Pravda.ru

Federação Russa

As relações russo-iranianas

08.01.2007
 
Pages: 12
As relações russo-iranianas

Considera-se a Rússia como "a grande aliada" do regime iraniano, o país que fornece armas e tecnologias nucleares a Teerã.

A imprensa ocidental nunca faz nenhuma distinção entre o reator de Busher, contruído pela Rússia, e o programa nuclear iraniano que talvez tenha intenções militares, e assim sugere que são os russos quem fornecem tecnologia para armas nucleares. E considera-se como certo que a Rússia vende armamentos para o Irã. Nada disso, porém, corresponde à realidade. As relações russo-iranianas, embora muito boas e próximas, estão longe de serem uma aliança. E a Rússia nunca forneceu tecnologia ou equipamentos que pudessem servir para o Irã construir armas nucleares.

O Irã é sem dúvida um fator de inestabilidade ao Oriente Médio: os Estados Unidos desperdiçaram a chance de melhorar suas relações na década de 90, quando o Irã tinha um presidente moderado (Khatami), agora tem um presidente mais duro (Ahmadinejad) que não perde a oportunidade de ameaçar Israel e apóia movimentos terroristas no Líbano e na Palestina. E apesar dos grandes esforços de muitos países, ainda não está completamente garantido que o Irã não pretende fabricar armas nucleares.

Apesar de tudo, o Irã está longe de ser uma grande potência militar, e é um país que gasta muito menos com armamentos que outros da região (pouco mais de 1% do PIB, contra 9,4% do PIB em Israel e 10% na Arábia Saudita). Até hoje, a maioria dos armamentos iranianos são de origem estadunidense, adquiridos antes da Revolução Islâmica de 1979, quando o Irã ainda era um dos melhores aliados de Washington. O Irã possui alguns aviões de origem russa, mas que não foram comprados da Rússia, e sim recebidos do Iraque em 1991, quando da primeira Guerra do Golfo: para evitar que fosse totalmente destruída, o então líder iraquiano Saddam Hussein mandou parte de sua força aérea a seu vizinho (e antigo inimigo), que não devolveu muitos desses aviões.

A imprensa dos EUA, Israel e alguns países da Europa, porém, alega que o Irã adquiriu da Rússia sofisticados caças Su-27 e MiG-31, e está modernizando seus bombardeiros Su-24 herdados do Iraque. Este até foi o suposto motivo para um breve embargo estadunidense contra as empresas Sukhoi (fabricante do caça Su-27 e do bombardeiro Su-24) e Rosoboronexport (firma estatal responsável pela exportação de armas), embargo que foi levantado em poucos meses. A única arma que a Rússia forneceu ao Irã recentemente é o sistema de defesa anti-aérea Tor-M, que não serve para atacar ninguém, não ameaça nenhum país, e tem alcance limitado a apenas 40 km.

Quanto ao programa nuclear, a Rússia participa apenas da contrução de um reator nuclear para geração de eletricidade, em Bushehr. O uso deste reator é supervisado tanto pela Rússia quanto pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), para impedir que seja usado na produção de materiais radioativos para armas. O combustível nuclear vendido pela Rússia não é suficientemente puro para que possa ser utilizado na fabricação de armas atômicas, e portanto é perfeitamente legítimo de acordo a todas as leis internacionais sobre uso da energia atômica para usos pacíficos e não-proliferação de armas nucleares. Uma vez usado, todo o combustível nuclear retorna à Rússia, para que o Irã não possa reciclá-lo e utilizá-lo com outros fins.

Como afirmou o ministro da defesa russo, Sergei Ivanov, a suspeita sobre o programa nuclear iraniano não está em Bushehr, mas nos centros de Arak e Natanz: o primeiro é um reator de água pesada em construção, e o segundo uma usina de enriquecimento de combustível nuclear que, segundo a AIEA, tem 160 centrífugas em operação e outras 100 em construção.

Um dos elementos mais importantes na produção de armas nucleares é o enriquecimento do combustível: estas armas necessitam urânio e plutônio muito concentrados e puros, que não existem na natureza e só podem ser obtidos através de equipamentos caros e sofisticados, em geral centrífugas de alta rotação. Os poucos países que dominam esta tecnologia procuram de todos modos impedir que outros tenham acesso a ela. Como o Irã conseguiu adquiri-la? Não através da Rússia, mas sim de um dos aliados dos EUA: o Paquistão. Que por sua vez, as adquiriu da Urenco, um consórcio formado por Reino Unido, Holanda e Alemanha.

Em 1972, um jovem engenheiro paquistanês, Abdul Qadeer Khan, foi à Holanda trabalhar numa subsidiária da Urenco. Lá ele teve acesso a informações confidenciais sobre as centrífugas, e as passou a agentes de seu país, que graças a isso pôde construir seu próprio centro de enriquecimento na década de 80. A cargo do programa nuclear paquistanês, Khan por sua vez passou estas tecnologias à Líbia, Irã e Coréia do Norte, como ele mesmo admitiu em 2004. Segundo Khan, ele fez isso por conta própria, e não seguindo ordens do governo de seu país, mas curiosamente foi perdoado pelo líder paquistanês Pervez Musharraf, e condenado apenas a prisão domiciliar.

Enfim, quem forneceu tecnologias proibidas pelos tratados de não-proliferação de armas nucleares não foram os russos, mas ninguém menos que aliados dos EUA: o Paquistão e, indiretamente, os europeus. E também uma corporação estadunidense: a Halliburton, que mantém relações muito próximas com o governo de George W. Bush e cujo presidente era o atual vice-presidente dos EUA, Dick Cheney, também vendeu tecnologia para as centrífugas iranianas. Para mais detalhes, ver o seguinte sítio (em espanhol): http://www.voltairenet.org/article143725.html

Pages: 12

Loading. Please wait...

Fotos popular