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A globalização em perspectiva histórica

05.09.2014
 
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A ideia de um mundo uno data de alguns milhares de anos. Sócrates, embora disso não tivesse consciência, foi, com respeito ao que poderíamos chamar de mundo ocidental, o primeiro a caminhar no sentido de uma "globalização em ideia". Por assim dizer, ele nos "inventou" a todos, tornando-nos seres universais. Por considerar-se cidadão do mundo instituiu-nos como Humanidade, por afirmar "só sei que nada sei" abriu-nos o mundo infindo do Saber, por haver consagrado a própria vida aos valores morais destacou-nos da natureza e nos pariu como Homens. Esta foi, sem dúvida, a única aventura bem-sucedida de universalização radical até hoje empreendida.

Iraci del Nero da Costa*

Outros grandes homens, cada um a seu feitio, tentaram reproduzi-la, mas os resultados alcançados não chegaram a equiparar-se aos de Sócrates.

Ao unificar o mundo conhecido pela civilização grega, Alexandre Magno emprestou concretitude geopolítica àquela aventura. Ademais, ao grande chefe militar não faltou a visão de um estadista autêntico. Dessarte, procurou complementar suas conquistas militares promovendo o comércio, amalgamando culturas e fomentando o que hoje chamaríamos de estímulo à pesquisa científica.

Ao Império Romano, que se impôs pelas armas, mas também pela sua Paz, pela difusão de suas instituições e do latim, ao que parece, faltou paixão, carisma, frêmito trágico. Roma é burocrática e seu império melancólico. Dario pode nos emocionar, Roma em chamas não nos comove, Roma e Nero se merecem.

Carlos Magno e D. Sebastião irmanam-se contraditoriamente, ambos não calçam bem o tempo em que viveram. As potencialidades do primeiro sobreexcedem a moldura de sua época, o segundo, literalmente, deixa-se tragar por uma era que não foi capaz de entender. Aquele, estrangulado pelas limitações do sistema por ele mesmo consolidado, conquista muito, mas não tudo, domina muitos, mas não todos, vota ao Eterno um império que resulta transitório.

Já D. Sebastião é a própria imagem do descompasso, senhor de uma nação pioneira e dona da metade do globo, intui a possibilidade da unificação, toma-a como missão, mas, para sua desdita, ao revés. Não se guiou pelo futuro, deixou-se perder pelo passado. Deu as costas ao comércio e ao capital comercial, sob o influxo dos quais Portugal lançara-se ao mar e sob a égide dos quais poder-se-ia unificar a economia mundial tornada planetária por Colombo. Deu as costas ao Atlântico e ao ocidente, voltou-se para uma miragem enganosa desenhada no norte da África. Seu aparelhamento intelectual, presa do fanatismo, afastou-o das condições que ensejavam o alargamento do capitalismo e o conduziu a uma cruzada sem destino: aferrado a uma visão medieval, o rei português pretendeu colocar o mundo de seu avô sob o manto do catolicismo. A maneira como desaparece ilustra eloquentemente sua vocação quixotesca.

A tarefa refugada pelo infausto Rei português foi encetada pelos batavos os quais, no entanto, viram-se obstados pela Inglaterra a qual, já nos quadros do capitalismo maduro, fez-se Rainha dos Mares. Reinado este, é verdade, apenas parcial, embora cobrisse parte substantiva do globo por longo espaço de tempo. A desafiá-lo, estará, tanto no terreno comercial como no militar, político e institucional, a figura de outro grande general e estadista: Napoleão, este espírito que fez da mudança sua montaria e tropeou sobre a velha Europa, sepultando-a de vez. Mas, fundeado numa ilha, vê ele seus intentos pessoais soçobrarem, embora sua herança seja das mais duradouras em termos do futuro político-institucional da sociedade burguesa que a partir de então adonou-se de quase todo o mundo e passou, de toda a sorte, a ditar-lhe o destino.

O nazi-fascismo, que veio por mil anos, dura menos de vinte e o socialismo real, que veio para sempre, assombrou-nos por tempo um pouco mais dilatado, isto para vergonha dos que, hoje, temos de nos penitenciar por o havermos tão ardorosamente apoiado. Como se vê, não lhes foi possível unificar o mundo pela força das armas, do preconceito odioso ou de uma ideologia generosa, porém manipulada por homens degenerados, sádicos e corruptos.

Já a assim chamada globalização corresponde, de fato, à altíssima velocidade alcançada pelo capital financeiro em seus deslocamentos entre os centros especulativos do planeta, rapidez esta devida aos extraordinários avanços da informática, à qual se devem, também, as possibilidades abertas a todos de se comunicarem livre e expeditamente e de se informarem sobre qualquer tema desejado. Se esta última decorrência tem de ser saudada com entusiasmo, a ação do capital especulativo tem de ser deplorada profundamente em face dos malefícios trazidos pelas recorrentes crises a ele atribuíveis. Assim, a experiência de globalização pela qual ora passamos não tem, do ponto de vista humano, alcance equiparável às perspectivas abertas por um filósofo que nem sequer chegou a deixar uma obra escrita.

Aliás, esta última constatação poderá servir-nos como norte. O êxito do pensamento socrático prende-se ao fato de ele nos ter visto como Humanidade, algo muito próximo do que nos é essencial: o sermos humanos. Sócrates inventou a humanidade, resta-nos, para chegarmos a um mundo uno, humanizá-la.

 

* Professor Livre-docente aposentado da Universidade de São Paulo.

 


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