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Posfácio ao encontro Putin-Bush em Bratislava

07.03.2005 | Fonte de informações:

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Para nós isto já é um axioma, ao qual se subordina a estratégia política e a nossa atitude para com todos os acontecimentos. No entanto, ainda não reflectimos o suficiente sobre o que é a actual economia mundial. A economia mundial não tem nada a ver com os debates incessantes em torno da questão de saber qual o melhor modelo de desenvolvimento económico - o neo-liberal ou o keynesiana. A actual economia mundial é uma verdadeira selva na qual se desenvolve a luta por cada dólar e por cada barril de petróleo.

Na Rússia de hoje continuamos a raciocinar em termos quase padronizados em torno da unidade do mercado e a considerar que o facto de pertencer ao modelo liberal de desenvolvimento irá assegurar à Rússia a prosperidade ou um lugar digno ao Sol. Nada mais errado. Já está na hora de vermos por detrás dos processos políticos o real conteúdo económico.

Por exemplo, já foi dito mais de uma vez que a cimeira em Bratislava foi um evento crucial realizado num ambiente de propaganda anti-russa sem precedentes. Houve mesmo autênticas histerias. Não faltaram hipóteses para explicar porque razão a situação se tornou tão acesa, mas ninguém pensou sequer que talvez por trás de tudo isso se escondessem os interesses dos maiores jogadores mundiais. É uma pena.

No pano de fundo da generalizada idiotice noticiosa sobre as ogivas nucleares que teriam desaparecido algures na Sibéria, é de assinalar o artigo do respeitado The Wall Street Journal. O artigo indica como explicação para todos os últimos ziguezagues do caso YUKOS e a participação activa do Dresdner Bank no processo judicial a amizade entre o Presidente da Rússia, Vladimir Putin, e o chefe da representação de Moscovo do mencionado banco, Mattias Warnige, o qual, de acordo com vários peritos, tinha sido agente do Stasi, serviço secreto na RDA. Não vou analisar a argumentação do artigo em detalhes, vou apenas assinalar que, levando em conta a implacável "caça às bruxas" que imperava na Alemanha após a reunificação é muito duvidoso que um agente da Stasi (ou um indivíduo suspeito) pudesse obter um tal posto num dos maiores bancos. Esta categoria de pessoas ficam desempregados ao longo de anos e conseguem com muitas dificuldades a reforma. Para tal temos que admitir que Warnige, quando jovem, contratou metade da Alemanha, iniciando esta actividade ainda criança. De oura maneira, como teria ele podido a partir de um posto bem modesto fazer com que o banco investisse mil milhões de dólares na Rússia?

Ao meu ver a razão é outra. Simplesmente o autor não quer reconhecer que enquanto nos EUA lamentavam o destino trágico da YUKOS, os empresários alemães, considerados nos EUA pouco engenhosos, acordaram com Moscovo a compra do maior activo petrolífero.

Atrevo-me fazer mais uma pressuposição. Nos EUA já ninguém pretende salvar a YUKOS. A pessoa de Mikhail Khodorkovski propriamente dita não interessa aos americanos, nem suscita qualquer compaixão se ainda levarmos em conta o seu papel no financiamento do Partido Comunista da Federação Russa. Mas os activos da YUKOS já interessam muito aos americanos, embora seja mais que óbvio que ninguém quisesse desembolsar 15 ou 20 mil milhões de dólares para a compra da Yuganskneftegaz. Uma coisa é o preço de avaliação da empresa e outra é o seu preço real, ou seja, a verba que um comprador está pronto a pagar, claro se reconhecermos as regras da economia de mercado. É muito duvidoso que alguém nos EUA se recusasse a comprar a Yuganskneftegaz se tivesse sido proposto pela mesma um preço incrivelmente baixo. À luz disso, a ira do periódico americano tem uma clara motivação económica. Gostaria de saber quem é que entre as companhias americanas quis de facto comprar a Yuganskneftegaz. Não estará o seu quartel general situado em Houston, onde os advogados da YUKOS, mais parecidos com os profissionais de "marketing", procuram lutar com a justiça russa.

Claro que isto é apenas uma hipótese, mas encaixa-se muito bem na lógica de "conspiração" que nos é apresentada pelo respeitado periódico do mundo de negócios americano.

Existem razões mais profundas para a indignação por parte do empresariado americano. De facto, se a transacção no valor de mil milhões de dólares com a participação do Dresdener Bank e Gazprom tivesse sido realizada, a estabilidade energética a Alemanha teria com certeza aumentado significativamente, enquanto a Polónia teria perdido o papel que lhe foi atribuído pelos EUA de regulador do mercado energético dos países da União Europeia, o que poderia mudar radicalmente a correlação de forças, por enquanto bastante comportável para os EUA.

A parte disso, os Estados Unidos compreendem perfeitamente que depois da ratificação do Protocolo de Kyoto, a Rússia se viu perante a limitação da sua soberania económica interna. Digam o que digam, mas doravante o crescimento económico da Rússia passa a ser regulado pelos países europeus e utilizando as tecnologias europeias para a redução da emissão dos gases de efeito estufa. Ora, os receios dos EUA de que os europeus - e, sobretudo, a Alemanha dirigida por Gerhard Schroeder, tomem a iniciativa e se integrem no processo de crescimento económico russo antes dos Estados Unidos, parecem bastante justificados. E este desgosto será ainda maior tendo em conta que um barril de petróleo anda à roda de 50 dólares. Parece útil assinalar ainda o facto de a iniciativa privada norte-americana mobilizar, sem hesitar, as possibilidades do Estado para ver defendidos os seus interesses, convertendo um assunto meramente económico em político. Ao Presidente russo incriminam até aquilo que se considera normal para um político em todo o mundo - isto é, o saber construir relações de confiança com o mundo empresarial no quadro da lei. A base de todo o sistema empresarial norte-americano é precisamente esse. É um empresariado assente na confiança e num lobby relativamente transparente, embora nem sempre. É justamente assim que está estruturado o negócio de investimento nas companhias Carlyle e Berkshire Hathaway. E sem falar ainda nas relações de longa data entre os dirigentes da maior companhia de investimento dos EUA, Kohlberg, Kravis, Roberts, e a família de Bush. Acontece que as relações entre o Presidente do maior país do mundo e a maior estrutura de investimento do mundo torna-se benéficas para o desenvolvimento da economia norte-americana. Diga-se de passagem que o caso do Dresdner Bank atesta com toda a evidência o elevado nível de atracção da Rússia para os investidores, o que contradiz o que costuma ser afirmado nos mass media europeus e americanos.

Para concluir, permitam-me dispensar mais um conselho aos nossos parceiros norte-americanos. Nós teríamos todo o prazer de ver nos Estados Unidos um parceiro seguro na luta antiterrorista e antifascista. As perspectivas neste sentido são colossais se forem abordadas com inteligência e com uma visão de futuro. Acreditem que na Rússia não faltam companhias petrolíferas com futuro nebuloso que os investidores norte-americanos poderão comprar.

E mais conselho: substituam, por favor, os autores das campanhas publicitárias e propagandísticas. Eles não correspondem ao novo nível da parceria russo-americana.

Dmitri Estafiev politólogo RIA "Novosti"

 
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