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Quatro perguntas da ABI

29.06.2004 | Fonte de informações:

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http://www.consciencia.net/2004/mes/06/barreto-alternativa.html#abi 1 - O que é a imprensa alternativa e a qual a sua importância? É ela de informação ou opinião?

A imprensa alternativa é, basicamente, aquela que não é a grande imprensa. Este é o ponto de partida, a bipolaridade inicial, e é evidente que não há uma delimitação matemática para essa divisão. Há muita imprensa "alternativa" que é conservadora, ao passo que há muita gente boa na grande imprensa. Isso não significa, portanto, entrar em um jogo maniqueísta, dizendo que somos nós contra eles. Não é isso. É apenas destacar que nós temos uma linha editorial diferente, com toda uma estrutura de pensamento e lógica conceitual diferente. Somos, enfim, ideologicamente diferentes. (veja mais em www.consciencia.net/2004/mes/06/barreto-alternativa.html)

Outro aspecto que não pode ser deixado de lado é a propriedade dos meios de comunicação. Este é um foco que a imprensa alternativa combate: a concentração deste tipo de propriedade. Isto não significa que não se possa ter "imprensa alternativa" em um meio que possua muitas propriedades — ou seja, isto é uma realidade, mas não é a regra. Imprensa alternativa remete, antes de tudo, a um posicionamento independente e centrado no ser humano e no respeito pela vida. Algo com o que a maior parte das empresas e governos não se preocupa.

A importância dela reside na necessária independência de opinião, que por sua vez gera a informação mais correta. A diversidade informativa, característica da imprensa alternativa, é outro fator que se faz necessária em uma democracia não-formal.

Esta oposição informação-opinião não existe de fato. Ela é um conceito jornalístico importante, mas não existe. A opinião muitas vezes gera informação.

Se eu acho, por exemplo, que o Estado deve retornar aos seus cidadãos o dinheiro que estes dão ao Estado, eu tenho um foco que me levará a determinadas fontes. É uma opinião gerando informação. Se, por outro lado, eu acho razoável que um funcionário acumule cargos em empresas privadas e órgãos públicos ao mesmo tempo, e que disso saia uma parceria entre os dois, então eu tenho um outro foco.

A informação, por sua vez, também gera opinião. Isto já se sabe, porque esta é a parte que os grandes jornais destacam — um desses chavões que vendem credibilidade. Eles se esquecem que o oposto também acontece: a opinião de uma pessoa pode determinar os rumos da informação que recebe.

2 - Como podem sobreviver estes meios e as pessoas envolvidas em informar fora dos meios ditos 'oficiais', a 'grande imprensa'?

Não há resposta. Aliás, na vida não há respostas, apenas escolhas. Não se trata de mais um chavão. A "resposta" jornalística, oriunda da pesquisa minuciosa e verificação dos fatos, só pode ser revelada se alguém fez uma pergunta. Isto parece evidente. Agora, cabe perguntar: quem escolhe as perguntas?

Esta é uma escolha concreta da imprensa alternativa: trabalhar para viabilizar a indenpendência jornalística, sem aderir a empresas e governos que podem, via publicidade, praticar censura e autocensura, como tem ocorrido. Trata-se de dizer: nós somos independentes o suficiente para formular nossas próprias perguntas.

Citando um exemplo rápido. Os jornais, rádios e tevês perguntam toda semana: o PIB do Brasil vai crescer? Quanto? São perguntas feitas por pessoas alheias ao povo. Somos limitados a este tipo de pergunta. "Sim", "Não", "3,5% do PIB", "Não, eu discordo, vai ser 4% do PIB". É uma discussão vazia, que não serve para nada a não ser ocupar a cabeça das pessoas.

Enquanto empresas e governos oferecem facilidades para "acomodar" os jornalistas, nós oferecemos um amigável "não, muito obrigado, temos algo mais nobre a perseguir". Temos a informação como instrumento de transformação social, e não de transformação pessoal.

3 - De que forma são sufocados esses meios alternativos pelos inflexíveis conglomerados de mídia?

De diversas maneiras. A mais visível é pela publicidade. As verbas para os grandes blocos de comunicação fazem com que eles se fortaleçam e continuem a receber mais verbas. É um ciclo sem fim.

Uma outra forma é pela repetição. O já falecido sociólogo Pierre Bordieu lembrou bem que, hoje em dia, os redatores passam mais tempo lendo os jornais adversários do que buscando fatos novos. Há exceções, é claro. Mas em geral é este o mecanismo que faz com que um determinado assunto esteja em todos os meios de comunicação ou em nenhum. E com isso ganham as assessorias de comunicação mais competentes. A indústria das Relações Públicas está dizimando o jornalismo. Ou melhor: está modificando o jornalismo. Mudando conceitos. Querem transformar "release" e "reportagem" em uma coisa só.

Na nossa História, fica claro que é muito mais fácil você absorver seu inimigo do que destruí-lo. As empresas sabem disso e sabem o estrago que a verdade noticiada pode fazer com muitas delas.

Os noticiários, portanto, são muito parecidos. Há uma ou outra diferença, muda-se um sujeito aqui e uma forma de contar ali, mas o leitor comum não percebe essas "mudanças". O tema é o mesmo. Isso prejudica outros temas. A sociedade não ignora a importância deles, principalmente os que se relacionam diretamente às suas vidas.

A renegociação da dívida que inibe os investimentos sociais não é pauta — a grande imprensa prefere falar em "austeridade fiscal". A reforma agrária não é pauta — a grande imprensa prefere falar na "ameaça das invasões dos sem-terra". Hospitais e Escolas em crise são tidos como casos isolados — basta dar voz ao cara da comunidade e ao secretário da pasta que está tudo resolvido. O buraco, sabemos, é mais embaixo.

São muitos os exemplos. O receptor comum, que não tem tempo para analisar minuciosamente a mídia, acaba achando que determinado tema é essencial, pois todos os meios de comunicação estão a falar sobre ele.

Muitos temas sociais estão marginalizados. O exemplo mais desumano que conheço é a infância e adolescência. Analisando a mídia como um todo, parece ser uma questão secundária, atrás de "crescimento econômico" ou de "reformas necessárias". Isto, dizem, é mais importante do que falar sobre a situação das creches.

A Lei das Falências, que limita em apenas 150 salários mínimos os direitos dos trabalhadores, incluindo os resultantes de acidentes de trabalho, e esquece de limitar os direitos das instituições financeiras, é uma "reforma necessária". Esta é a grande imprensa, em grande parte.

Mas, como disse, há várias formas de sufocar a imprensa alternativa. Só há uma coisa impossível de sufocar: nossa resistência pela valorização da vida. A verdadeira imprensa alternativa incomoda pois sua ideologia não está à venda.

4 - Há alternativa? A isso deveriam receber que tipo de apoio? Seria o caso do Estado, uma outra voz pública?

Sim. O maior apoio que um comunicador recebe do seu trabalho é o retorno humano. Isto gera motivação, que por sua vez gera engajamento na viabilização econômica. Não se trata de utopia, portanto. É questão de inteligência ser solidário, dizia o sociólogo Betinho. Hoje, a mídia é cada vez mais interativa, e acho que isso diz respeito às pessoas que estão na imprensa alternativa ou que criam alternativas dentro dos grandes meios. Há essa necessidade de ter o retorno não apenas financeiro.

O "Estado" é uma palavra muito abstrata, porque existe uma série de esferas administrativas, muitas independentes entre si, e por isso é possível achar apoio em muitos lugares do Estado. O que as pessoas muitas vezes esquecem — e eu também não isento a grande imprensa deste "esquecimento" — é de que o Estado está a nosso serviço. Os governos são nossos empregados, pois é o trabalhador quem banca o Estado por meio dos impostos. Não foi feito para pagar dívidas de empresas privadas ou para isentá-las de impostos.

Dito desta forma nos parece algo óbvio, mas em muitos momentos isto soa "utópico". É verdade, em alguns governos isto é uma utopia. Mas é bom lembrar que este princípio republicano ainda não foi retirado da Constituição. Até lá continuaremos a defendê-lo.

 
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