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"É disso que estávamos falando"

06.10.2004 | Fonte de informações:

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Como tem gente que fala de tudo, de cocô a bomba atômica — como costuma dizer o Jô Soares —, não faltam opiniões. Paradão no seu canto, você espera a hora certa e opina sobre o tema, com frases curtas e aquela informação que faltava. Bingo! Vem todo mundo com o famoso "É disso que estávamos falando".

Isso aconteceu recentemente na TV. O assunto: uso político da religião. Funciona assim: tem gente que tem ódio dos candidatos que fazem este uso — materializado na figura de Marcelo Crivella, por exemplo, no Rio de Janeiro. Outros apóiam a prática, sem restrições. Na verdade, não há debate. Até porque estes personagens não se encontram. Estes, na cabeça coletiva carioca, estão na igreja rezando, aqueles no bar bebendo. Grosso modo, é mais ou menos assim.

Para os maniqueístas de plantão, informo que não se trata de defender o senador Crivella. Mas foi Gandhi quem lembrou: afirmar que política e religião não se misturam é não entender nem de política nem de religião.

É fácil acusar Crivella, mas difícil entender porque ele está errado. Cesar Maia, o laico, reformou diversas igrejas católicas, deu um cheque de R$ 4 milhões para o cardeal e reformou uma mesquita por R$ 733 mil. E quem diz que ele mistura política e religião? Ninguém. Mas Cesar, que é esperto, não fala sobre o assunto. Por um silogismo falso, chega-se a uma conclusão igualmente falsa. Todavia, não é a política menor o tema deste texto.

A religião tem, antes de tudo, uma função nobre na nossa sociedade e, de fato, o uso atual que se faz dela não é lá das melhores. Mas é no mínimo ignorância, falta de vontade ou desconhecimento histórico dizer que a religião é apenas uma forma de dominar pessoas sem grande conhecimento intelectual, ou coisa parecida. É simplório, ingênuo. Ou má-fé mesmo.

Acabar com esse preconceito contra os seres humanos que buscam uma dimensão mística e ao mesmo tempo fazem política institucional é o primeiro passo para enxergar o que está por trás dos oportunistas religiosos que são indignos de nosso voto. E uma forma de identificar os que, por outro lado, nos representam com sabedoria nos parlamentos.

Quando, no referido debate, alguém ponderou mais ou menos desta forma, não pouparam elogios, seguidos pelo inevitável "É disso que estávamos falando".

Gustavo Barreto é editor da revista Consciência.Net (www.consciencia.net), colaborador do Núcleo Piratininga de Comunicação (www.piratininga.org.br), estudante de Comunicação Social da UFRJ e bolsista do Programa Institucional de Bolsa de Inciação Científica (PIBIC) pela ECO/UFRJ

 
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