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Globo: o futuro não começou porque o passado está escondido

18.04.2005 | Fonte de informações:

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Como isso vai ser lembrado? Uma hipótese é a de que as trevas militares vão ser suavizadas pelos holofotes da Globo. E enquanto os arquivos da ditadura não forem abertos, podemos fazer pouco contra isso.

A eterna musiquinha da Globo de final de ano diz: “Hoje, a festa é sua, a festa é nossa...O futuro já começou”. Neste ano, as imagens que acompanham a música mostram várias partes do Brasil. Em plena sintonia com o neopatriotismo do governo Lula. Os atores globais também lembram que em 2005, a emissora completa 40 anos. Num deles, Paulo Goulart diz que, ano que vem, começam os próximos 40 anos da Globo.

Sem dúvida, a Globo espera que seu aniversário seja uma oportunidade mais para falar do futuro, do que para lembrar seu passado feio.

Afinal, metade dos 40 anos completados pela Globo foram dedicados a apoiar a ditadura militar, de 1964. A outra metade não é muito melhor, mas é menos evidente. De qualquer maneira, as cabeças pensantes da emissora sabem que não há como esconder tanto tempo de sua história. Então, parece que há um plano em andamento.

Uma nova tática: mostrar do jeito deles

Uma reportagem do “Fantástico” de 12 de dezembro mostrou documentos e pedaços de papéis encontrados em uma base aérea na Bahia. São fichas e relatórios de observação de suspeitos. Também há descrições de ações policiais e militares. Eles deveriam estar arquivados, mas foram encontrados quase destruídos. A reportagem reacendeu uma discussão que começou com a aparição de fotos de um prisioneiro político, que parecia ser o jornalista Vladimir Herzog. Fez aparecer novamente também a luta de muitas entidades de direitos humanos, partidos e associações de desaparecidos políticos. Eles querem a abertura dos arquivos da ditadura.

Em 19 de dezembro de 2004, apareceu um artigo de Jarbas Passarinho, coronel da reserva e ministro dos governos Médici, Figueiredo e Collor. O texto publicado na Folha de São Paulo tinha o título de “Apogeu e declínio do ciclo militar”. Além de dizer que somente as coisas ruins feitas por militares são lembradas, Passarinho diz que “Na ‘guerra suja’, crueldades foram praticadas de ambos os lados, mas só vem a público a hediondez das torturas, que não eram uma política de governo, mas deformações dos que esqueceram a Convenção de Genebra, aprendida nas escolas militares”.

Arnaldo Jabor, o mais honesto dos porta-vozes da Globo, está há vários dias abordando o assunto. De um lado, fala da brutalidade dos militares. De outro, chama a atenção para a burrice da esquerda. Um dia, fala que é preciso abrir os arquivos. No outro, que não dá pra ficar olhando pro passado. Tem que olhar pro futuro. Afinal, “o futuro já começou”.

Numa entrevista ao site NoMínimo (http://nominimo.ibest.com.br), Pedro Bial fala da biografia que escreveu sobre Roberto Marinho. Além de dizer que se apaixonou pelo personagem de seu antigo patrão, Bial confessa ter sido um fã de Castello Branco. Segundo o apaixonado biógrafo, “Castello era um legalista. O grande erro dele foi prorrogar por um ano o seu mandato. Aí toma aquele pau nas eleições estaduais e pronto. A história fica cada vez mais triste...”. Ah, também diz que “a ditadura mesmo começa em 68”.

Passarinho, Jabor, Bial e Gaspari: detalhando para confundir Elio Gaspari veio antes disso tudo. Durante 2004, lançou três volumes sobre a ditadura: “A Ditadura Derrotada”, “A Ditadura Envergonhada” e “A Ditadura Escancarada”. Os livros venderam muito bem. E venderam também uma imagem detalhada dos governos militares. Há muitos problemas na narração de Gaspari. Entre eles, a idéia de que o golpe veio como resposta ao golpe que estava sendo preparado pela esquerda. Como se o PCB não estivesse agarrado à legalidade.

Como se não estivesse certo de que o latifundiário João Goulart iria fazer todas as transformações necessárias no lugar e em beneficio da classe trabalhadora. Tudo sem ter que ameaçar a lei e a ordem.

A reportagem do Fantástico, as falas do Jabor e de Bial. O artigo de Passarinho e os livros de Gaspari. Isso tudo parece apontar para uma hipótese. A de que a distância de 20 anos do final oficial da ditadura militar, permite a seus apoiadores antigos e recentes falar do assunto com mais conforto. Não se trata mais de silenciar sobre o período. Mas, de tagarelar sobre ele usando outra gramática.

Detalhar, especular, vasculhar. Mudar períodos. A ditadura começou quando? Um ano antes da fundação da Globo. Pode ser. Mas não poderia ter sido três anos depois? Em 1968? Também pode ser.

A tortura existiu? Sim. Mas por que? Por desobediência de alguns soldados rasos de cabeça quente. Assim mesmo, a culpada pela violência foi a esquerda armada. Não interessa o fato de que quem pegou em armas foram os militares para derrubar um presidente eleito. Também não interessa que a esquerda resolveu responder com violência à violência com que foi tratada. O que interessa é que a “guerra suja tinha dois lados”. Aí, já viu, né? “Nossos homens perderam o controle”. etc.

Governo Lula não ajuda, se recusando a abrir os arquivos E o golpe? Foi um golpe ou apenas uma resposta à conspiração comunista? “Tem que ver tudo isso. Não dá pra ir falando coisas sobre a Globo, assim, sem mais nem menos. Ainda mais, agora. Com um governo de esquerda. Com Lula presidente. E a Globo dando a maior força...”

Na verdade, é uma estratégia inteligente. E conta com nossa ajuda. Nós, que de alguma forma lutamos contra a ditadura e a denunciamos, cada vez mais o fazemos de modo chapado. A ditadura foi ruim e ponto. Um período escuro, triste, maldito. E foi mesmo. Mas, já faz 20 anos que acabou. As novas gerações não viveram esses tempos.

Estão entrando em contato com eles pela grande mídia. E desse jeito. Do jeito que a Globo vem fazendo. E pelo jeito vai fazer, no seu 40º aniversário.

A ajuda também vem do governo Lula. Aceitando, por exemplo, o decreto 4.553, assinado por Fernando Henrique em dezembro de 2002, às vésperas de deixar o governo. Pelo decreto, os documentos classificados de ultra-secretos permanecem em sigilo por 50 anos.

Tem que derrubar esse decreto! O governo Lula também vem fazendo de tudo para não cumprir uma ordem judicial que determina a abertura dos arquivos da Guerrilha do Araguaia. Tem que cumprir a ordem! Do contrário, ficaremos sujeitos ao que a Globo quiser divulgar.

Cabe a nós, humildes guerrilheiros contra a grande mídia, denunciar. Mostrar o que parece ser uma nova estratégia dos antigos e recentes apoiadores da ditadura militar. Definitivamente, o futuro não começou, porque o passado está escondido. Enquanto isso, a Globo e a grande mídia começam a reconstruir o que passou segundo seus interesses.

Sérgio Domingues – dezembro de 2004 PUBLICAÇÃO: 05/04/2005 FONTE: MIDIA VIGIADA SITE: http://www.midiavigiada.kit.net

 
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