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Federação Russa

Guerra na Síria: Moscou quer engajamento "de pleno-espectro" com os EUA

06.10.2013
 
 
Guerra na Síria: Moscou quer engajamento

O alto drama do aquecimento das relações EUA-Irã e a luta diplomática em torno das armas químicas sírias não podem encobrir a realidade em campo, de que a guerra da Síria está passando por mudança também dramática. Moscou percebe isso, o que pode ter provocado o comentário do presidente Vladimir Putin, no início da semana, quando disse que as coisas estão andando na direção certa. 

M K Bhadrakumar, Asia Times Online
http://www.atimes.com/atimes/Middle_East/MID-02-041013.html

Moscou espera que, ao elaborar sobre a recente iniciativa russo-norte-americana para as armas químicas sírias, o relacionamento EUA-Rússia consiga ascender a uma trajetória de melhor qualidade. 

Na 5ª-feira, um assessor de Putin, Yury Ushakov, revelou que os presidentes Putin e Obama talvez se encontrassem durante a reunião de cúpula da APEC (Asia-Pacific Economic Cooperation) na 3ª-feira em Bali, Indonésia. A iniciativa foi dos russos, "imediatamente aceita pelo lado norte-americano", e, embora ainda se esperasse alguma confirmação, disse Ushakov, "achamos que a reunião acontecerá". 

Evidentemente, Moscou não considerou a possibilidade de Obama ser forçado, por preocupações políticas domésticas, a cancelar a viagem à Indonésia - o que ele fez. 

A guerra está mudando de curso 

Simultaneamente, a mudança tectônica pela qual passa a guerra síria foi exposta na 2ª-feira, em matéria assinada pelo veterano correspondente do britânico The Independent no Oriente Médio, Robert Fisk.[1] 

Fisk noticiou que houve contatos entre elementos do Exército Sírio Livre [Free Syrian Army (FSA)] de Aleppo e o governo sírio, e que uma delegação de dois membros 'rebeldes' viajou a Damasco, sob garantia de segurança que lhes foi dada pelo governo sírio, para uma reunião com alto funcionário do governo do presidente Bashar al-Assad. 

FSA já permite que prédios e instituições do estado sírio (escolas, por exemplo), reabram e recomecem a funcionar em áreas de Aleppo ainda controladas pelos 'rebeldes'; e cessaram os combates entre o FSA e o exército sírio, em várias áreas estratégicas da província de Homs. 

Fisk avalia que o número crescente de deserções das fileiras do FSA, de rebeldes que se alistam em seguida na Frente al-Nusra, e a ascensão de grupos islamistas extremistas desiludiram os rebeldes "moderados". 

Depois de mim, o dilúvio 

Nessa linha de pensamento, o ataque massivo a igrejas cristãs em Raaqqa e o assalto brutal à antiga cidade cristã de Maaloula, ações, nos dois casos, do grupo al-Nusra, servem como duro sinal de alerta às capitais ocidentais. Na 6ª-feira, bispos e patriarcas de toda a região reuniram-se em Beirute, para lamentar que a Primavera Árabe se tenha "convertido em inverno de ferro e fogo" para os cristãos do Oriente Médio. 

Em termos políticos, o que emerge é que:

 

  • A dominação crescente, por grupos afiliados da al-Qaeda na Síria, põe EUA, Rússia e Irã na mesma página, em matéria de hostilidade partilhada contra a al-Qaeda;
  • Coletivamente ou individualmente, se deve esperar que esses países providenciarão para impedir que a Síria se torne base de campanha da al-Qaeda;
  • EUA e seus aliados ocidentais podem até começar, afinal, a aceitar a ideia de sustar o envio de armamento sofisticado para oFSA, por temor de que venham a cair em mãos de grupos ligados à al-Qaeda;
  • O anúncio recente da formação de uma "Aliança Islamista" de grupos extremistas está disparando uma nova polarização, pela qual os elementos moderados e seculares terão mais em comum com o governo do presidente Assad, que com grupos jihadistas. Fisk noticiou que alguns membros do Exército Sírio Livre já formaram uma chamada União Nacional para Salvar a Síria [orig.National Union for Saving Syria], com a intenção de manter conversações com o regime de Assad.
  • Com o confronto cada dia mais violento entrejihadise islamistas extremistas - e há notícias de batalhas muito violentas -, é o Islamismo como um todo que perde espaço e prestígio como farol que possa iluminar o futuro da Síria;
  • Assim, até os estados regionais que apóiam os grupos islamistas extremistas na Síria estão sendo obrigados a repensar. O saudita rei Abdullah já convidou o presidente Hassan Rouhani do Irã a visitar a Arábia Saudita, na peregrinação doHaj.
  • Com tudo isso, o presidente Assad é quem mais cresce em estatura no tabuleiro político. Além da capacidade para resistir que já demonstrou até agora, Bashar al-Assad está também assumindo novo papel, como interlocutor da ONU, interessado em garantir que a missão técnica que trabalhará nos arsenais químicos seja bem-sucedida. Assad, afinal, já aparece claramente como o único personagem político em todo esse quadro, capaz de fazer recuar o dilúvio da al-Qaeda na Síria.


Democracia em lombo de burro 

O destacado colunista turco Semih Idiz, do jornal Hurriyet, resumiu:


Temos de encarar os fatos: há algum tempo, a guerra na Síria já não é guerra contra um ditador brutal em nome de alguma democracia. Agora, é guerra em torno de se a Síria será governada pela Xaria sunita, ou continuará a existir como país secular, embora não como país secular democrático.


Curiosamente, Sergei Ivanov, o poderoso chefe de Gabinete no Kremlin, deu versão semelhante, mas diferente, numa conversa franca com jornalistas, na 2ª-feira. Disse que "A guerra entre o governo e a oposição parou [na Síria], há muito tempo." E prosseguiu:


"O ocidente está começando a compreender que talvez a oposição [síria] tenha de ser dividida, que é necessário parar de tentar convencer a al-Qaeda e outros grupos extremistas a falar sobre Genebra-2 e que, de preferência, deve-se parar de fornecer amas a eles. Primeiro, temos de dividir a oposição em duas metades, e convidar os dois lados, o que se pode descrever como representantes de Assad e uma oposição razoável, para que se possa iniciar o diálogo de Genebra-2."


Então, Ivanov considerou um prazo um pouco mais longo no futuro, e manifestou uma ideia muito audaciosa:


"É claro que seria ingênuo e ridículo falar de livre manifestação de vontades na Síria, mas se concordamos que é preciso reconhecer os fundamentos da democracia, então vamos organizar eleições justas, semelhantes ao que foi feito no Afeganistão. Se vocês se lembram, nas últimas eleições no Afeganistão, as urnas e os documentos eleitorais eram entregues em lombo de burro, processo que durou meio ano, e o processo de contagem dos votos demorou quase outro tanto. Estamos dispostos a aceitar até isso! Mas, antes de tudo, eles têm de se acertar sobre as regras do jogo."


Ironicamente, é a Rússia que está pressionando na direção de a Síria organizar-se como democracia liberal, no menor prazo possível, com eleições presidenciais já previstas para acontecer em maio de 2014. E os EUA mantêm-se mudos. 

O governo Obama tem esperança de conseguir voltar ao problema sírio, mas só depois de ter conseguido ver com mais clareza o que se passa no front iraniano. 

Contudo, o problema de Obama é outro, a saber, como vender essa intrigante ideia russa de uma "solução afegã" para a questão síria, aos seus aliados regionais - Turquia, Arábia Saudita e Qatar principalmente - que jamais esperaram que as coisas se encaminhassem para esse extraordinário desfecho. 

Por sorte, se é a Arábia Saudita que está mais desatinada e desentendida por causa dos movimentos de Obama, aí também a diplomacia russa pode ajudar. Na 2ª-feira, Moscou recebeu um importante visitante, diretamente de Jeddah, Arábia Saudita - o secretário-geral da Organização de Cooperação Islâmica [orig. Organization of Islamic Cooperation (OIC)], Ekmeleddin Ihsanoglu. 

E a OIC já tem o imprimatur do regime saudita. Durante a visita de Ihasanoglu, a Rússia assinou um acordo amplo com a OIC, que permite consultas bilaterais em questões chaves da agenda internacional, "incluídas as questões de regular conflitos nos quais estejam envolvidos países-membros daOIC".  

Uma rede lançada bem aberta 

Num plano mais amplo, os russos esperam alcançar rapidamente o que Putin chamou, num discurso na 3ª-feira, de "realização partilhada" de Rússia e EUA, para a eliminação das armas químicas sírias. A expectativa de Moscou era pôr em pauta as conversações de paz para a Síria já na reunião em Bali entre Putin e Obama. Ali os russos esperavam poder avaliar até que ponto Obama estaria preparado para seguir a orientação da Rússia na questão Síria. 

Evidentemente, Obama também sabe que os russos estão lançando bem aberta a rede, em busca de um engajamento russo-norte-americano de pleno espectro, que começaria pela Síria. Fato é que, nos últimos 10 dias, houve duas reuniões de alto nível entre a Rússia e a OTAN, para troca de ideias sobre a mudança dos planos para os mísseis de defesa dos EUA anunciada em março de 2013 pelo secretário de Defesa Chuck Hagel. 

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[1] 30/9/2013, Robert Fisk, "A Syrian solution to civil conflict? The Free Syrian Army is holding talks with Assad's senior staff. Secret approach to the President could reshape the whole war", The Independent, Londres (ing.) em http://goo.gl/vakqaX[NTs].

http://www.iranews.com.br/noticia/10911/guerra-na-siria-moscou-quer-engajamento-de-pleno-espectro-com-os-eua

 


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