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"Precisamos de saber ultrapassar o período de radicalização da política externa dos EUA"

16.11.2004 | Fonte de informações:

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No entanto, o Presidente Bush e a sua equipa deram um passo muito hábil, inteligente e clarividente, tendo proclamado os valores morais como os principais lemas da sua campanha. Além dos temas da segurança, da luta contra o terrorismo e da guerra no Iraque, foram colocados no primeiro plano as questões da política familiar, dos casamentos unissexuais e da liberdade de consciência. Bush venceu graças em muito ao facto de ter atraído as pessoas politicamente menos activas e, ao fim e ao cabo, conquistou a vitória à custa destes votos suplementares. Funcionou também o factor a que podemos chamar papel da personalidade na história. Vem-me à memória uma caricatura que vi num jornal americano pouco antes das eleições: numa loja de tintas havia dois balcões. A um dos balcões Bush vendia as tintas preta e branca e ao outro Kerry propunha aos clientes tinta cinzenta. Este desenho pareceu-me uma descrição bastante espirituosa dos candidatos, pois nenhum deles tinha uma paleta colorida nem para os EUA nem para o mundo circundante, mas o programa de Bush mais radical e categórico agradou mais à maioria dos eleitores americanos.

Segundo a expressão do próprio George Bush, nos últimos anos os EUA encontram-se em estado de guerra contra o terrorismo. Mas os presidentes dos EUA sempre foram reeleitos quando o país se encontrava em estado de guerra, e as actuais eleições dificilmente podiam ser excepção. Os americanos consideraram as questões económicas menos importantes do que o problema da segurança. Este foi o segundo tema principal de Bush, que lhe permitiu conquistar a vitória. Além disso, o candidato John Kerry não era suficientemente carismático, e a campanha eleitoral decorreu antes segundo o cenário "Bush contra Bush" do que "Kerry contra Bush". Por mais estranho que pareça, num determinado sentido nestas eleições participou um só candidato. Foram sintomáticas as previsões dos analistas americanos de que qualquer grande acto terrorista no território dos EUA nas vésperas das eleições seria favorável à vitória de Bush, mas se um acto terrorista deste tipo ocorresse no território do Iraque, ele prejudicar-lo-ia. Todos os raciocínios giravam em torno da figura de Bush, mas ninguém procurou analisar o que seria favorável a Kerry ou trabalharia contra ele. A vitória de Bush deveu-se em muito aos erros dos democratas. Não se pode deixar de reconhecer que o Partido Democrático se encontra agora em crise, pois os acontecimentos ocorridos ultimamente nos EUA e no mundo fazem com que a prudência e discrição políticas próprias deste país resultem mais desfavoráveis do que as tintas preta e branca da caricatura americana.

No entanto, este estado de coisas não pode deixar de nos pôr de sobreaviso. Os meus receios estão ligados à suposição de que os republicanos possam interpretar a sua vitória como um mandato para uma maior radicalização das acções dos EUA na arena internacional. A política externa da segunda presidência de Bush, pelo menos nos próximos meses, será, provavelmente, mais radical do que nos últimos quatro anos.

Como serão agora as relações entre os EUA e a Rússia? O bom estado das relações pessoais entre os Presidentes Bush e Putin, tal como das relações políticas entre os nossos países, permite esperar que a tendência favorável esboçada nos anteriores quatro anos, se mantenha. Não penso que a vitória de Kerry pudesse provocar um sério agravamento das relações entre os EUA e a Rússia. Tratar-se-ia, provavelmente, de pormenores e não de princípios. No entanto, é preciso ter presente que nos últimos tempos o Presidente Bush manifestou a sua atitude especial para com a Rússia. Por exemplo, veio pessoalmente à Embaixada russa para expressar condolências por motivo da tragédia em Beslan: foi não só um procedimento humano mas também um importante acto político, pois o protocolo diplomático não o exigia e todos nos EUA sabiam disso. Mais um sinal positivo foi a declaração do secretário de Estado dos EUA, Colin Powell, feita no fim de Outubro em resposta ao apoio prestado pelo Presidente Putin ao candidato republicano. Powell disse que o desenvolvimento dos acontecimentos na Rússia (em particular, a reforma do sistema político) não violam os princípios democráticos e, apesar de alguns pormenores, avançam no sentido correcto.

Mesmo que no próximo ano Powell deixe o cargo de secretário de Estado, é pouco provável que os republicanos revejam a posição por ele declarada. Ela constituirá um factor de contenção nas nossas relações e graças a isso a Rússia e os EUA poderão atravessar plenamente, sem sérias perdas, os primeiros meses do segundo mandato de George Bush, os quais serão os mais perigosos do ponto da vista da radicalização da política externa dos EUA.

Esta radicalização manifestar-se-á, possivelmente, nalgumas outras áreas, mas não nas relações russo-americanas. E neste sentido, a vitória de Bush era preferível para a Rússia do que a vitória do quase desconhecido candidato Kerry. Konstantin Kosatchev Presidente da Comissão de Assuntos Internacionais da Duma de Estado © RIAN

 
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