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O Inquérito Hutton e a guerra no Iraque

29.08.2003 | Fonte de informações:

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O Primeiro Ministro do Reino Unido é chamado a apresentar-se num tribunal perante um inquérito para averiguar como foi conduzido o processo que culminou na morte dum perito em armamento, que afirmava sempre que o caso para a guerra contra o Iraque baseado na suposição que o regime de Saddam Hussein tinha Armas de Destruição em Massa e poderia utilizá-los dentro de 45 minutos, era infundado.

O cerne da questão não é se foi o Tony Blair quem indicou o nome de David Kelly como a fonte da BBC, que foi a primeira órgão da imprensa britânica a noticiar que pessoas com o devido conhecimento tinham grandes reservas sobre a veracidade do conteúdo do dossier que por sua vez constituiu o causus belli dos EUA e Reino Unido contra o Iraque.

O cerne da questão não é se David Kelly se suicidou porque foi exposto em público ou se suicidou porque tinha quebrado regras internas sobre a divulgação de informação e iria ser castigado.

O cerne da questão não é se é Tony Blair ou seu Director de Comunicações, Alistair Campbell, quem decide como se gere o país e o cerne da questão não é se Saddam Hussein tinha de ser deposto porque era um tirano.

O cerne da questão tem a ver fundamental e fulcralmente com valores. Valores esses para os quais a humanidade lutou tanto por tanto tempo com tanta esperança e energia na obtenção dos quais milhões de vidas humanas foram perdidas. Insultar e denegrir esses valores é participar moralmente nessas mortes e apunhalar nas costas todos os que lutaram para a liberdade e para a democracia e perderam suas vidas em assim fazer.

Os valores em questão para que tanto lutámos são a honestidade e integridade dos governantes das nossas democracias. Muitos foram os modelos políticos experimentados pela Humanidade até chegar à conclusão que a democracia representativa parlamentar é a menos mal duma série de opções más, um processo completado recentemente na Rússia depois da transição da União Soviética para a Federação Russa.

Essa democracia, que é sinónimo, ou deveria ser, com a Liberdade, tem a ver com diálogo, discussão e troca de ideias, utilizando a diplomacia como meio de persuasão, não a demagogia, arrogância, prepotência e força bélica.

Essa democracia moderna é baseada internamente nos parlamentos e externamente na Organização das Nações Unidas, cuja Carta, no acto de assinar, vinculava os seus assinantes a uma série de regras, principalmente o uso do Conselho de Segurança para a resolução de crises.

Ora, chegámos ao cerne da questão. O regime de Bush tinha decidido atacar o Iraque e remover o seu Presidente, Sua Excelência Saddam Hussein, há muito tempo. Todos os sinais apontam para tal cenário, até a inclusão de Saddam em discursos que mencionavam o Osama bin Laden, um absurdo para quem sabe uma módica quantidade sobre o mundo islâmico, visto que eram inimigos, visto que na primeira guerra do Golfo, foi o bin Laden quem queria expulsar as forças iraquianas do Kuwait.

A única ligação da administração de Saddam Hussein com o terrorismo começou depois do ataque ilegal e terrorista dos Estados Unidos da América e seus lacaios, o Reino Unido, Portugal, Espanha, Polónia e Austrália, principalmente, países cujos líderes demonstraram uma falta total de coragem e princípios, em não traçar uma linha entre a democracia e liberdade e o fascismo e demagogia. Participar em assassínio ou apoiá-lo é igual.

Porque não havia uma razão para atacar baseada na lei, o regime de Bush e seus lacaios decidiram, contra a vontade da Humanidade, prosseguir com esse ataque assassina, em que estão todos envolvidos, sem utilizar e pior, menosprezar, as instituições devidamente constituídas para a resolução da crise por formas democráticas, em base de discussão de ideias com qualidade de igualdade. Decidiram atacar sem recorrer ao Conselho de Segurança da ONU, sabendo que uma segunda consulta era necessário segundo quaisquer dos textos de quaisquer resoluções passadas pelo mesmo organismo.

Dez mil civis foram chacinados pelas forças bélicas da “Coligação”, 16,000 civis foram mutilados. São vinte e seis milhares de pessoas, representando não se sabe quantos núcleos familiares destruídos, afectados num ataque selvática sem qualquer fundamento legal. Por isso, foi ilegal e por isso, os que perpetraram esse ultraje, e os que o apoiaram, são tão culpados e tão envolvidos como os criminosos de guerra que mataram tantos milhares de inocentes.

O cerne da questão é este, e não haja dúvidas. Não se pode dizer que a morte de David Kelly é mais trágico do que a morte dum civil iraquiano ou um soldado britânico ou norte-americano: a perda da vida humana é uma tragédia.

O cerne da questão é que a Humanidade se lembre que testemunhamos este ano, no início do Terceiro Milénio, o pior ultraje contra a lei internacional e contra a opinião pública mundial desde a segunda guerra mundial.

Que os líderes que tomaram a decisão de agir fora da lei, pensando que estavam a agir correctamente, não haja dúvidas. Só que não podemos dar luz verde a um mundo em que os governantes agem sem obedecer princípios básicos e as instituições devidamente constituídas, das quais são membros plenos, vinculados às suas regras.

No Reino Unido, tenta-se chegar à verdade e seria uma injustiça não lembrar que foi o próprio Tony Blair que constituiu esta investigação independente, o Inquérito público de Lord Hutton. Porém, 26,000 pessoas inocentes ou estão enterradas, ou desaparecidas, ou mutiladas, ou amputadas.

O cerne da questão é este. O mais incrível é como é que o mundo aceita tamanha barbaridade com um encolher dos ombros, como esses assassinos ainda estão nos seus lugares e como eles podem encarar a imagem no espelho de cada dia quando fazem a barba...ou será que fazem a barba com os olhos vendados?

Timothy BANCROFT-HINCHEY PRAVDA.Ru

 
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