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Números, pessoas e excrementos

12.06.2004 | Fonte de informações:

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Segundo o IBGE, nasceram 8.859,7 pessoas entre a última vez que o seu relógio marcou meia-noite e a próxima vez que ele marcar meia-noite. Em ponto. Esta fato fará com que 2.361 mães fiquem mais felizes. Ou mais tristes, dependendo de dois fatores. Um, quantos filhos ela teve. Dois, se eles poderão arcar com a dívida que possuem.

Estas 8.859,7 pessoas que nasceram e deixaram 2.361 mães mais felizes (ou mais tristes) já estão devendo, cada uma, 5.129 reais e 77 centavos aos credores, por causa da nossa dívida líquida (ou seja, quanto o Estado deve, menos aquilo que ele deve para si mesmo).

Se estas mesmas 8.859,7 pessoas tivessem nascido em 1994, suas 2.361 mães teriam um motivo a mais para comemorar (ou um motivo a menos para se entristecer). A festa seria devido ao fato de que, quando o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso tomou posse — em primeiro de janeiro de 1995 — os 8.859,7 nascidos naquele dia deviam R$ 1.000. Uma economia de R$ 4.129 — ou 702,21 fraldas a mais.

O seu bebê poderia fazer os devidos excrementos por mais de três meses, sem maiores inconvenientes.

As 8.859,7 pessoas que nasceram no dia primeiro de janeiro de 1995, apesar de já terem, neste momento, 9 anos, ainda não conseguiram entender como que 33.370.739 pessoas ainda votaram no candidato do governo que aumentou a dívida deles em R$ 4.129 — ou 702,21 fraldas. E ainda por cima podendo fazer os devidos excrementos por oito anos, sem maiores inconvenientes.

Uma das explicações para tal acontecimento é o fato de que estas 8.859,7 pessoas que nasceram no dia primeiro de janeiro de 1995 e que, portanto, deveriam estar na terceira série do Ensino Fundamental, ainda não conseguiram nem ao menos terminar a primeira série.

Na Bahia, estado governado há mais de 504 anos pelas oligarquias locais, a média de idade das crianças que estão na primeira série do Ensino Fundamental é de 12 anos. A maior (ou seja, a pior) do Brasil.

É compreensível que as 8.859,7 pessoas que nasceram no dia primeiro de janeiro de 1995 e que têm, portanto, 9 anos não consigam entender porque 33.370.739 pessoas ainda votaram no candidato do governo em 2002. Foi falta de estudo.

Por falar em 9, foi exatamente esse o número de votos que fizeram o Supremo Tribunal Federal arquivar a denúncia criminal contra o senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) no caso dos grampos telefônicos da Secretaria de Segurança Pública da Bahia. Magalhães é a principal liderança política do Estado que tem a pior média nacional de idade em relação às crianças que estão na primeira série do Ensino Fundamental.

Muito provavelmente por causa da lentidão de raciocínio, estas mesmas pessoas também não entendem como Magalhães foi votado 2.995.559 vezes, sendo a maior parte dos votos (461.811) oriundos da capital, Salvador, onde dizem haver mais informação.

O candidato do governo que aumentou a dívida deles em R$ 4.129 — ou 702,21 fraldas — também não ficou atrás: foi votado, só no Estado, 1.937.780 vezes, mesmo depois de todo o inconveniente e oito anos de excrementos que proporcionou ao povo baiano e brasileiro.

O tamanho da nossa dívida nunca ficou bem claro na nossa cabeça. Para facilitar a conta, vamos a calcular em fraldas.

Usando como índice o padrão 'Lojas Americanas', onde a fralda mais barata custa 5 reais e 88 centavos, podemos deduzir que, em 1995, cada brasileiro devia 170 fraldas aos credores nacionais e internacionais. Por mais que eles chorassem, esta era a quantia correta a ser paga.

No entanto, a série de excrementos determinada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, sem maiores inconvenientes e com o apoio de seu ex-aliado Antonio Carlos Magalhães, fez que com que, em fevereiro de 2004, cada brasileiro visse sua dívida pular de 170 para 872,40 fraldas — um incremento de mais de 700 fraldas em 10 anos e um excremento incalculável.

Só no governo Lula nossa dívida aumentou outras 45,7 fraldas por brasileiro, afastando de vez a dúvida do mercado em relação à continuidade da política de incremento do excremento em bases nacionais.

Apesar de todo o esforço de cálculos rigorosos, estes dados não chegarão a 24 milhões de pessoas que não sabem ler (conhecidos como 'analfabetos'), além de outras 95 milhões que não sabem interpretar (ou 'analfabetos funcionais').

Adicionando-se que apenas 14 milhões, 856 mil e 157 pessoas possuem acesso à Internet, as previsões mais otimistas nos mostram que, no máximo, 14 milhões, 856 mil e 157 pessoas lerão este texto. O total de leitores que o entenderão não passará de 59 milhões de pessoas, se você for a pessoa mais otimista do mundo.

O que não seria um número tão ruim, já que o último presidente eleito na República Federativa do Brasil precisou de 52,79 milhões de pessoas para chegar ao cargo.

Tendo colocado um homem do povo no poder, o brasileiro — incluindo o baiano — não consegue entender porque o número de fraldas "per capita" é cada vez maior. Muitos dizem corretamente: "Agora que o excremento foi feito, não adiante chorar". http://www.consciencia.net/2004/mes/06/barreto-excrementos.html

Gustavo Barreto é editor da revista Consciência.Net (www.consciencia.net), colaborador do Núcleo Piratininga de Comunicação (www.piratininga.org.br), estudante de Comunicação Social da UFRJ e bolsista do Programa Institucional de Bolsa de Inciação Científica (PIBIC) pela ECO/UFRJ

 
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