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Lénine e o Comunismo hoje

02.05.2005 | Fonte de informações:

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Fez bem o camarada Domingos Abrantes, dirigente do Partido Comunista Português, em evocar o 135º aniversário de Lénine.

É certo que a sua evocação parece quase que por inteiro copiada de um discurso de Konstantin Tchernenko, efémero líder do PC da União Soviética que atencedeu M. Gorbatchov, em especial na incoerência com que fala acerca da democracia interna do seu partido. Mas tem o mérito de, à sua maneira, chamar um pouco a atenção para a figura de Lénine e a importância do seu legado político. Por outro lado, é reveladora de problemas que o comunismo, enquanto movimento e projecto político, enfrenta nos dias de hoje.

Lénine é, efectivamente, uma figura incontornável da história do movimento comunista. Cuja obra, com particular destaque para a Revolução de Outubro, é fundamental conhecer e compreender, sem receio de encarar aspectos seus menos louváveis. Mesmo que, como dizia nos anos oitenta o então líder do PC Italiano, Enrico Berlinguer, a força propulsora dessa revolução já se tenha exaurido.

É que, em grande medida:

a) foi a partir daí, de Lénine, da Revolução de Outubro e do regime a que sucedeu a esta, que se formaram os partidos comunistas e principais características destes;

b) foi a partir daí que surgiu aquela que, por muito que tenha falhado, foi até hoje a mais importante experiência de uma tentativa prática de construção do socialismo, de concretização do ideal comunista;

c) foi a partir dessa origem genética e da sua degeneração, que surgiu a profunda crise que o movimento comunista ainda hoje enfrenta, e que ficou evidenciada com o descalabro dos regimes da União Soviética e seus satélites por volta de 1990.

Para abrir novas perspectivas ao comunismo é fundamental aprender com os acertos e os erros de Lénine, da sua obra e dos seus sucedâneos. Com a perspectiva do materialismo dialéctico perante a história e suas contradições - na senda de Karl Marx. Não como um sacristão diante da pureza de um santo.

O discurso do camarada Domingos Abrantes é bem revelador das dificuldades de se ser comunista hoje. Tomo a liberdade de lhe fazer o seguinte resumo: Um dia há de cair do céu um novo Outubro. Até lá o mais importante é o partido.

Isto é um discurso de quem desistiu de ser comunista, de quem desistiu de pelo menos tentar desenvolver uma efectiva acção transformadora da sociedade. É que a verdadeira revolução nunca será um sonho etéreo ou uma espécie de dia do juízo final, mas uma construção que começa no aqui, no hoje, no real – feita de momentos e métodos ora propriamente revolucionários, ora assumidamente reformistas.

É certo que é fundamental um instrumento de unidade, organização e acção, sob a forma ou não de partido. Mas não pode ser isso o mais importante para um comunista. Porque não é um fim em si mesmo, mas um instrumento. Substituível portanto. E como disse o antigo líder carismático do PCP, Álvaro Cunhal, “onde quer que sejam liquidados partidos comunistas existentes, os trabalhadores e os povos acabarão por criá-los de novo, com esses ou com outro nome, mas com os mesmo objectivos fundamentais”.

O mais importante para um comunista é agir para concretizar o seu ideal de transformar a sociedade capitalista numa sociedade de “liberdade igualitária” - como Luís Sá, falecido dirigente renovador do PCP, apreciava definir o comunismo.

Nada a ver com a preservação de uma igreja à espera do dia do juízo final!

*activista do Movimento de Renovação Comunista (de Portugal)

 
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