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Sistemas antimísseis americanos na Europa ameaçam a própria Europa

02.11.2004 | Fonte de informações:

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Lembre-se que a edição comunicava que em Maio último o presidente dos Estados Unidos, George Bush, obtivera o "consentimento secreto" do primeiro-ministro Tony Blair para a instalação na Grã-Bretanha, na base aérea de Fylingdales (Yorkshire do Norte), dos antimísseis americanos PLV/EKV. Estes mísseis irão integrar o Sistema Nacional ABM dos Estados Unidos, tornando-se um dos seus elementos instalados fora do território norte-americano.

Embora, como ressaltou o próprio Independent, nem Tony Blair, nem o ministro da Defesa do Reino Unido, Geoff Hoon, tivessem comentado esta informação, o Departamento de Informação e Imprensa do MNE da Rússia não deixou de reagir. "Não dispomos de informações oficiais sobre o assunto, - diz-se no comentário do departamento para a política externa da Rússia. - Mas se tal decisão conjunta dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha de facto teve lugar, ela representaria um passo alarmante na escalada de desdobramento do sistema ABM dos Estados Unidos".

Uma reacção ainda mais dura à publicação teve o vice-presidente da Academia de Problemas Geopolíticos, coronel-general Leonid Ivachov, conhecido no Ocidente como crítico da política dos Estados Unidos e NATO. O general declarou a agências noticiosas que "cercando a Rússia com o sistema ABM, os Estados Unidos não perseguem tanto o objectivo de, em caso de guerra, abater no espaço aéreo da Rússia os mísseis russos lançados contra os Estados Unidos, quanto aspiram a neutralizar a capacidade do nosso país de desferir um golpe de resposta". Tal, na opinião de Ivachov, criará a Washington as condições para impor a sua vontade.

As personalidades oficiais no Ministério da Defesa da Rússia não quiseram expressar a sua opinião sobre esta publicação. Na véspera das eleições do presidente dos Estados Unidos, qualquer comentário sobre a nova iniciativa do Pentágono pode ser qualificado por Washington como uma tentativa de influenciar os resultados da expressão da vontade do povo norte-americano e de apoiar um ou outro candidato, o que não fez nem faz parte dos planos do Kremlin. Mas em conversas não oficiais, os generais russos, tal como Leonid Ivachov, não escondem a sua preocupação com as intenções dos Estados Unidos de instalar os seus sistemas antimísseis e radares do Sistema do Aviso de Ataques de Mísseis perto das fronteiras da Rússia.

Embora os representantes da Administração norte-americana continuem a negar que estes preparativos sejam orientados contra Moscovo e contra as suas forças estratégicas de contenção e expliquem os planos de instalação de elementos de ABM na Europa pela crescente ameaça por parte do Irão e Coreia do Norte, para os especialistas é evidente: Teerão e Pyongyang não têm nada a ver com isso. Estes países não têm nem terão nos próximos 40-50 anos mísseis capazes de ultrapassar tal distância - desde a Península da Coreia ou do Planalto do Irão até ao continente americano.

O problema é outro, explica Vladimir Belous, conhecido perito russo em armamentos nucleares e mísseis, professor da Academia das Ciências Militares e major-general na reserva. Os especialistas militares dos Estados Unidos têm a certeza de que o principal momento de qualquer variante do sistema ABM nacional são a intercepção e destruição dos mísseis em fase de lançamento no sector activo da sua trajectória e no espaço aéreo do potencial inimigo. É mais fácil interceptar com os meios de reconhecimento espaciais e terrestres o míssil estratégico no momento do seu lançamento e destrui-lo no sector ascendente da trajectória enquanto ele não atingir a velocidade supersónica. Estes "sectores ascendentes da trajectória" para os mísseis russos lançados a partir de submarinos atómicos são as zonas por cima do Atlântico Norte, mares de Barents e Branco e a região de Arkhanguelsk em que se encontra a base espacial de ensaio de Plisetsk.

A julgar pela imprensa ocidental, é nomeadamente para estas zonas que estão orientadas as estações de radares do Sistema de Aviso de Ataques de Mísseis instaladas na Groenlândia e Grã-Bretanha, Noruega, Lituânia e Estónia. Os especialistas russos consideram que os antimísseis que o Pentágono pretende instalar na base da Força Aérea da Grã-Bretanha em Fylingdales, assim como na Polónia e República Checa terão por missão interceptar os mísseis lançados daquelas zonas. A propósito, estes planos dos Estados Unidos eram conhecidos quase um ano antes da publicação no Independent.

"Deste modo, - diz-se no comentário do Departamento de Informação e Imprensa do MNE da Rússia, - pode-se falar da criação de duas novas bases antimísseis fora do território nacional dos Estados Unidos que, devido à sua situação geográfica podem ameaçar o potencial de contenção nuclear da Rússia". Além disso, no comunicado do MNE da Rússia diz-se que "a parte americana assevera que o sistema nacional ABM, que está a ser criado nos EUA, em conjunto com as suas bases estrangeiras não está orientado contra a Rússia. Contudo, ainda não recebemos uma resposta à nossa pergunta de como será garantida esta "não orientação". E enquanto não houver tal resposta, a parte russa não pode deixar de considerar a existência da eventual ameaça à segurança da Rússia".

É bem claro de que maneira os antimísseis americanos ameaçam a segurança nacional. Com as conclusões do MNE concordam o general Ivachov e muitos outros peritos militares questionados pela RIA "Novosti". Embora, nas suas palavras, as Tropas de Mísseis Estratégicos nacionais tenham muitas possibilidades de não admitir a intercepção e destruição dos seus mísseis por cima do seu próprio território.

O território da Rússia é demasiado grande para, por exemplo, os mísseis PLV/EKV poderem interceptar um "Topol-M" lançado na região de Tcheliabinsk em direcção ao Oceano Glacial Árctico. Tal "intercepção" tampouco terá efeito no caso de mísseis lançados de um submarino que navegue debaixo dos gelos do Pólo Norte. O estado actual do escudo nuclear e de mísseis da Rússia, apesar de todos os problemas que ele enfrenta, garante um golpe de retaliação demolidor, se este for necessário em qualquer altura. Esperamos, porém, que isso não aconteça. E, sem dúvida, o Kremlin, como afirma o MNE da Rússia, "tomará medidas adequadas para garantir a sua segurança".

Preocupa-nos outra questão. Os dirigentes e a opinião pública dos países em que o Pentágono pretende instalar elementos do seu sistema ABM devem compreender claramente que, cedendo o seu território para a instalação de radares alheios do sistema de aviso de ataques de mísseis e a construção de poços para sistemas antimísseis estrangeiros, eles expõem os seus territórios a um sério perigo militar. As leis de qualquer combate e, tanto mais, de uma guerra de mísseis exigem desferir o primeiro golpe contra os redutos de protecção e não para a profundidade da defesa. Só superando e esmagando-os, é possível avançar para a frente, assestando outros golpes contra os centros de comunicação e direcção, estados-maiores inimigos, arsenais e bases.

Os mísseis alheios no seu território, não importa a que classe pertençam, não reforçam a sua própria segurança, mas, pelo contrário, começam a ameaçá-la directamente. Por outras palavras, o país, queira ou não queira, "inscreve" nos planos de voos ou, simplesmente, na mira dos estrategas alheios as coordenadas da sua própria casa. Não tenho a certeza de que tal seja necessário para a tranquilidade dos cidadãos britânicos ou polacos.

Viktor Litovkin observador militar RIA "Novosti"

 
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