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O RETORNO DA URSS

19.05.2004 | Fonte de informações:

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Muitas vezes acusada de ser um "império", um poder tirânico que subjugava nações que aspiravam à independência, e que destruía a cultura de vários povos, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, criada em 1922, na verdade estava muito à frente de seu tempo. Tinha vários defeitos, sem dúvida, principalmente o unipartidarismo, a economia planificada e a ideologia socialista.

Mas por outro lado, foi o primeiro Estado multinacional da história, onde diferentes povos tinham grande autonomia interna e podiam manter sua cultura e sua identidade nacional - e a segunda tentativa neste sentido, embora ainda longe de ser um Estado, é a União Européia. Exatamente por permitir uma grande integração, ao mesmo tempo em que mantém a autonomia, é que de alguma forma a URSS deve voltar em breve, embora com outro nome e com menos Estados membros. A URSS foi oficialmente dissolvida em 31 de dezembro de 1991, em um ato claramente contrário à vontade popular, pois em 17 de março daquele ano um referendo havia mostrado que 76% da população de quase todos os membros (exceto os países bálticos, onde houve um boicote) era favorável à manutenção da União, embora com reformas. No entanto, ainda assim ela foi dissolvida. As causas do fim da URSS são o descontentamento popular com o regime socialista e o nacionalismo: novos líderes regionais, querendo conseguir o poder total, viam no fim da União a possibilidade de atingir seu fim.

A URSS, assim como a União Européia, foi uma instituição à frente de seu tempo, que buscou a integração política e econômica numa época em que a humanidade ainda não superou os velhos chauvinismos. Assim como o nacionalismo dos países membros é um entrave para que a União Européia se torne um Estado de fato (com uma constituição, política externa e defesa comuns), ele também foi uma das principais causas do fim da URSS.

No lugar da URSS foi criada a Comunidade de Estados Independentes (CEI). Esta comunidade é apenas formal: não tem unidade monetária, acordos comerciais, livre trânsito de pessoas, produtos e serviços, política externa comum, nem acordos de defesa mútua; pode-se dizer que não serve para nada. E grande parte da crise econômica dos países da CEI não se deve apenas às "reformas" desastrosas feitas na década de 90, mas também ao vácuo deixado pela URSS que a CEI é totalmente incapaz de preencher.

Os 12 países membros da CEI (Rússia, Bielorússia, Ucrânia, Moldávia, Armênia, Geórgia, Azerbaijão, Cazaquistão, Uzbequistão, Turcomenistão, Quirquistão e Tadjiquistão), ou seja, os 15 da URSS menos os países bálticos (Lituânia, Letônia e Estônia), eram todos um único país: a moeda, o sistema energético, o sistema bancário, a política macroeconômica e os documentos eram todos os mesmos. Todo a produção era interdependente, e também é comum haver famílias cujos membros se encontram dispersos por várias repúblicas da União.

Os problemas criadas quando a URSS foi "substituída" pela CEI são óbvios: por exemplo, a Ucrânia é um país muito desenvolvido, grande produtor agrícola e industrial, porém depende do fornecimento de combustíveis e eletricidade, que agora precisam ser importados; e no caso de famílias, se tornou bastante difícil visitar seus membros (viagens domésticas se tornaram internacionais, algumas vezes necessitando de visto, como no caso de um russo que queira ir para a Lituânia) e enviar dinheiro para parentes (pois uma simples operação de transferência se tornou remessa de ativos para o exterior, com taxas caras, câmbio, papelada burocrática, etc.).

E o fim da URSS também trouxe grandes problemas de segurança para muitas áreas: pois se antes eram todos defendidos pela segunda maior força militar do mundo, agora se tornaram vulneráveis a bandos armados, crime organizado, fundamentalismo religioso e terrorismo internacional; o Cáucaso e a Ásia Central são exemplos claríssimos disso tudo.

Diante de todos estes problemas, é natural que os países da CEI comecem a assinar acordos comerciais, políticos e militares que, aos poucos, significam a restauração, ao menos parcial, da União Soviética. Rússia e Bielorússia já estão integradas há alguns anos, e são um modelo desse tipo de acordos: têm política macroeconômica, moeda, defesa e polítca externa comuns, união alfandegária e livre trânsito de pessoas. No momento está sendo finalizado o acordo para uma área de livre comércio abrangendo os quatro Estados mais ricos da ex-URSS: Rússia, Bielorússia, Ucrânia e Cazaquistão. Por fim, já existe um tratado de defesa entre a Rússia, a Bielorússia, a Armênia, o Cazaquistão, o Quirquistão e o Tadjiquistão.

Todas essas medidas ajudarão a desenvolver a economia e o nível de vida da população, aumentarão a segurança e darão aos países membros maior força e coesão nas questões internacionais. O grande obstáculo continua sendo o nacionalismo, muitas vezes incitado pelos EUA, que têm intereses na fragmentação da antiga União Soviética: segundo os funcionários do Departamento de Estado norte-americano, é porque eles apóiam a "auto-determinação dos povos", mas na verdade é exatamente porque a partição mantém a todos enfraquecidos.

Assim como a União Européia pode vir a superar economicamente os EUA, também uma nova versão da União Soviética fortalece econômica e militarmente todos esses países que (exceto a Rússia) são pequenos demais para ter um papel importante na política mundial. Por isso, não é de se estranhar que a imprensa norte-americana ataque tanto o presidente bielorrusso, Aleksandr Lukashenko, tratando-o de "ditador", "retrógrado" e "burocrata comunista": ele não é nada disso, mas sob seu governo a Bielorússia se uniu com a Rússia e tem conquistado vantagens, servindo de exemplo aos demais países da antiga URSS, algo que os EUA não querem de jeito nenhum.

Atualmente, o dia 31 de dezembro é feriado oficial na Rússia, por ser o dia da dissolução da União Soviética é chamado de "Dia da Independência". Os russos dizem jocosamente que esse "é o dia em que nos tornamos independentes de nós mesmos". E têm plena razão, não tem sentido chamar essa data de "dia da independência", pois a URSS não era um império colonial, mas um Estado multinacional cuja integração trazia grandes vantagens econômicas, políticas e estratégicas, e não eliminava a autonomia e a cultura de cada uma das repúblicas.

A reintegração espontânea das repúblicas que a constituíam e que agora são Estados independentes é a única maneira de recuperar o status perdido - e parece que a população e mesmo os líderes de muitos desses países já perceberam isso. Carlo MOIANA Pravda.Ru Brasil

 
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