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Federação Russa

Cimeira da OTAN de Lisboa: Tempo para reflexão

16.11.2010
 

OTAN é o anátema da comunidade internacional de hoje, não servindo senão para se curvar às necessidades, vontades e caprichos do lobby das armas que gravita em torno da Casa Branca, criando uma guarda-chuva supra-nacional, aparentemente dando crédito à sua política expansionista.

Enquanto biliões de pessoas em todo o mundo se questionam como eles vão colocar um pedaço de pão na mesa na hora do jantar, os hotéis de luxo em Lisboa estão cheios, reservados para a visita das delegações da OTAN para a Cimeira da sexta-feira e Sábado, representando muitos dos países que passaram séculos a desviarem recursos sob políticas imperialistas, destruindo povos e culturas e cometendo massacres.

E agora quando as delegações da OTAN reúnem-se para a conferência, há uma enorme nuvem no horizonte, tão grande que apaga o sol que ilumina a própria existência da OTAN: o que é?

OTAN (NATO em inglês) começou como uma aliança política e militar para defender o espaço do Atlântico Norte contra ataque, um acordo de defesa mútua, garantindo uma resposta maciça a qualquer ataque contra um Estado-Membro. Foi constituída em 1949, há mais de sessenta anos. A maior parte da África ainda era governada por potências imperialistas, a tinta ainda não estava seca nos tratados de independência da Índia ou do Paquistão, a rainha Elizabeth II (que hoje está quase comemorando seu aniversário de diamante, seis décadas no trono) apenas era uma princesa real, Churchill ainda teria mais um mandato como primeiro-ministro do Reino Unido.



Este ataque nunca se materializou, principalmente porque o Pacto de Varsóvia era essencialmente uma aliança militar defensiva e, portanto, falar sobre qualquer "vitória" da OTAN na Guerra Fria é ridícula; de forma geral quem profere essas declarações ou é ignorante ou então sabe muito bem que se OTAN tivesse iniciado as hostilidades, a União Soviética teria destruído as suas forças e as principais cidades de seus Estados membros em poucos minutos.

Assim, quando o Pacto de Varsóvia dissolveu voluntariamente em 01 julho de 1991 após a dissolução voluntária da URSS e a reformulação do espaço geo-político que passou entre 19 janeiro de 1990 e 31 dezembro de 1991, por quê OTAN não seguiu o exemplo?

Milhares de páginas foram escritas sobre este tema, mas vamos condensá-las em uma ou duas: a OTAN existe no nível militar, com o pretexto de perpetuar sua própria existência. A sua existência ao nível político e social são apenas fantochada.

Pretextos, de fato, porque quando dissolvido o Pacto de Varsóvia, a OTAN mentiu, dando várias promessas ao longo dos anos que não iria estacionar "forças substanciais de combate" nos territórios pertencentes ao antigo Pacto de Varsóvia. No entanto, a OTAN fez exatamente isso. Expandiu, criando novos mercados para suas armas e criando novas fontes de financiamento para as guerras de Washington.

Tendo dito isso, o resto é fácil de explicar. Tomemos, por exemplo, as guerras que custaram triliões de dólares no Iraque e no Afeganistão (a necessidade de financiar uma política expansionista baseada em controle dos recursos energéticos da Terra, não por Lisboa, ou Tirana, ou Copenhaga, ou Bruxelas, mas por Washington).

É fácil de explicar quando vemos que o Pentágono gosta de celebrar contratos militares para o armamento testado no campo de batalha, daí a necessidade de criar mais conflitos e quanto mais os estados membros envolvidos, maior é o sentimento de legitimidade.

É fácil de explicar quando vemos que, sob a gestão capaz da OTAN, a produção de ópio no Afeganistão, suprimida pelo Talebã, não aumentou quatro, nem catorze, mas quarenta vezes. É fácil de explicar quando vemos a necessidade de criar uma guarda-chuva cada vez maior de legitimidade para garantir que os responsáveis por crimes de guerra da OTAN nunca serão responsabilizados. Somado a isso, sob o olhar dos soldados da OTAN, o Afeganistão tornou-se também o principal fornecedor mundial de haxixe.

Como uma aliança militar, a OTAN é um fracasso, tendo de pagar as milícias sunitas no Iraque para não atacar e pagar o talibã para acompanhar os comboios da OTAN no Afeganistão, embora seja do conhecimento comum que nem o talibã, nem Al Qaeda, podem ser derrotados por essa força multi-nacional.

Como um grupo político, como é que os Estados membros da OTAN apoiam os colegas cujos ex-líderes são objecto de mandados de detenção por crimes de guerra no Tribunal Penal Internacional de Haia? As Constituições destes Estados permitem isso?

E, como organização que está tentando forjar um vetor social para justificar a si mesmo, quem é a OTAN e que direito tem, para suplantar os esforços da ONU? E aqui reside o cerne da questão: em uma comunidade internacional com a Organização das Nações Unidas, supostamente responsável pela resolução de conflitos internacionais e gestão de crises e agora sem uma Pacto de Varsóvia, onde a OTAN se encaixa?

Em lugar nenhum.

A única opção para a OTAN em Lisboa, é fazer a coisa certa e dissolver-se, como um mútuo e multilateral sinal de boa vontade. Mas isso não vai acontecer, que a psique por trás da OTAN é sinistro e a organização em si não é nada multilateral, de facto.

Agora, se a OTAN envolvesse a Rússia e a CSTO, com vista à criação de uma força de reacção rápida em todo o mundo, integrando-a sob os auspícios da UNO, que seria universalmente respeitada, ninguém reclamaria.

Mas isso também não vai acontecer. Uma pergunta. Porquê a OTAN rege as políticas externas dos países membros se ninguém a elegeu? O que têm a dizer as constituições sobre isso?


Foto: Terrorista perigoso abatido pela aviação da OTAN


Timothy Bancroft-Hinchey
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