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O nascimento de um perdedor

14.07.2003 | Fonte de informações:

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Hoje na Terra não há mais a ingenuidade da crença na cegonha que traz o bebê para a casa de um orgulhoso casal. As crianças não crêem mais em estórias da carochinha desse tipo. A precocidade delas é gritante, ao mesmo tempo em que elas sabem que não foi a cegonha que trouxe o seu irmãozinho, sabem também que não foi a garrafa da “dança da garrafa” que fertilizou sua mãe.

Quando alguém acredita em algo ele tem duas opções: acreditar na realidade dos fatos ou no que ele quer acreditar. Não acho prudente deixar os nossos desejos contaminarem a verdade factual, que nos obriga a creditar ou a concluir coisas que muitas vezes não gostaríamos. Como por exemplo, sabemos que a pedofilia existe. Não gostamos de pensar que isso existe e que todas as denúncias que vemos na imprensa fossem ficção...mas não, existem. É uma, das muitas, verdades que estão a cima de nossa vontade de crer. Quem só crê no que quer acreditar, corre o sério risco de perder o contato com a realidade. E a realidade é perversa com quem não a trata com o respeito devido.

Outro dia, ouvi duas senhoras conversando. A primeira lamentava o fato de seu filho não ter passado no vestibular, a outra no afã de consolá-la cedeu espaço a irresponsabilidade ao dizer “Ele passou sim! Só não foi classificado!”. E continuou “mostre a ele que ele passou, que ele é um vencedor!” Ora, esse é um caso clássico de eufemismo auto-enganador para o fracasso. As pessoas acham que, assim como no empacotamento de objetos, só o fato de envolver o fracasso com algodão ou bolinhas de ar, ele deixa de ser fracasso.

Na ficção literária podemos colher grandes verdades, como por exemplo, o “Xangô de Baker Street” e “O homem que matou Getúlio Vargas” de Jô Soares. O humorista misturou personagens do mundo real com outros inteiramente criados pela sua imaginação de uma forma tão bem urdida que fica difícil saber diferenciá-los. O problema é quando a ficção histórica se assume como história. E o leitor, intencionalmente não é avisado que aquela narração que deveria ser fiel tem pinceladas de ficção, como por exemplo, os livros de história impressos durante o regime de exceção em nosso país que costumavam se referir ao golpe militar como “revolução” ou de outros países totalitários pelo mundo.

Há muitos pensadores pela história a fora que defenderam que só era possível construir uma nova sociedade quando as velhas estruturas fossem destruídas ou como na tão citada mitologia de Fênix, um pássaro que morria queimado e renascia de suas próprias cinzas num prazo de quinhentos anos e representava uma nova vida. Essa é a prova que nem sempre é bom ter um amortecedor para as agruras do mundo. Parece chavão, mas o fracasso é um melhor aprendizado que o sucesso.

No competitivo Estados Unidos, o “loser”, isto é, o “perdedor” é praticamente um bicho-papão que assusta não só crianças mas principalmente os adultos. É um insulto grave chamar alguém de loser. Mas perdedor, não é quem perde uma ou outra batalha, isso faz parte da vida de qualquer um, mas quem assume inconscientemente como sua a cultura de perder. Todos àqueles que se auto- enganam com os chavões do tipo “valeu pelo esforço” ou o famoso “o importante é competir”. Sabe-se que os republicanos perderam a Guerra Civil Espanhola. Nela, os anarquistas, aliados dos comunistas, jamais recuaram nas batalhas. Mesmo estando em franca minoria eles não recuavam, preferiam se infiltrar por trás das linhas inimigas para explodir pontes ou atacar comboios fascistas em emboscadas. Com esse ato, eles ganharam muito mais do que se simplesmente tivessem deposto as armas. Teriam morrido do mesmo jeito, mas de forma desonrosa. Com certeza, o significado clássico que se dá ao adjetivo “perdedor” não se aplica a eles.

Problemas começam a ser superados quando admitimos e reconhecemos sua existência e os erros que os cercam. Não é à toa que o tratamento de um dependente nos Alcoólatras Anônimos não começa enquanto ele não levantasse e assume publicamente sua condição de dependente da bebida. Enquanto se está auto-enganando, se está perdendo tempo e gastando uma energia criativa que poderia estar sendo canalizada diretamente para a solução do problema. Há casos célebres de empresários falidos que por orgulho, se esforçam para demostrar publicamente que continuavam ricos. O que só contribui para o aumento das dívidas e deterioração de sua situação financeira. Da mesma forma, há muitos vestibulandos assim...se não mudarem de atitude um dia...jamais passarão pelos bancos de uma boa universidade pública. Assim, nascerá um perdedor.

Adriano COSTA PRAVDA.Ru RIO GRANDE DO NORTE BRASIL

 
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