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100 anos depois: Quê socialismo é esse?

06.06.2017
 
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Na visão clássica de Marx, o capitalismo só seria superado pelo socialismo quando, em vez de promover o desenvolvimento material, ele se tornasse um entrave para esse desenvolvimento. Para justificar a possibilidade de fazer a revolução socialista na Rússia, Lenin lançou a ideia do elo mais frágil do sistema.

Enquanto Marx pensava na Alemanha ou Inglaterra para ser a vanguarda da revolução, Lenin viu essa possibilidade na Rússia semi- feudal, acreditando que isso seria o ponto de partida para a revolução mundial.

Agora, que se comemoram os 100 anos do movimento iniciado por Lenin, essa questão volta a ser debatida.

Na segunda feira, no ciclo de debates que se realiza em Porto Alegre, os conferencistas examinaram as experiências socialistas em Cuba, China e Vietnam.  A questão chave para as discussões foi se a introdução de aspectos capitalistas na China e no Vietnam permitem considerar esses dois países como sendo socialistas ainda, ou já se tornaram países de capitalismo de Estado.

A questão é, se num país onde a massa de trabalhadores é fundamentalmente camponesa, é possível chegar-se ao socialismo sem passar pelo regime burguês.

Nunca é demais lembrar que na Rússia, depois de quatro anos de comunismo de guerra, a resistência dos camponeses à coletivização da agricultura, levou Lenin a lançar a chamada Nova Política Econômica (NEP), com o retorno de práticas do capitalismo, principalmente no campo, processo que só terminou em 1927, com Stalin.

Nos casos do Vietnam e China, o que se diz, é que depois de algum tempo em que se repetiu o modelo soviético, seus governos retrocederam e recriaram praticamente todas as formas do capitalismo.

Ficou até estranho ouvir o deputado Raul Carrion, falar com tanto entusiasmo sobre a introdução de práticas capitalistas no Vietnam, sendo ele uma liderança do PCdoB, um partido que sempre prezou uma certa visão ortodoxa da doutrina marxista.

Outra surpresa foi o repúdio que ele manifestou ao igualitarismo, quando isso é a essência do socialismo/comunismo. Marx e Lenin ensinaram que a divisa da revolução, num primeiro momento, é "de cada um, segundo suas possibilidades", até chegar à fase final, quando será "a cada um, segundo suas necessidades".

A desigualdade de salários e oportunidades é uma necessidade numa primeira fase de acumulação de recursos, mas nunca um fim, como pareceu fluir do discurso de Carrion.

Mas, o mais surpreendente estava reservado para a exposição do geógrafo Elias Jabour, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, que defendeu a ideia de que o socialismo no futuro teria que conviver com o mercado e também com a propriedade privada. E quando ele falou em propriedade privada não estava pensando num carro ou numa "dacha", mas nos meios de produção.

O Estado, representado pelo Partido Comunista, se encarregaria do macro planejamento e de impedir que o egoísmo capitalista extrapolasse a determinados limites.

A pergunta que se impõe é se isso, um controle do egoísmo capitalista, precisa de um Partido Comunista e de uma revolução?

Talvez bastasse um déspota esclarecido, ou um governo de sábios, que com uma força militar poderosa nas mãos, estabelecesse uma ordem interna, controlando os excessos do capitalismo.

Todos que hoje discutem quais seriam as condições para um novo sistema socialista, admitem que ele terá que ser bem diferente do modelo soviético, mas não a ponto de perder suas principais qualidades.

.Questões como a face humanista do socialismo, o fim da exploração do homem pelo homem. e a democratização da sociedade, foram temas arquivados pela visão economicista dos palestrantes.

Observações finais; 1)Raphael Hidalgo, o diplomata cubano, fez um longo discurso descrevendo fatos relacionados à Revolução em seu país e não entrou nos temas dos outros dois conferencistas; 2) Ninguém falou sobre a experiência do socialismo na Coréia do Norte.

Marino Boeira é jornalista, formado em História pela UFRGS.

 


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