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Federação Russa

Dominós Vobiscum!

09.11.2009
 
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Dominós Vobiscum!

Para aqueles que consideram que o título desta peça é inadequada, eu responderia que a demonstração de histrionismo pueril, inconsequente e mesquinho, do tipo que se vê numa sociedade dramática amadora entre atores falhados que se realiza hoje, em Berlim, com uma exposição de derrubar dominós, atinge o sublime, em termos de estupidez e o zênite do absurdo, inanidade e insolência.

Escolhi no título uma analogia em Latim para lembrar a aqueles que regozijaram a reunificação alemã e o "colapso da União Soviética" (uma noção tão errada como é revisionista) que houve uma altura em que a União Europeia realmente existia, per se, com uma moeda única, um sistema jurídico único, e até mesmo uma língua única. O que aconteceu a ele?

Portanto, as aglomerações de países são formadas e separam-se, no âmbito de um processo natural, social e econômico e é exatamente isso que acontece com a URSS, cuja dissolução foi prevista e preparada na sua Constituição. Não é culpa de Moscovo se a Geórgia, por exemplo, não conseguiu fazer jus às suas obrigações em relação as suas responsabilidades na secessão da União.

Esses vetores sociais e econômicos devem também ser tidos em conta quando se estuda as áreas sensíveis da história em que os ideais políticos constituíam uma parte muito pequena quando comparamos com os jogadores demográficos, sociológicos e de desenvolvimento, processos que se movimentavam em todas as sociedades em todos os momentos ao longo dos séculos.

Enquanto ninguém está defendendo o assassinato das pessoas que tentaram cruzar a fronteira da RDA (embora todo o mundo sabia quais eram as consequências), e ninguém está menosprezando os horrores das purgas estalinistas, as coisas têm de ser tomadas no contexto. Porque é que o modelo comunista é responsabilizado por essas tragédias (entendendo que a perda de uma vida humana é sempre uma tragédia), enquanto, por exemplo, os massacres perpetrados pelas potências imperialistas em todo o mundo foram devidos ao quê? Aos sistemas capitalistas orientados para o mercado? O capitalismo está a ser acusado pelas tentativas dos EUA a assassinar Fidel?

Para aqueles que se enrolam a rir histericamente com tamanha inteligência hoje a depararem que os dominós estão caindo, lembremo-los que o modelo socialista foi instituído na Europa Central e Oriental por nacionalistas que lutaram e derrotaram um dos piores flagelos da história da Humanidade - o regime fascista, nazista, com os seus apetrechos de assassinato maciça, racismo, genocídio, crimes contra a humanidade, as câmaras de gás, os fornos, a deportação de pessoas em condições indescritivelmente deploraveis... e a morte de quase 27 milhões de cidadãos soviéticos que morreram libertando a Europa e o mundo dessa tirania. Será que isto vai ser impresso nos dominós? Não, vai ser convenientemente esquecido. Existem hoje até Estados-Membros da U.E. que glorificam o nazismo!

Para aqueles que gritam num estupor de bebedeira quando os dominós começam a cair, vamos lembrar os grandes valores representados nas sociedades ex-socialistas, que depois de derrotar a tirania nazista exportaram a Revolução através da exportação de liberdade, levando a luta muito para além das fronteiras da Europa e lançaram os movimentos de libertação contra o imperialismo e o colonialismo (os mesmos regimes que apenas alguns anos antes tinham sido responsáveis pelo outro Holocausto nunca referido - escravidão), lutando abnegadamente para o desenvolvimento das sociedades, tornando uma realidade para milhões de pessoas excelentes sistemas de educação e de saúde enquanto se esforçaram para criar e proteger os direitos humanos básicos. Isso vai ser esquecido nos dominós? É claro que vai!

O que foi criado, então, e deixem que isto seja lembrado como a queda de cada dominó, foi um modelo social progressista em que o Estado forneceu excelentes e gratuitos sistemas de saúde, sistemas de ensino, um modelo social que incutiu a noção de progresso através da excelência, a habitação gratuita, transporte, serviços públicos, um emprego e pensão garantido, tempo de lazer e atividades culturais para preenchê-lo.

Então vamos comemorar e berrar de alegria com a queda de cada dominó, lembrando o que substituiu o sistema Socialista e visitou em cada lar das ruas de Berlim Oriental, Budapeste, Praga, Bratislava, Varsóvia, Sófia e Bucareste, para citar apenas algumas cidades, algo em que nunca sequer os seus cidadãos sonhavam, nem sabiam que existia, nomeadamente, a toxicodependência, prostituição, tráfico de seres humanos, estatísticas terríveis de criminalidade de rua, a desobediência, vandalismo desenfreado, destruição, desrespeito para a pessoa e propriedade, comportamento anti-social, o desemprego endémico, a insegurança total e incapacidade para garantir uma necessidade básica, como uma casa (é um drama obter uma residência própria e outro ainda maior mantê-la), um sistema de educação que se tornou num negócio (quantas dezenas de milhares custa hoje um Mestrado ou tese de Doutoramento?), o colapso do um sistema público de saúde, em um mundo onde as pensões já não são garantidas pelos países que pregam uma coisa na OMC (livre comércio), mas praticam o proteccionismo, tarifas e subsídios para garantir que os que têm, mantêm-no - e que os pobres permanecem fechados lá fora no frio.

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