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Liberdade de comunicação

27.06.2005 | Fonte de informações:

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Quando o tema é liberdade de comunicação, tendemos ao óbvio e lembramos primeiramente a censura de regimes autoritários. Ao discutirmos a liberdade de imprensa dos países democráticos, lembramos novamente a censura: quando interesses particulares amordaçam a mídia ou quando os abusos cometidos pelo quarto poder são ameaçados de punição. Porém, ao abordarmos o assunto, raramente mencionamos as entrelinhas da estrutura e política comunicacional, das quais revelam uma liberdade de comunicação controversa, onde se apresenta e ao mesmo tempo se mutila o conteúdo informativo ao simplificá-lo e hierarquizá-lo.

Assim como em todas as normas, há algo de castrador na norma do “bom jornalismo”. O jornalista se submete aos interesses do jornal, que se submete aos interesses de mercado. Essa é a fórmula. A estrutura se baseia em simplificar o complexo, castrando o conteúdo e tornando tudo digerível à todos. A mídia, com a capacidade de transformar o ordinário em extraordinário, determina o chamado assunto de interesse público. A liberdade de imprensa também consiste em vender “o que mais interessa” ao consumidor, hierarquizando assim a informação. Exemplo? A nova gravidez da Xuxa ganharia maior destaque do que as políticas ambientais do seqüestro de carbono. Um deputado distrital que transava com sua secretária deteria maior espaço na mídia do que 200 mil mortos em alguma guerra civil da África ou da Europa Oriental.

Mas o mercado também significa diversidade e satisfaz não apenas aos fãs da rainha dos baixinhos ou curiosos por fornicações políticas. Além de vender produtos danificados, o mercado também vende soluções para esses problemas e todos ficam felizes. Aos poucos, veículos midiáticos alternativos ou especializados e livros surgem para tentar preencher a lacuna de informações deixada pelos grandes meios de comunicação. Exemplo maior está na obra do jornalista e cartunista Joe Sacco.

Driblando a superficialidade

Autor das séries Palestina (Uma nação ocupada ; Faixa de Gaza) e Gorazde (A guerra na Bósnia Oriental) Sacco utiliza a linguagem dos quadrinhos para definhar o conflito árabe-israelense e a guerra da Bósnia. . Personagens repletos de histórias e detalhes que geralmente ficam de fora de uma usual cobertura jornalística são características da obra do autor. Uma História de Sarajevo, continuação de Gorazde, lançado recentemente no Brasil, segue essa mesma linha. Joe Sacco e seu protagonista Neven, um sérvio franco-atirador, que lutou no lado muçulmano para defender a capital bósnia, percorrem o universo da guerra, sem poupar nenhum detalhe e aspectos sociais.

Em Uma História de Sarajevo, não houve nenhum editor para deixar de fora, sob o pretexto de não interessar ao leitor, as histórias dos chefes de grupos paramilitares, os chamados senhores da guerra, ou o modo utilizado pelas milícias para selecionar pessoas para cavar trincheiras. Também não houve nenhum anúncio publicitário para cortar, em cima da hora, a parte do texto em que descrevia algumas facções paramilitares bósnias, que durante a guerra desafiaram o seu próprio governo e passaram para o lado inimigo. Sacco mostra que retratar uma guerra é muito mais do que mostrar atentados, pessoas mortas na fila do pão ou prédio em ruínas. Percebe-se que na obra do cartunista, o protagonista principal da guerra não é a destruição, mas sim o ser humano, complexo e não compatível a simplificações.

Uma história de Sarajevo Autor: Joe Sacco Editora: Conrad Preço médio: R$ 30,00

 
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