Pravda.ru

Federação Russa

"Rússia não cogita de enviar tropas à Ucrânia"

01.04.2014
 

"Países que se abstiveram e países que votaram contra a Resolução mostraram que sabem em quê e por quê votavam"


ROSSIYA 24 TV: Depois que os países G7 anunciaram a decisão de sair do G8, ouviu-se que a Rússia teria ficado isolada na arena internacional. Na Assembleia Geral da ONU, 100 países votaram contra a Rússia. Parece, afinal, que a Rússia está mesmo isolada, não?

Min. SERGEY LAVROV: "Isolamento" é termo inventado por parceiros nossos que vivem ainda tomados de nostalgia das próprias ambições neoimperialistas. Se algo não sai exatamente como querem, já empunham o porrete das sanções. Mas já vão longe os dias em que ainda se podia usar essa estratégica. Melhor fariam se, em vez de inventar 'isolamentos', trabalhassem para reunir todos, sem exceção, para trabalhar juntos. Parceiros não se isolam nem inventam que outros teriam sido isolados.

Fiquei sinceramente surpreso com o quanto obsessivamente insistem em criar - mais do que em encontrar - 'provas' de que a Rússia teria sido isolada. Já vi muita coisa nessa minha vida, mas... grandes potências consumindo seus próprios recursos diplomáticos para chantagear todo o mundo, inclusive nossos parceiros, para conseguir que aceitassem o argumento da integridade territorial da Ucrânia e, simultaneamente, para que ignorassem todos os princípios da Carta da ONU?! Mesmo para mim, sim, foi surpresa. E elas riam muito, também. Tantas instituições oficiais consumiram tanto esforço...

Foi o que se viu, exatamente, na votação na Assembleia Geral da ONU. Aqueles números são resultado de vários 'procedimentos', digamos. Primeiro, nossos vizinhos ucranianos foram prevenidos para manter o tom do rascunho da Resolução, queriam que se mantivesse em bom nível, sem provocações e sério, para criar imagem positiva da necessidade de respeitar a integridade territorial da Ucrânia. Perfeito. Quem se oporia a isso? Mas aí está só a fachada, não é nem metade da verdade. Nem um fiapo da verdade. Você e seus telespectadores entendem, tenho certeza, o que estou dizendo.

Depois disseram a alguns países, suficientemente ingênuos para se porem em posição de ouvir tais coisas, que "Vejam, que magnífica Resolução! Por que não assinam logo, e aparecem como co-apresentadores da ideia?" Outros, mais experientes, que entendiam o que realmente acontecia ali, receberam outro tipo de abordagem: "Se não apoiarem essa Resolução, haverá consequências". E na sequência, listavam as tais 'consequências'. Já conhecemos tudo isso. Colegas nossos nos procuraram para explicar por que um ou outro pequeno país tinha de ceder. Por exemplo, disseram a esses países que contratos não seriam assinados, que pagamentos seriam retidos. Se se sabe que o ocidente, em sentido amplo, incluindo Austrália, Nova Zelândia, Japão, etc., soma cerca de 40 países, sabe-se que cerca de 50 países foram forçados ou, de diferentes modos, induzidos a fazer o que fizeram.

Não guardamos nenhum ressentimento. Nada disso afeta nossas relações com aqueles países. Prefiro lembrar outro número significativo: cerca de 70 países recusaram-se a apoiar aquela Resolução.

ROSSIYA 24 TV: E se se somam os países que se abstiveram de votar, chega-se a 93 votos.

Min. SERGEY LAVROV: Foi votação praticamente empatada. A máquina ocidental de propaganda - não há outro modo de descrevê-la - apresentará a coisa, pela mídia, como grande vitória, mas sabemos o custo dessa vitória.

ROSSIYA 24 TV: 100 países votaram contra a Rússia. Somados, os votos contra e os votos de abstenção[1] chegam a 93.[2] E há os países valentes que, apesar das pressões, tomaram decisões independentes.

Min. SERGEY LAVROV: Não há dúvida de que são valentes. Não se trata de serem países anti-ocidente ou anti-Ucrânia. Mas o voto desses países mostra compreensão profunda do que realmente se passa. Os que não votaram a favor já dão sinal de que sim, entendem o que se passa; mais ainda, os que votaram contra a Resolução. É perfeitamente evidente que não se trata da integridade territorial da Ucrânia, como se sabe.

"China compreende os legítimos interesses e preocupações da Rússia na Ucrânia"


ROSSIYA 24 TV: Há três semanas, em nosso programa, o embaixador da Rússia à ONU, Vitaly Churkin, disse que a Rússia espera apoio moral da Rússia. A China absteve-se, na votação da Resolução. Depois disso, os presidentes Obama e Xi Jinping tiveram um encontro, durante o qual, como nos disseram jornalistas ocidentais, os americanos tentaram convencer a China a abandonar contratos que mantêm com a Rússia, para abastecimento de petróleo. Na sequência, o senhor reuniu-se com o presidente Xi Jinping. O que a China representa, para a Rússia?

Min. SERGEY LAVROV: China é parceiro muito próximo da Rússia. Em nossos documentos conjuntos, nossas relações são definidas como parceria estratégica ampla de cooperação. Todas as ações da China reafirma seu compromisso com os princípios em torno dos quais nós e os chineses estamos de acordo. Se, como você foi informado, os norte-americanos tentaram convencer os chineses a revisar os acordos econômicos de alto nível que mantêm com a Rússia, o movimento dos norte-americanos é de espantosa ingenuidade ou temeridade. Eu diria até que não compreender a essência da política e da mentalidade chinesa é inadmissível, nos funcionários encarregados dessas negociações.

Desde o início a China disse que toma em consideração a combinação de fatores históricos e políticos. A China opôs-se fortemente a que se usassem medidas não diplomáticas e ameaças de sanções, no caso da Ucrânia. Nossos contatos com nossos parceiros chineses mostram que eles não apenas compreendem corretamente os interesses da Rússia nesse caso, como, além disso estão absolutamente no nosso campo em tudo que tenha a ver com compreender corretamente as causas iniciais da atual crise na Ucrânia. Não há dúvida sobre isso. O presidente Putin falou com o presidente Xi Jinping por telefone. Dia 24/3 eu mesmo estive com o presidente Xi Jinping, em encontro durante a Cúpula de Segurança Nuclear em Haia. E os ministros de Relações Exteriores dos países BRICS também se reuniram.

ROSSIYA 24 TV: Os BRICS redigiram conjuntamente a declaração,[3] em Haia?

Min. SERGEY LAVROV: É a declaração que a ministra de Relações Exteriores da África do Sul distribuiu depois de nossa reunião.[4]

"Foi a Ucrânia, não a Rússia, quem impediu a constituição da missão da Organização para Segurança e Cooperação na Europa (OSCE)"

ROSSIYA 24 TV:  
Domingo passado, informamos aos nossos telespectadores que a OSCE decidira enviar uma missão à Ucrânia. Por que a Rússia opôs-se inicialmente à ideia? O que faria aquela missão?

Min. SERGEY LAVROV: Eu diria que foram nossos parceiros ocidentais e ucranianos os que se opuseram inicialmente a essa missão.

ROSSIYA 24 TV:  Parece que, como sempre, os fatos foram divulgados invertidos: sempre a Rússia contra o resto da Europa.

Min. SERGEY LAVROV: Estamos habituados a isso. Os talentos orwellianos são amplamente utilizados. A Rússia já estava disposta a enviar essa missão uma semana antes, até, de tomarem a decisão. Tudo estava claro e acertado, até que nossos parceiros ocidentais puseram-se a exigir, com inexplicável determinação, que a Crimeia fosse incluída no trajeto como parte da Ucrânia.

Claro que se pode discordar completamente do modo como encaramos tudo isso, qualquer um pode recusar-se a reconhecer decisões tomadas pela Rússia a pedido do povo da Crimeia e apoiado em referendo já realizado. Entende-se. É coisa que acontece. Mas é ou falta de vergonha ou de compostura diplomática, ou é total incompetência diplomática, não compreender a situação política real e a enorme inutilidade do que estavam 'exigindo', depois que a Rússia anunciou que reconheceria qualquer resultado do referendo da Crimeia. Tentaram nos impor a ideia de que, sem darem importância ao que o presidente Putin dissera... a Crimeia teria de ser incluída na missão, como se continuasse a ser parte da Crimeia. Depois do referendo, evidentemente, a Crimeia já não era parte da Ucrânia.

ROSSIYA 24 TV:  Moscou insistiu em que a missão visitasse também as regiões do oeste da Ucrânia, além das regiões do leste. A Rússia conseguiu isso?

Min. SERGEY LAVROV: Já conhecendo os talentos de nossos colegas ocidentais para torcer as palavras e as interpretações de tudo, insistimos que se listassem, no documento da missão da OSCE, todas as cidades e regiões a serem visitadas, nominalmente, em vez de o documento só se referir a uma missão "na Ucrânia." Claro que a lista podia incluir cidades localizadas no oeste e no leste da Ucrânia, mas não podia incluir cidades localizadas no território da República da Crimeia da Federação Russa.

"As denúncias relacionadas ao Setor Direita já deveriam ter sido feitas há muito tempo"

ROSSIYA 24 TV: Talvez estejamos vendo algum progresso, não só em termos de enviar uma missão da OSCE à Ucrânia, mas também porque as novas autoridades ucranianas (deixando de lado por enquanto se são legítimas ou não) começam a ter de enfrentar o problema do Setor Direita, como se está vendo nas últimas 36-48 horas.

Min. SERGEY LAVROV: Demoraram tempo de mais, embora, sim, é claro, melhor tarde do que nunca. Há mais de um mês eu mesmo já levantara  a questão do Setor Direita e a necessidade de o governo dissociar-se das forças radicais, em conversa com nossos parceiros ocidentais. Fiz a eles uma pergunta muito simples: "Se vocês concordam em que temos de desintoxicar a situação, por que vocês não dizem, publicamente, o que o Setor Direita realmente é?" O mesmo vale, até certo ponto, para o Partido Svoboda, que tem, no próprio estatuto partidário referências à Declaração de 30/6/1941, que manifesta apoio à Alemanha Nazista e a seus esforços para estabelecer nova ordem mundial. Segundo o estatuto, todo o Partido Svoboda continua comprometido com esse princípio.

Nossos colegas reagiram de modo muito estranho à nossa sugestão de que, finalmente, manifestassem publicamente a opinião deles sobre essas forças e de que exercessem a influência deles sobre o pessoal em Kiev que ainda diz que esse pessoal são as novas autoridades, para que se manifestassem também publicamente, no mesmo sentido. Primeiro, negaram o problema. Depois, em uma de nossas reuniões mais recentes, em Londres, se não me engano, o Secretário de Estado John Kerry disse-me que, depois de exame cuidadoso, eles haviam concluído que o Setor Direita estava tentando converter-se em movimento político. O subtexto, é claro, é que isso seria boa coisa, que o Svoboda se estivesse organizando na direção de estabelecer-se no governo, no poder. Estou citando o que ouvi. Havia muita gente naquela reunião, portanto o que lhe digo não é segredo. Eu havia dado vários exemplos da tendência exatamente oposta que se observa nesses grupos, a começar pela propaganda para que mirem na cabeça de russos e matem; as ofensas que dizem contra russos e os espancamentos que acontecem até em partes do leste da Ucrânia, onde membros desses grupos sentem-se em casa.

Quanto ao que está acontecendo nos últimos dias, esperemos que as declarações e as medidas que o governo ucraniano está tomando sejam efeito de alguma campanha de conscientização que nossos parceiros ocidentais tenham resolvido fazer. Como já disse, melhor tarde do que nunca.

Vamos ver o que resulta disso tudo e se os que estão no poder conseguem domar as pessoas nas quais confiaram para chegar às posições a que chegaram. Mas eventos recentes, quero dizer, quando o Setor Direita cercou novamente o prédio do Parlamento Ucraniano [Verkhovna Rada], exigindo a demissão do ministro do Interior, por causa da morte de Sashko Bilyi, líder do Setor Direita, são muito eloquentes. Pense-se o que se pensar sobre as circunstâncias da morte de Bilyi, as quais, em todos os casos, têm de ser cuidadosamente investigadas, não se pode deixar de ver que a morte dele deu novo impulso a gente do Setor Direita, que se rege por princípios que todos conhecemos bem. Esse sinal é muito alarmante.

Muito me surpreendeu que, enquanto a televisão russa, inclusive esse canal, mostrou o sítio do prédio do Parlamento da Ucrânia e comentou amplamente os acontecimentos e o confronto entre o Setor Direita e membros do Parlamento, sobre possíveis desdobramentos daqueles eventos, os canais europeus não disseram uma palavra sobre coisa alguma, com a Ucrânia citada exclusivamente no contexto do acordo com o FMI.

Infelizmente, esse tipo de cobertura também é muito eloquente. Vamos tentar estabelecer a verdade usando canais alternativos de televisão, não submetidos à mídia ocidental dominante. Bom seria se seus canais alternativos se tornassem 'mídia hegemônica'.

"É triste ver a OSCE justiçar a censura à imprensa na Ucrânia"

ROSSIYA 24 TV:  
Canais alternativos - é outro assunto, porque os provedores ucranianos de sinal da televisão a cabo estão proibidos de transmitir canais russos de televisão. De início, a OSCE condenou a medida. Tanto quanto entendo, essa questão também foi discutida em seus contatos com os parceiros ocidentais. Mas, na sequência, o tema foi sendo empurrado para o fim da lista de prioridades. Como disse o representante da OSCE, há interesses nacionais que admitem a censura à televisão.

Min. SERGEY LAVROV: É. Quem disse isso foi Dunja Mijatović. Digamos apenas que, sendo, como é, Representante para a Liberdade de Expressão da OSCE, seria de esperar que mostrasse mais empenho em defender a liberdade de expressão. São lamentáveis as desculpas que estão aparecendo, para o banimento dos canais russos. Quem imaginaria que alguém argumentaria que se possam fechar canais de televisão, para proteger valores fundamentais?

Fato é que a Sra. Mijatović não deu atenção alguma a vários apelos que lhe encaminhamos, para que ela observasse as manifestações com slogans fascistas e neonazistas que aconteciam em vários países da OSCE; insistimos que eram inaceitáveis, falamos muito a favor da liberdade de expressão. Significa que na opinião da Sra. Mijatović, quatro canais de televisão russos são mais perigosos que comícios de neonazistas nos estados bálticos e em vários outros países, até na Alemanha.

"A ideia da Federação Ucraniana já não é tabu para diplomatas ocidentais"

ROSSIYA 24 TV:  
Que tipo de acordo ou que concessões são possíveis com o ocidente? Se está de um lado da linha, e EUA e o ocidente estão do outro lado... Em que pontos o senhor e seus colegas ocidentais concordam?

Min. SERGEY LAVROV: Não me parece que estejamos divididos assim, de modo tão completo. Estamos trabalhando para alinhar nossas posições. Baseado em meu mais recente encontro com o Secretário de Estado John Kerry em Haia e em meus contatos na Alemanha, França e em vários outros países, posso dizer que, sim, é possível esboçar uma iniciativa conjunta para apresentar a nossos colegas ucranianos.

Isso é muito importante, porque, até agora, nossos parceiros só falavam de criar um grupo de contato em cujo contexto a Rússia e o pessoal que tomou o poder em Kiev negociaria sob a supervisão deles. Essa ideia é absolutamente inaceitável. Não é, sequer, a questão que estamos discutindo, não se trata disso. O que está acontecendo agora na Ucrânia é o resultado da crise profunda do sistema político, disparado pela inabilidade - não gostaria de acusar ninguém de estar deliberadamente evitando qualquer entendimento - de cada líder sucessivo para conciliar os interesses das regiões oeste e sul da Ucrânia. Como está, não pode continuar.

Estamos convencidos de que a Ucrânia precisa de uma reforma constitucional fundamental. Para ser bem franco, não vemos outro modo para assegurar qualquer crescimento sustentado da Ucrânia, a menos que se converta numa federação. Talvez outros saibam melhor, talvez haja uma fórmula mágica que faria um sistema unitário de governo funcionar, num estado no qual as pessoas, nas regiões oeste, leste e sul celebram feriados diferentes, cultuam heróis históricos diferentes, falam línguas diferentes, vivem sob estruturas econômicas diferentes, pensam de modos diferentes e gravitam na direção de diferentes culturas europeias. É difícil viver em estado assim e pretender que seria estado unitário.

Por isso, dia 10 de março, apresentamos um documento não oficial no qual delineamos nossas ideias, aos nossos parceiros norte-americanos, europeus e chineses e a outros colegas, inclusive a países BRICS.

ROSSIYA 24 TV:  Quer dizer, reforma constitucional, eleições...

Min. SERGEY LAVROV: Não. Em primeiro lugar, nosso documento propõe, como tarefa urgente, pôr fim à violência dos grupos  armados, desarmar os milicianos e libertar os prédios ilegalmente invadidos - o que ainda não foi feito até agora -, além de praças, ruas, cidades, vilas e vilarejos.

Em primeiro lugar, antes de tudo, estamos falando de Maidan. É uma desgraça para um país europeu e para uma das mais belas cidades da Europa, ter lá aquele tipo de coisa já por meio ano, exposto a quem passe por ali. Nos disseram que Maidan permanecerá como está até que aconteça a eleição presidencial, se o resultado satisfizer Maidan. É uma desgraça.

Propusemos começar por resolver essas questões, porque essa era uma responsabilidade que os senhores Klichko, Yatsenyuk e Tyagnibok assumiram quando assinaram o documento, com os ministros de Relações Exteriores da Alemanha, França e Polônia.

Propusemos também que se inicie logo uma ampla reforma constitucional, com todas as forças políticas e as regiões com iguais direitos de falar, para discutir o estabelecimento de uma federação, que dará a todas as regiões amplos poderes nas esferas da economia, cultura, idioma, educação e laços culturais com países e regiões vizinhas, e garantias de direitos para as minorias.

Considerando o número de russos étnicos que vivem na Ucrânia, declaramos que estamos convencidos de que não há alternativa - e alguns candidatos à presidência já disseram a mesma coisa, em vários momentos -, se não tornar o russo a segunda língua oficial da Ucrânia e garantir os direitos das minorias em todas as unidades que constituam a federação, nos termos do que determina a Carta Europeia para Línguas Regionais ou Minoritárias.

ROSSIYA 24 TV:  Também há húngaros e romenos que vivem lá.

Min. SERGEY LAVROV: Húngaros, tchecos, alemães, e todos reclamam aos governos de seus países, que já não se sentem confortáveis vivendo na Ucrânia. Os tchecos quiseram até voltar para a Tchecoslováquia, mas o governo tcheco respondeu "Não, examinamos as condições em que vocês vivem aí e nos parecem ótimas." É sinal que estão mais atentos a questões geopolíticas e à eficácia política, que aos direitos humanos.

Uma reforma constitucional terá de ser aprovada por um referendo. Deverá levar em conta os interesses de todas as regiões. E depois de essa constituição estar aprovada em referendo nacional, então haverá eleição presidencial e eleição parlamentar; deverão ser eleitas novas assembleias legislativas em todas as regiões; e haverá novos governadores. Os governadores têm de ser eleitos, não nomeados, como hoje. As regiões leste e sul do país insistem nisso.

Acreditamos muito fortemente que esse é o caminho certo a seguir. De resposta, ouvimos do Ministério de Relações do Exterior da Ucrânia que as propostas russas não passam de provocação, e que estamos nos intrometendo em assuntos internos da Ucrânia, porque nossas ideias não são consistentes com os pilares do estado ucraniano. Mas... que ideias? Primeiro, a federalização; segundo, o russo como segunda língua oficial. Não vejo o que haveria aí, de inconsistente com os pilares do estado ucraniano.

ROSSIYA 24 TV: Os parceiros ocidentais ouvem essas propostas?

Min. SERGEY LAVROV: Ouvem. Posso lhe dizer que "federalização" já não é palavra tabu nas nossas conversas. Creio realmente que devamos insistir nisso - não porque nós queiramos alguma coisa, mas porque isso é o que querem as regiões sul e leste.

ROSSIYA 24 TV:  O senhor espera que essas ideias cheguem eventualmente a Kiev, nem que seja mediante as capitais ocidentais?

Min. SERGEY LAVROV: Conto exatamente com isso, porque o atual governo ucraniano não pode pressupor que o governo ucraniano tenha alguma independência.

"A neutralidade militar da Ucrânia tem de ser declarada sem ambiguidades"

ROSSIYA 24 TV:  Moscou e, digamos, Washington estão conversando sobre a necessidade de que a Ucrânia não se alinhe a nenhum bloco?

Min. SERGEY LAVROV: Essa ideia está presente nas nossas propostas. Pensamos, em termos definitivos, que a nova Constituição deve estabelecer claramente que a Ucrânia não pode pertencer a nenhum bloco.

ROSSIYA 24 TV:  Os norte-americanos consideram essa ideia?

Min. SERGEY LAVROV: Ouviram e, sim, consideram. Pode-se ter certeza sobre se entenderam ou não, se se ouvem suas declarações públicas. Falando em Bruxelas semana passada, o presidente Obama disse que nem os EUA nem a OTAN têm planos e que nem faz sentido falar sobre isso [confronto armado contra a Rússia].

ROSSIYA 24 TV:  Mas Yatsenyuk diz que não está considerando essa opção por hora.

Min. SERGEY LAVROV: "Por hora". Nós estamos absolutamente convencidos de que não pode haver nenhuma ambiguidade nesse ponto. Há muitos desses 'detalhes' - "por hora", "nesse ponto", "nenhuma intenção". Intenções mudam, e todos acabam por ter de encarar os fatos em campo.

ROSSIYA 24 TV:  Especialmente nos últimos dois meses.

Min. SERGEY LAVROV: Não só nos últimos dois meses, dois meses e pouco: nos últimos 25 anos. Nos dizem que o ocidente nos estende sempre a mão da amizade, e que a Rússia insiste em escolher um jogo de soma zero. Há poucos dias, meu colega, ministro britânico de Relações Exteriores, William Hague, publicou artigo no qual escreveu que a Rússia enfrenta o isolamento global, porque, diz ele, você chega à Rússia de braços abertos e a Rússia tudo rejeita e insiste na mentalidade de soma zero. Isso é totalmente injusto.

Ao contrário, estamos sempre querendo construir parceria justa. É o que se vê refletido em nossas propostas de segurança indivisível, que deve ser igual para todos. Não está certo que os membros da OTAN sejam protegidos por segurança indivisível e o resto do mundo seja tratado como nações de segunda classe, de modo que a OTAN possa agir como ímã, sempre querendo atrair mais membros e sempre empurrando a linha divisória cada vez mais para o leste.

Nos prometeram que isso não aconteceria - e fomos ludibriados. Nos prometeram que a OTAN não levaria sua infraestrutura militar para junto de nossas fronteiras - e fomos ludibriados. Nos prometeram que não haveria instalações militares no território dos novos membros da OTAN. De início, só ouvimos as promessas e acreditamos nelas. Então começamos a por as promessas no papel, como obrigações políticas, e gente séria, presidentes, ministros ocidentais, todos assinaram aqueles documentos. Mas quando lhes perguntamos como é possível que todas aquelas obrigações políticas tenham sido ignoradas e se podemos torná-las obrigatórias por força de lei, eles respondem "Não, não. Bastam as obrigações políticas. E, de qualquer modo, não se preocupem. O que fazemos não é contra vocês."

"O ocidente faz, com o leste, o jogo de 'ou parceiros, ou, se não...'

Min. SERGEY LAVROV:
Falando de jogos de soma zero... O projeto da Parceria Oriental da União Europeia [atrair a Ucrânia, ideia da qual surgiu o tal 'ultimato'], desde o início, foi baseado no conceito do "ou... ou": ou vocês estão conosco ou estão contra nós.

Na verdade, nossos parceiros ocidentais falam sobre isso desde a eleição de 2004 na Ucrânia. Naquele momento, não havia União Aduaneira nem Parceria Oriental; nem havia terceiro turno inconstitucional, artificialmente inventado para a eleição do presidente. Karel de Gucht, que então era ministro do Exterior da Bélgica e que hoje, por falar dele, é Comissário de Comércio da União Europeia, demandou publicamente que os ucranianos votassem e decidissem se queriam ficar com a Europa ou com a Rússia. Em 2004. Eles inventaram tudo isso. Foi ali que essa mentalidade começou.

A Parceria Oriental - bem como a expansão da OTAN - foi simplesmente um instrumento usado para assumir o controle sobre um território geopolítico. A União Europeia estava pronta para implantar esse projeto, custasse o que custasse. E ignorou completamente os legítimos interesses econômicos dos vizinhos da Ucrânia, como a Rússia e outros países, mas também ignorou interesses de outras nações da própria União Europeia, que participam desse programa. Já há muitos estudos sobre isso. É claro que até Yatsenyuk tenha de dizer, como já disse, que a Ucrânia precisa examinar melhor a parte econômica daquele acordo com a União Europeia.

O mesmo acontecerá com a Moldávia. Estão fazendo tudo que podem para assinar acordo semelhante também com a Moldova esse verão, antes das próximas eleições. E esse acordo que querem assinar com a Moldávia - ignora completamente a questão da Transdnistria. Ignora o acordo de 1997 entre Chisinau e Tiraspol que habilita a região da Transdnistria para o comércio internacional. Ignora o que está acontecendo hoje com a Transdnistria: Chisinau e as novas autoridades ucranianas já, basicamente, bloquearam o território. Mas nossos parceiros europeus mantêm-se absolutamente mudos sobre isso. Minha opinião é que a União Europeia e, me parece, também os EUA, aprovam essa 'política'.

Nós queremos falar muito seriamente com eles sobre isso, porque eles estão escalando muito gravemente as tensos sobre a Transdnistria, praticamente como se quisessem que seja o próximo 'caso'. Isso é ultrajante, é retórica de provocação. Na verdade, estão querendo criar condições inaceitáveis para Tiraspol, condições - eu repito - que violam os acordos que asseguram vários direitos aos transdnistrianos a determinadas viagens, direitos de passagem e direitos comerciais. Tudo isso é ultrajante. Eles nunca aprendem. Mais uma vez, estão procurando criar um ponto muito áspero nas nossas relações.

"Rússia não cogita de enviar tropas à Ucrânia"

ROSSIYA 24 TV:  Praticamente todas as declarações sobre sanções, inclusive as declarações feitas por instituições política oficiais da União Europeia e dos EUA, contêm a expressão "ampliar a escalada". Por "ampliar a escalada", meus colegas jornalistas ocidentais entendem e dizem que significaria que forças militares russas podem cruzar as fronteiras para o interior da Ucrânia e marchar até Carcóvia, por exemplo. Vai acontecer ou não?

Min. SERGEY LAVROV: O presidente da Rússia Vladimir Putin, em sua fala do dia 18/3 na sala Georgievsky, disse claramente que estamos muito preocupados com a situação dos russos e dos falantes de russo no leste e no sul da Ucrânia, especialmente depois que grupos do Setor Direita, um certo Beletsky e o Front Oriental mudaram-se para lá. Essa gente é absolutamente odiosa. Ninguém precisa ser especialista em expressões faciais para saber das intenções deles. Falam abertamente. Muitas conversas telefônicas vazadas indicam como os russos serão tratados na Ucrânia e não só por membros do Setor Direita.

O presidente da Rússia exigiu que as autoridades ucranianas e seus patrões ocidentais ajam imediatamente para parar a violência. Disse que vamos proteger os direitos dos russos e dos falantes de russo na Ucrânia usando todos os meios políticos e diplomáticos e legais. Não tenho absolutamente nada a acrescentar a isso.

Temos de ser honestos. Não se pode apenas dizer como tantas vezes antes - sobre a Síria, o Irã, etc. - que chegamos a uma crise e que temos de aceitar a realidade. A Rússia trabalha para resolver a crise síria, para resolver o problema iraniano e para resolver a situação na Ucrânia mediante conversações diretas com as autoridades ucranianas. O ocidente insistentemente tenta fugir à responsabilidade de lidar com os mesmos que eles nutriram e continuam a apoiar para seus objetivos geopolíticos.

Não temos absolutamente nenhuma intenção de cruzar fronteiras ucranianas. Não é do nosso interesse. Não nos interessa. Queremos, simplesmente, que todos trabalhem juntos; queremos o fim da violência e queremos que os países ocidentais - que estão tentando varrer para baixo do tapete aqueles casos de violência, para pintarem a situação na Ucrânia sob uma luz positiva - deem-se conta de que têm responsabilidades a cumprir.

Segundo o ministro do Interior da Ucrânia, Arsen Avakov, as autoridades ucranianas têm tentado desarmar os que portem armas de fogo ilegalmente - quer dizer, os criminosos. Se for resultado do esforço de nossos parceiros ocidentais, então, repito, estamos satisfeitos. Estamos prontos para continuar a trabalhar e construir recomendações conjuntas para que os ucranianos ponham fim à ilegalidade e iniciem um profundo processo constitucional para reformar seu país.

"Não há planos para construir bases navais ao estilo dos EUA"

ROSSIYA 24 TV: Há especulações de que a Rússia pode responder a esses eventos implantando bases militares nas ilhas Seychelles, no Vietnã, na Nicarágua, em Cuba e até na Argentina.

Min. SERGEY LAVROV: É completa mentira. Não temos planos, nada, nenhum, de construir bases navais e militares pelo mundo, no sentido em que você falou. A Marinha Russa é agora muito mais forte que antes. Creio que agora, depois que a Crimeia se reincorporou à Rússia, haverá mais oportunidades para desenvolvimento. Além da Frota do Mar Negro, temos o Pacífico, a Frota do Norte, etc.

É muito importante para um país ter Marinha altamente treinada, sobretudo porque hoje a Marinha não tem só de se dedicar a propósitos de treinamento nos mares, mas, também, tem tarefas específicas, por exemplo, nas operações antipirataria no Golfo de Aden e em outros pontos. Navios viajam a locais distantes. Temos acordos com alguns países que permitem que nossos barcos e navios de guerra usem a infraestrutura implantada deles para reparos, reabastecimento de água e alimento e para repouso das tripulações.

Absolutamente não consideramos a ideia de construir bases como os EUA fazem. E é claro que, diferentes também dos EUA, não teremos acordo algum que torne nosso pessoal 'imune' a processos por crimes que cometam nos países onde sejam mandados operar.

Por falar nisso, vi recentemente na Internet um mapa impressionante da Federação Russa e das bases militares norte-americanas à nossa volta. É muito impressionante, são mais de cem bases. E, sob o mapa, uma frase de um soldado norte-americano: "Como os russos se atreveram a chegar aí, tão perto das nossas bases?"

ROSSIYA 24 TV:  O senhor está conversando com os países que mencionei sobre a possibilidade de nossas naves entrarem nos portos deles?

Min. SERGEY LAVROV: Com alguns poucos, sim. Mas essas questões são tratadas entre ministros da Defesa. ********

 


* https://www.facebook.com/pepe.escobar.77377?fref=ts#

[1] Os BRICS (Brasil, Índia, China e África do Sul) abstiveram-se, além de Argentina e Uruguai, dentre outros. O quadro dos votos pode ser visto em http://vineyardsaker.blogspot.com.br/2014/03/un-general-assembly-declares-crimean.html [NTs].

[2] Foram 100 votos "sim" [à 'Resolução' que declarou ilegal o plebiscito na Crimeia]; 11 "não"; e 58 abstenções; essa soma faz precisamente 100 a 68. Dadas as circunstâncias, é, sim, empate [NTs].

[3] O documento pode ser lido em http://www.dfa.gov.za/docs/2014/brics0324.html (ing.)

[4] Há foto do grupo em http://thebricspost.com/west-fails-to-understand-chinas-ukraine-policy-russia/#.UznKsahdX_8

31/3/2014, Sergey Lavrov, Ministro de Relações Exteriores da Rússia
Entrevista ao canal Rossiya 24 TV (vídeo, falas traduzidas)
http://rt.com/news/lavrov-interview-ukraine-russia-065/

 


Loading. Please wait...

Fotos popular