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Federação Russa

Putin e Trump em face de um futuro impenetrável

03.01.2017
 
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Vladimir Putin, atual presidente da Rússia, tem-se mostrado intransigente quanto à defesa dos interesses russos em distintas territórios. Tais atitudes, muito provavelmente, mostram-se fortemente influenciadas pelo avanço da OTAN e da União Europeia sobre áreas antes colocadas sob a influência russa. No caso da Síria pode-se mesmo pensar numa atitude defensiva, pois cabe a Putin garantir, por motivos estratégicos altamente relevantes, a permanência de sua base militar no território sírio.

Iraci del Nero da Costa *

Existem inúmeros exemplos dos fatos anotados acima; ademais, são eles de amplo conhecimento público, sendo dispensável, portanto, sua enunciação nestas notas. Perscrutar o futuro parece ser o exercício efetivo que se impõe ao analista político, tarefa esta das mais árduas, talvez impossível de revelar uma hipótese que se verá concretizada. Não obstante, algumas reflexões descompromissadas podem e devem ser propostas.

 A primeira ideia a enfrentar diz respeito à afirmação de que as atuais atitudes de Putin na Síria devem-se ao fato de que os EUA enfrentam um momento de passividade devido à transição de seus presidentes. Não cremos em tal assertiva; como apontado acima, para a Rússia uma ação forte e sem retoques é muito importante para evidenciar a defesa e afirmação de seus interesses militares no território em foco. Vale dizer, postulamos que a presença da Rússia dar-se-ia mesmo se ainda estivéssemos com um presidente Barack Obama inteiramente capacitado a operar sem limitações ou se já vigorasse em sua plenitude a governança de Donald Trump.

Este último, em suas aparentemente arrevesadas afirmações propõe, por um lado, uma larga simpatia com respeito a Putin e, por outro, a retomada de um dos mais repudiáveis aspectos da Guerra Fria qual seja a retomada do aumento das armas nucleares. Estaria ele pensando nas práticas comerciais e militares da China? Preocupar-se-ia com as atitudes de seu "amigo" Putin? Ocorrer-lhe-ia a presença de inúmeras nações que passaram a ocupar-se com a elaboração de armas atômicas como, entre outras, a Coréia do Norte e o Irã? Estaria a tentar influenciar o Japão a dedicar-se à mesma tarefa? Excluída esta última hipótese, que se nos apresenta como altamente improvável, todas as demais são cabíveis. Enfim, tentar prever os desideratos de Trump é jogar no escuro, pois é possível que ele esteja apenas preocupado com os interesses da própria indústria bélica norte-americana e/ou tomando em conta todos os fatores aqui lembrados!

 E a desabrida ofensiva comercial da China que se estende para a América do Sul e a África? Até que ponto tal evento, que poderá mostrar-se lesivo para Trump e Putin, estão presentes nas trocas de opiniões entre estes dois chefes de Estado, este último já a ocupar o mando de há muito e aquele outro prestes a assumir o governo? E se não estiverem, como explicar a ausência de tão importante tópico nas aludidas conversações, que ainda se marcam por seu caráter informal? Ou será que para ambos os políticos tais regiões continuarão como meros elementos marginais como há tanto ocorre? Segundo a visão deste precário cronista as duas regiões em pauta ganham uma dimensão nova em face da recente investida chinesa e deveriam receber atenção redobrada dos dois políticos em tela.

Já o papel desempenhado pela ONU também não parece merecer a atenção devida por parte de Trump, embora ele tenha afirmado que "Sobre a ONU as coisas serão diferentes depois de 20 de janeiro" [data de sua posse como presidente] e criticado a postura do governo americano quanto à recente resolução do Conselho de Segurança de tal organismo. Como sabido, tal medida - que exige o fim das atividades e o fim da criação de assentamentos por parte de Israel em territórios ocupados pelos palestinos, resolução que contou com a abstenção dos EUA - pode vir a acirrar o longevo choque entre israelenses e palestinos, episódio este o qual, certamente, exigirá uma presença mais ativa da própria ONU bem como eventuais ações por parte dos norte-americanos.   

Enfim, a observação das relações entre Putin e Trump abrangem não só a economia e a política das duas nações, mas assumem uma feição planetária e, embora sejam inescrutáveis em todos seus detalhes, com certeza introduzirão mudanças das mais significativas nas relações entre nações de todos os continentes. 

 

* Professor Universitário aposentado.

 


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