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UNIÃO EUROPEIA ALARGADA FAZ LEMBRAR A URSS

05.05.2004 | Fonte de informações:

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Muitos russos experimentam hoje uma sensação de irracionalidade em relação ao que se passa hoje na Europa. A 1 de Maio, data assinalada desde os tempos soviéticos como Dia dos Trabalhadores, bem perto das fronteiras russas teremos uma gigantesca união de 25 países com 450 milhões de habitantes.

Sob o acompanhamento dos fogos de artifício e num mar de bandeiras vermelhas a Rússia como que vê aproximar-se um fantasma dum passado recente. Ou seja, o fantasma de algo parecido com a URSS, desfeita há uma década e meia, anatemizada pelos seus muitos erros, mas ainda tão querida aos corações dos russos. Não é por acaso que a união de 25 países já é chamada entre os russos EURSS.

Pelo prisma da lógica formal, podia-se supor que o alargamento da UE devia causar tristeza e preocupação aos cidadãos russos, raciocinando assim: "Temos um novo muro que nos separa da Europa próspera. Estamos de novo atrasados em relação aos processos mundiais. Estamos isolados. O nosso destino eterno é estar na comunidade com a Ucrânia e a Bielorrússia"...

Não, nada disso. As sondagens dos influentes centros de estudo de opinião mostram que a maior parte da população não considera os antigos países socialistas e antigas repúblicas soviéticas aos quais a União Europeia abriu as suas portas como algo verdadeiramente europeu. Pois sim, pelo mapa geográfico eles são europeus, mas uns europeus não muito autênticos. Não são como a França, a Alemanha, a Grã-Bretanha e outros países que a consciência das pessoas associa à cultura europeia tal como foi descrita por Tolstoi e Turguenev.

Talvez seja por isso que a opinião social russa, hoje tão amplamente comentada nos mass media, não tem inveja ou ciúmes em relação aos novos membros da Europa única. Prevalece mais o cepticismo e ânimos próximos da lamentação.

Os eslavófilos nacionais são mais propensos a ter piedade em relação aos novos países da UE que, provavelmente, terão de sacrificar em parte a sua independência para resolver as muitas tarefas nacionais. Sugerem a analogia com a URSS e desenham um panorama sombrio e lamentável das viagens frequentes a Bruxelas para receber ali directrizes - quer dizer, um processo bastante conhecido nos tempos da União Soviética quando todos iam a Moscovo para receber ordens. A burocracia da UE apresenta-se nestes prognósticos como uma espécie do Comité Central do Partido Comunista da União Soviética.

Também é de lamentar essa mesma burocracia, cujos representantes mais perspicazes já reconhecem: o grupo de dez países que em breve obtém o estatuto de membros da UE está longe de ser homogéneo. E este facto virá a ser mais um factor de incerteza no processo de tomada das decisões pelos órgãos dirigentes da União Europeia. Os debates serão dez vezes mais acalorados e complicados e os seus resultados dez vezes mais imprevisíveis. Aumenta portanto em flecha a probabilidade de paralisia das iniciativas mais controversas, como por exemplo a aprovação da Constituição Europeia.

Outro problema a ser enfrentado pela Europa alargada tem a ver com a combinação de dois números: a população irá aumentar 20 por cento, ao passo que o volume da economia somente 5 por cento. Deste modo, esta Europa maior será mais pobre per capita.

Muitos russos que acompanham o desenvolvimento da política mundial já repararam em que em todos os países que se candidatam à UE houve referendos e plebiscitos, ao passo que ninguém perguntou o que pensa sobre isso a população dos países veteranos da União; ninguém se interessou se os cidadãos dos países fundadores querem partilhar o pão e casa com forasteiros. Parece que muitos diriam "não".

O abismo no bem-estar dos novos e velhos membros também promete tornar-se uma dor de cabeça e um fardo pesado para a Europa unificada durante ainda muitos anos. Acontece que o alargamento da UE é um ganho para uns e prejuízo relativo para outros. O que obterá a Europa com tudo isto é despedir-se da ideia de alcançar a América e continuar atrasada em relação ao seu rival económico de sempre.

Dai pode-se supor com bastante dose de certeza qual será o pomo de discórdia em Bruxelas após 1 de Maio. Evidentemente, é o orçamento da UE. Os novos países vão querer aumentar as rubricas orçamentais na esperança de obter rios de dinheiro para projectos de que ninguém tem uma ideia clara. Para os novos membros seria uma compensação justa por aquilo que eles actualmente representam na UE: uma fonte de mão-de-obra barata, de produtos baratos e, ao mesmo tempo, de mercados para as mercadorias e serviços europeus.

E Bruxelas estará pronta a aceitar esta troca? É duvidoso.

Diga-se de passagem, os altos responsáveis da União vão ter pena de não possuírem um instrumento tão poderoso como era na União Soviética a força dirigente e orientadora do PCUS, um instrumento omnipotente. E dum modo geral carecem de novos mecanismos adaptados à gestão numa UE alargada.

O fantasma da URSS vem também à mente ao pensarmos no contágio ideológico que passará a existir na Europa após o alargamento. As manifestações anti-semitas, tão frequentes actualmente em França, vão parecer uma brincadeira em comparação com o anti-semitismo praticado em alguns dos novos países.

Até agora a União Europeia desconhecia a escala de discriminação das minorias étnicas que existe, digamos, na Letónia e Estónia em relação à população de expressão russa. Essa tal "amizade dos povos" que era o slogan na URSS deixou uma herança pouco agradável. E esta experiência alguns países querem implantar hoje na Europa unificada.

Por feliz acaso, em Bruxelas estão cientes disso. A participação na União Europeia será uma firme garantia da defesa das minorias étnicas - diz o acordo assinado quarta-feira passada entre a Rússia e a UE no Luxemburgo.

Para os russos é dolorosa a situação humilhante em que se encontram os seus compatriotas nestes dois países bálticos. E por isso estão satisfeitos por esta questão não se ter resumido ao presente acordo. O chefe da diplomacia russa, Serguei Lavrov, comunicou que a União Europeia prometeu apresentar à Rússia um plano de reintegração social para os novos países. Estas são medidas concretas e reais e, por conseguinte, dinheiro vivo para o apoio às minorias.

Já é outra questão saber se Riga e Tallinn irão ter suficiente vontade política para fazer suas as preocupações de Moscovo e da UE. Graças ao acordo firmado no Luxemburgo, para a Rússia os prejuízos decorrentes do alargamento da União resultaram muito menores do que se supunha. A Europa unificada anuiu à diminuição significativa das tarifas de exportação, tornou mais moderadas as medidas antidumping contra as mercadorias russas, aumentou as quotas de importação do aço russo, manteve em vigor os contratos de fornecimento de combustíveis nucleares aos novos membros da UE.

Para os russos é um generoso gesto de boa vontade da parte da nova formação gigantesca, tão parecida com a União Soviética. A propósito, não os surpreende muito, já que na URSS também havia bastante coisas boas.

Vladimir Simonov observador político da RIA "Novosti" © RIAN

 
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