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Foda-se a burguesia

15.06.2004 | Fonte de informações:

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Não é minha a concepção de “burguesia” em relação à frase acima. Nem mesmo o “foda-se” é meu. Na verdade, poderia ser perfeitamente de Agenor Miranda de Araújo Neto, mais conhecido no Brasil como Cazuza. “Foda-se a burguesia” é a cara de Cazuza.

O que é burguesia, antes que os mais teóricos venham de graça? “É a direita, é a guerra”, definiu em uma letra.

Certamente não é assim que entende a personagem da novela das oito da TV Globo. Representada por Déborah Secco, “Darlene” diz ser “igual a Cazuza”. Por que? “Sou exagerada”.

Tentando desvirtuar completamente a mensagem de um ídolo rebelde da juventude brasileira, a Rede Globo faz mais este desserviço e adere de forma pouco esclarecida à campanha do novo filme de Daniel Filho sobre a vida do poeta.

Não pensem que de mim virá uma crítica sobre o filme. Daniel Filho fez um excepcional trabalho. Não há ressalvas. Por si só, vale a pena.

Estranho, na verdade, é como nos é passado quem foi Cazuza, o que pensava, quais eram seus sonhos, tristezas e alegrias. Um rebelde sem pausa, que não desfrutava da letargia da atual juventude. “Vamos para as ruas”, diziam em seus shows.

Cazuza era a atitude. Cazuza era a revolta contra as injustiças mundanas. Cazuza era a ruptura. Múltiplo, bissexual, livre, ingênuo e sensível. Concordassem ou não. Era a própria encarnação da nova geração, que prometia se impor sobre os ultrapassados generais e os pseudodemocratas que vieram.

Pois é. Apenas prometia.

Após a avalanche conservadora que se observou nos anos 90, com o malfadado neoliberalismo, a maior parte dos jovens de hoje gostam, sim, de “se perder” em festas que não tem fim. Possuem, no entanto, uma diferença essencial: não sabem nem o que não querem.

Esse era o grande barato de parte da juventude rebelde dos anos 80. Não sabiam, por certo, o que queriam. Mas tinham certeza do que não queriam.

E nós? Queremos emprego, casa, família, filhos. Somos como nossos, previram Elis Regina e Renato Russo. Agora, mais do que nunca. Somos, me arrisco, pior do que alguns de nossos pais – valentes e resistentes, alguns não aceitaram o “Estado inventando” que a geração seguinte tratou de desinventar e a direita conseguiu reinventar.

A juventude, é preciso afirmar, está em coma. Honrosos grupos ousam se organizar e tentar criar uma alternativa viável para um futuro mais digno. A ação condiz com o pensamento, que condiz com o sentimento. São paulatinamente tachados de “radicais”, pouco propositivos.

A proposta é essa, porra! Acabar com determinados moralismos que não nos permitem nem escrever palavras que pronunciamos dez, cem ou mil vezes por aí. Palavras que queremos dizer. “Eles não querem que sejamos felizes”, disse Cazuza.

Determinar, de uma vez por todas, que não há mais espaço para hipocrisia e que o sentimento humano, por mais imoral que seja, é o mais belo sentimento que podemos experimentar em vida. Negá-lo é uma grande e irresponsável estupidez.

Enquanto isso, a União Representativa dos Estudantes do Brasil, que possui 4,5 milhões de associados, afirma que “nosso diferencial é o preço, a vantagem dos patrocinadores e o acesso aos projetos desenvolvidos, além das 3.500 empresas conveniadas”. A cara de uma geração indo para o buraco. Sem sonhos, utopias ou ideologia. “Uma piscina cheia de ratos, com idéias que não correspondem aos fatos”.

Esqueça a Política – essa chatice ultrapassada da qual ninguém gosta. Vamos todos nos tornar analfabetos políticos e agir, simplesmente agir, sem saber exatamente para quem estamos desviando nossa pouca energia, em parte suprimida pelas redes de fast-food que nos tornam lesmas ambulantes que só sabem dormir.

“Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais”. (Brecht)

Em 89, Cazuza gravou seu último álbum, "Burguesia". Na música de mesmo nome, explicava quem era os burgueses – “Porcos no chiqueiro são mais dignos do que um burguês” –, denunciava a insensibilidade social – “A burguesia não repara na vendedora de chicletes” – e concluia: “Enquanto houver burguesia, não vai haver poesia”.

Morreu no Rio de Janeiro, em 7 de julho de 1990, com 32 anos de idade e todas as dores do mundo. Teremos nós interiorizado sua mensagem de libertação?

 
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