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Manifesto de um adversário ao governo dos Estados Unidos

17.05.2004 | Fonte de informações:

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Não se reúne em gesto hostil contra o povo dos Estados Unidos, cujas raízes éticas, originárias da época em que os primeiros peregrinos emigraram a este hemisfério, conhecemos bem. Tampouco desejamos incomodar os funcionários, empregados e guardiães dessa instalação, que, no cumprimento de suas tarefas, gozam de toda a segurança e garantias que um povo culto e civilizado como o nosso é capaz de oferecer. É um ato de indignado protesto e uma denúncia contra as brutais, impiedosas e cruéis medidas que seu governo acaba de adotar contra nosso país. Sabemos de antemão o que o senhor pensa ou pretende que se pense dos que aqui marcharão. Em sua opinião, trata-se de massas oprimidas e ansiosas por liberdade, lançadas à rua pelo governo de Cuba. Ignora completamente que nenhuma força do mundo poderia arrastar, como se fosse um rebanho amarrado pelo pescoço, o povo digno e altivo que há 45 anos resiste à hostilidade, ao bloqueio e às agressões da potência mais poderosa da Terra. Um estadista, ou alguém que pretende sê-lo, deveria saber que as idéias justas e realmente humanas demonstraram, ao longo da história, ser muito mais poderosas que a força; desta, vão ficando empoeiradas e desprezíveis ruínas; daquelas, traços luminosos que ninguém poderá apagar. A cada época corresponderam as suas, tanto boas como más, e todas foram se acumulando. Mas a esta etapa em que vivemos, num mundo bárbaro, incivilizado e globalizado, correspondem as piores, mais tenebrosas e incertas. Não existe no mundo que hoje o senhor deseja impor, a menor noção de ética, credibilidade, normas de justiça, sentimentos humanitários, nem os mais elementares princípios de solidariedade e generosidade. Tudo que se escreve sobre direitos humanos em seu mundo e no de seus aliados que compartilham o saqueio do planeta, é uma colossal mentira. Bilhões de seres humanos vivem com fome, sem alimentos suficientes, medicamentos, roupas, sapatos, moradias, em condições subumanas, sem os conhecimentos mínimos e informação suficiente para compreender sua tragédia e a do mundo em que vivem. Certamente ninguém informou ao senhor quantas dezenas de milhões de crianças, adolescentes, jovens, mães, pessoas de meia idade ou idosas que poderiam se salvar, morrem a cada ano neste “idílico paraíso de sonhos” que é a Terra, nem o ritmo a que se destroem as condições naturais de vida, ou como se estão esbanjando, num século e meio, com terríveis efeitos nocivos, os hidrocarbonetos que o planeta levou 300 milhões de anos para criar. Bastaria que o senhor pedisse a seus ajudantes dados precisos sobre as dezenas de milhares de armas nucleares, químicas e biológicas, aviões de bombardeio, mísseis de pontaria precisa e grande alcance e precisão, encouraçados, porta-aviões, armas convencionais e não-convencionais suficientes para acabar com a vida no planeta, que existem em seus arsenais. Nem o senhor nem ninguém jamais poderia conciliar o sono. Nem seus aliados, que tratam de competir com o desenvolvimento de seus arsenais. Se tivermos em conta o baixo coeficiente de responsabilidade, de talento político, os desequilíbrios entre seus respectivos Estados e o baixíssimo ânimo para refletir, entre protocolos, reuniões e assessores, dos que têm o destino da humanidade nas mãos, são poucas as esperanças que podem alimentar, quando contemplam, entre perplexos e indiferentes, esse verdadeiro manicômio em que se converteu a política mundial. O objetivo destas linhas não é ofendê-lo nem insultá-lo; mas, como o senhor se propôs a intimidar, atemorizar este país, e finalmente a destruir seu sistema socioeconômico, sua independência e, se necessário, sua própria existência física, considero um dever elementar lembrar-lhe algumas verdades. O senhor não tem moral nem direito nenhum de falar em liberdade, democracia e direitos humanos, já que detém poder suficiente para destruir a humanidade e se vale dele para tentar impor uma tirania mundial, ignorando e destruindo a Organização das Nações Unidas, violando os direitos de qualquer país, realizando guerras de conquista para apoderar-se dos mercados e recursos do mundo, impondo sistemas políticos e sociais decadentes e anacrônicos que levam a espécie humana ao abismo. O senhor não pode mencionar a palavra democracia também por outras razões: entre elas, porque sua ascensão à Presidência dos Estados Unidos, como todo mundo sabe, foi fraudulenta. Não pode falar de liberdade, porque não imagina outro mundo que não seja o regido pelo império do terror das mortíferas armas que suas mãos inábeis podem lançar sobre a humanidade. Não pode falar de meio ambiente, porque ignora totalmente que a espécie humana corre o risco de desaparecer. O senhor acusa de tirania o sistema econômico e político que levou o povo de Cuba aos mais altos níveis de alfabetização, conhecimentos e cultura, entre os países mais desenvolvidos do mundo; que reduziu a mortalidade infantil a um índice inferior ao dos Estados Unidos, e cuja população recebe gratuitamente todos os serviços de saúde, educação e outros de grande importância social e humana. Soa falso e risível escutar o senhor falar de direitos humanos em Cuba. Senhor Bush, este é um dos poucos países deste hemisfério onde, em 45 anos, jamais houve uma só tortura, um só esquadrão da morte, uma só execução extrajudicial, nem um único governante que se tenha tornado milionário no exercício do poder. O senhor carece de autoridade moral para falar de Cuba, um país digno que resiste há 45 anos a um brutal bloqueio, guerra econômica e ataques terroristas que custaram milhares de vidas e dezenas de bilhões de dólares em perdas econômicas. O senhor agride a Cuba por mesquinhas razões políticas, em busca do apoio eleitoral de um grupo decrescente de renegados e mercenários, sem ética nem princípio. O senhor não tem moral para falar de terrorismo, porque está rodeado por um grupo de assassinos que, com ações desse tipo, causaram a morte de milhares de cubanos. O senhor não dissimula seu desprezo pela vida humana, já que não vacilou em ordenar a morte extrajudicial de um número desconhecido e secreto de pessoas no mundo. O senhor não tem o menor direito, que não seja o da força bruta, a intervir nos assuntos de Cuba e proclamar a seu bel-prazer o trânsito de um sistema a outro, e a adotar medidas para efetuá-lo. Este povo pode ser exterminado – é bom que saiba –, varrido da face da Terra, mas não pode ser subjugado nem submetido novamente à humilhante condição de neocolônia dos Estados Unidos. Cuba luta pela vida no mundo; o senhor luta pela morte. Enquanto o senhor mata a incontáveis pessoas com seus ataques indiscriminados preventivos e de surpresa, Cuba salva a centenas de milhares de vidas de crianças, mães, doentes e anciãos no mundo. A única coisa que o senhor sabe sobre Cuba são as mentiras que emanam das bocas vorazes da máfia corrompida e insaciável formada por antigos batistianos e seus descendentes, peritos em fraudes eleitorais e capazes de eleger Presidente dos Estados Unidos alguém que não obteve votos suficientes para conseguir a vitória. Os seres humanos não conhecem nem podem conhecer liberdade num regime de desigualdade como esse que o senhor representa. Ninguém nasce igual nos Estados Unidos. Nos guetos de pessoas de origem africana e latina, e nas reservas de índios que povoaram essa terra e foram exterminados, não existe outra igualdade que a de serem pobres e excluídos. Nosso povo, educado na solidariedade e no internacionalismo, não odeia o povo norte-americano, nem deseja ver morrer a jovens soldados de seu país, brancos, negros, índios, mestiços, muitas vezes latino-americanos, que o desemprego arrastou a se alistarem em unidades militares para serem enviados a qualquer canto do mundo, em ataques traiçoeiros e preventivos ou em guerras de conquista. As incríveis torturas aplicadas aos prisioneiros no Iraque deixaram o mundo estupefato. Não pretendo ofendê-lo com estas linhas, como já disse. Apenas aspiro a que, em algum momento de ócio, um de seus ajudantes ponha diante do senhor essas verdades, ainda que não sejam absolutamente de seu agrado. Já que o senhor decidiu que nossa sorte está lançada, tenho o prazer de despedir-me como os gladiadores romanos que iam lutar no circo: Ave, César, os que vão morrer te saúdam. Apenas lamento que não poderia nem mesmo ver sua cara, porque, nesse caso, o senhor estará a milhares de quilômetros de distância, e eu estarei na primeira linha, para morrer combatendo em defesa de minha pátria. Em nome do povo de Cuba, Fidel Castro Ruz

 
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