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E se a gente voltasse a discutir a Revolução Russa?

07.12.2017
 
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E se a gente voltasse a discutir a Revolução Russa?

Nós, os de esquerda, estamos sempre fuçando no passado em busca de exemplos para nos orientar no presente.

Já na Revolução Russa, os comunistas divididos em bolcheviques, mencheviques e socialistas revolucionários a morriam de medo da repetição do "thermidor" da Revolução Francesa.

Nós hoje nos perguntamos, onde foi que eles erraram e entregaram setenta anos de lutas e sacrifícios para o capitalismo predador?

De todas as análises que se faz Revolução Russa, nada mais é repetitivo que o discurso de uma esquerda que se diz democrática. É uma postura descomprometida com a realidade e que se apóia na ideia utópica de que seja possível fazer uma revolução dentro dos parâmetros de uma democracia liberal.

Como Marx e Engels se transformaram quase em santos a serem preservados, são seus seguidores como Lenin, Stalin e Trotski, que foram à luta para tornar realidade o comunismo proposto por ele, que são vistos, principalmente Stalin, como os agentes que deformaram os mais puros  conceitos marxistas e no final puseram tudo a perder.

Dizem que Lenin não entendeu que a Rússia não era o lugar previsto por Marx e Engels  para fazer uma revolução socialista  e atropelou a marcha da História.

Que Trotski também não assimilou os ensinamentos do marxismo de que antes de se formar um estado socialista, seria preciso passar pelo estágio da democracia burguesa, como queriam os mencheviques e ajudou Lenin a fazer a revolução.

Stalin foi outro que não entendeu o que diziam Marx e Engels sobre o conteúdo internacionalista da revolução e comandou um estado socialista que arrancou a Rússia da condição de um país quase feudal para  transformá-la numa grande potência mundial.

A pretexto de um retorno ao "marxismo puro", se condena quase tudo que foi feito na URSS.

 Na contramão desse pensamento, dominante nos meios acadêmicos e na intelectualidade de esquerda, se coloca o professor italiano Domenico Losurdo, autor de uma provocadora biografia de Stalin e que agora nos oferece para discussão o livro "Marx e o balanço histórico do século 20".

O ponto central da argumentação dos que pretendem se apoiar em Marx e Engels para criticar o que chamam de "socialismo real", em oposição ao desejado "socialismo democrático" seria a centralização do poder no sistema soviético e o domínio de um partido de profissionais sobre as organizações operárias.

Losurdo lembra que somente um sistema fortemente centralizado seria capaz de enfrentar a situação em que viveu a União Soviética depois da revolução, com a guerra civil, a intervenção de exércitos estrangeiros, o bloqueio econômico que durou por anos e depois a invasão nazista.

Para justificar esse tipo de totalitarismo existente na Rússia, Losurdo se socorre de uma afirmação, não de algum comunista, mas de John Stuart Mill, o grande filósofo e economista inglês do século XIX,quando ele diz que é plenamente legítimo "que se assuma um poder absoluto sob a forma de uma ditadura temporária em caso de necessidade extrema ou mesmo de uma enfermidade do corpo político que não possa ser curada com métodos menos violentos".

Quanto à hegemonia do partido sobre as organizações operárias (sindicatos, sovietes),  Losurdo lembra que o próprio Marx foi bastante claro ao lembrar que uma classe operária oprimida pelo poder da burguesia, não tem o distanciamento crítico suficiente para propor a saída revolucionária necessária. Essa será uma tarefa dos intelectuais comprometidos com os trabalhadores.

Diz Losurdo "Marx já tornou explicita a distinção entre classe em si e classe para si, pensamento mais tarde amplamente elaborado por Lenin".

Quantas coisas já foram ditas para justificar o fim da União Soviética - falta de liberdades civis, ditadura de uma "nomenklatura" corrupta, enfim, a ausência de uma democracia aos moldes ocidentais (possivelmente a norte-americana) - menos, talvez a que Losurdo apresenta, ao lembrar que "ao abrir as portas da educação também às grandes massas populares antes excluídas, ao satisfazer em certa medida as necessidades básicas mais imediatas, o regime totalitário foi corroído pelos seus fundamentos. Não tinha como sobreviver a seu período heróico, nem o socialismo de guerra, nem a experiência de construção de um Estado de orientação não capitalista desenvolvido em condições dramáticas e excepcionais, porque, chamado a ajustar as contas com a democracia e suas garantias e suas regras, de modo a se elevar ao nível da sociedade civil avançada que ele próprio ajudara a criar, foi incapaz uma resposta adequada Trata-se uma oportunidade histórica miseravelmente perdida'.     

E o que tem a ver Marx e Engels com isso? Para Losurdo, eles não são solução do problema da história real, mas são, eles próprios, parte constitutiva de tal história, a ser entendida, obviamente, não como um processo uniforme e linear, mas como um processo onde existem saltos, rupturas,avanços e regressões, algumas pavorosas".

Marino Boeira é jornalista, formado em História pela UFRGS

 


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