disparados pela Frota do Cáspio ou disparados de submarinos. E seguirá à risca o que o presidente Putin disse, pessoalmente, ao colegiado do Ministério da Defesa da Rússia:


"Todas as ações da aviação de ataque estão sendo realizadas sob cobertura de caças. Ordeno que todos ajam com extremo rigor. Qualquer alvos que ameace a esquadrilha russa ou a nossa infraestrutura de solo será imediatamente destruído."

 


* A expressão de inspiração, aí, parece ter sido "Papa's got a brand new bag"; é título de álbum de James Brown, lançado em 1965 e de uma faixa desse álbum; tem tudo a ver com ter 'uma bossa' (nova) para cantar, dançar. A tradução acima é tentativa. Todos os comentários e correções são bem-vindos [NTs].

 


Loading. Please wait...

Fotos popular