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FIDEL CASTRO E A REPRESSÃO EM CUBA

13.07.2003 | Fonte de informações:

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Fidel Castro, premiê cubano, é uma das figuras mais controversas da atualidade: alguns o consideram um herói, que transformou Cuba num paraíso de justiça social; outros o vêem como um autocrata sanguinário responsável por uma das mais longas e brutais ditaduras da América Latina. Ambas as visões distorcem a realidade, e são resultado de paixões ideológicas, e não da consideração fria dos fatos. Analisemos alguns desses fatos, principalmente à luz da última pesquisa das Nações Unidas sobre desenvolvimento humano, feita pelo seu Programa para o Desenvolvimento (PNUD), que é o mais confiável índice para medir e comparar o nível de vida e as condições sociais dos 175 países membros da ONU. Ficará claro que, embora Castro não seja tão terrível quanto seus opositores mais extremados afirmam, também não é um exemplo a ser seguido.

Em primeiro lugar, não se pode dizer que Fidel Castro seja um déspota, pois, embora não tenha sido eleito em um sufrágio, ele sem dúvida goza do apoio da maioria da população cubana. Castro é extremamente carismático, e se fossem realizadas eleições livres, secretas e universais em Cuba, muito provavelmente ele ganharia sem dificuldades. Este fato sem dúvida coloca em dificuldades os anti-castristas mais exaltados, que crêem que, se pudessem, todos os cubanos abandonariam seu país.

Mas Cuba tampouco é uma ilha de justiça social cercada pelo oceano de pobreza e disparidade social da América Latina, como seus defensores a pintam. Ninguém pode negar as dificuldades econômicas enfrentadas pelo país socialista: falta de combustível, de alimentos e de remédios, racionamento constante de eletricidade, degradação da situação habitacional, aumento da prostituição. Há pouca disparidade de renda em Cuba, como se observa em países nórdicos, como Suécia ou Noruega, exemplos de justiça social; mas enquanto nestes países houve um aumento igual das condições de vida para todos, em Cuba houve uma diminuição igual: ou seja, um nivelamento por baixo, um estado de pobreza universal. Isto se deve muito pouco ao embargo comercial imposto pelos Estados Unidos: afinal, outras grandes potências econômicas, como países da União Européia e o Canadá, têm pouca ou mesmo nenhuma restrição ao comércio com Cuba. As causas da crise são a economia planificada, que torna a economia ineficiente e impede um crescimento geral da produção, e o fim da ajuda soviética, que vendia combustível e produtos industriais para Cuba a um preço baixíssimo.

Além disso, no Índice de Desenvolvimento Humano do PNUD, que mede vários fatores econômicos e sociais, como educação, saúde, desemprego e renda, vemos um fato curioso: a Argentina, apontada por muitos como exemplo de fracasso e empobrecimento, é o país com o melhor índice da América Latina, ocupando a 34a posição dentre 175 países (antes da crise, a posição argentina era ainda melhor, 30a), muito à frente do Brasil (65o), e mesmo de Cuba, que está no 52o lugar. Aliás, Cuba fica para trás também do Uruguai e do Chile, e pouco à frente do México, dentre os países da América Latina.

O sistema educacional cubano, por outro lado, é sem dúvida excelente, e talvez a maior conquista dos países socialistas seja justamente a educação de ótima qualidade e de acesso universal. Porém, segundo o PNUD, também nisso Cuba fica ligeiramente atrás da Argentina, no percentual de alfabetização de adultos (96,9% no país platino, contra 96,8% na ilha caribenha). Está bem à frente do Brasil (que tem apenas 87,3% de sua população adulta alfabetizada), mas não é exatamente líder em educação na América Latina; no máximo, empata com a Argentina.

E o mais importante, não há como negar que há repressão política em Cuba, que toda oposição a Fidel Castro é eliminada ou pelo menos silenciada, como ficou claro recentemente, com a execução de alguns cubanos que tentaram seqüestrar um barco para fugir para os EUA. Isto sem dúvida constitui um crime, mas condená-los à morte não é abuso de força? Havia necessidade de uma pena tão dura? E o pior, a prisão de vários jornalistas e professores, que se opunham ao regime e que não cometeram nenhum crime, exceto o de pensamento. Há duas opções para os cubanos: ou aceitam a ideologia marxista, ou se calam. É muito fácil levantar críticas ao sistema democrático existente nos demais países latino-americanos, e essa é exatamente uma de suas forças: a liberdade de pensamento e de expressão vale inclusive para aqueles que são contrários a esta liberdade. É estranho que muitos jornalistas, professores, religiosos, escritores, sociólogos, filósofos, dentre outros que dependem enormemente da liberdade de pensamento e de expressão, sejam coniventes com o único regime da América Latina que ainda não permite o exercício de tal direito, e não adotem uma postura mais crítica. Criticavam, e com plena razão, as ditaduras militares que infestaram este continente, nas décadas de 60 e 70; porém, quando Castro faz o mesmo, ou seja, reprime, cala, prende e mata, poucos levantam a voz contra ele, e são logo taxados de "reacionários" quando o fazem.

Fidel Castro até conseguiu algumas conquistas importantes para seu país, principalmente a melhoria da educação e da saúde. Porém, tentar justificar com essas conquistas um regime que não permite oposição nem liberdade de pensamento e de opinião, é algo que simplesmente não faz sentido: afinal, a democracia não é oposta ao desenvolvimento social e econômico. Muito pelo contrário, os países que lideram o Índice de Desenvolvimento Humano são todos democráticos: Noruega, Islândia, Suécia, Austrália e Holanda são os cinco primeiros, e todos são caracterizados por uma longa tradição de sufrágio universal, estabilidade política, liberdade de pensamento e de opinião e igualdade perante a lei. Na América Latina, muitos intelectuais aparentemente enxergam apenas duas possibilidades mutuamente excludentes: ou democracia, ou justiça social. O que muitos não percebem é que podemos muito bem ter as duas, como aqueles cinco países de melhor desenvolvimento social, e não é necessário escolher entre uma ou outra. Fidel Castro não é um exemplo para a América Latina, de alguém que faz um grande bem a seu povo; os anônimos primeiros-ministros da Noruega, da Islândia e da Suécia, embora quase ninguém saiba seus nomes, são sem dúvida líderes políticos muito superiores. Conquanto não tenham o carisma e o caráter mítico de Castro, levaram seus cidadãos a terem um nível de vida muito melhor do que o existente em Cuba, sem reprimi-los ou cerceá-los em seus direitos. Este sim é um exemplo a ser seguido. Carlo MOIANA Pravda. Ru MG Brasil

 
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