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Quais as causas e consequências da dissolução da URSS?

02.05.2003 | Fonte de informações:

Pravda.ru

 

Caro Helder, Mais uma vez, é um prazer de o ver aqui e respondo com muito interesse à sua pergunta.

A principal causa da dissolução da URSS foi porque já tinha atingido os seus objectivos, nomeadamente o acto de trazer um país e sociedade medieval para a primeira linha de desenvolvimento nas áreas de ciência, tecnologia, progresso social e educação, o que deixa qualquer cidadão da ex-União Soviética muitíssimo bem colocado em competição com qualquer outro cidadão no mundo em qualquer área de conhecimento.

Em segundo lugar há um processo de desgaste em qualquer sistema e o mundo de 1917 não foi o mesmo mundo de 1989. A Rússia aprendeu que o sistema econômico adoptada pela URSS não se adaptava bem num mundo capitalista porque o controlo de qualidade é mais apertado quando há uma concorrência interna, levando ao fabrico de produtos que se pode vender.

O Trabant da RDA (República Democrática da Alemanha), comparado com o Mercedes, é um bom exemplo.

Não quer dizer que a URSS não produzia bens de qualidade mas o sistema em si tinha muitos factores que levavam ao desgaste do mesmo, principalmente no que diz respeito à eficiência. Quando todos trabalham para o estado, não há incentivos para tomar iniciativas.

No entanto, não quer dizer, na minha opinião, que a Únião Soviética é um modelo obsoleto, longe disso. É o último objectivo do Homem viver numa sociedade comunista e penso mesmo que o capitalismo, levado ao extremo, irá produzir esta necessidade. Daqui a muitos anos, teremos uma União Soviética global, mas o Homem não está preparado ainda.

A URSS foi um sucesso total, porque tinha os seus objectivos e conseguiu realizá-los, e há de aparecer outra vez quando for preciso. Até lá, tem-se de lutar de igual contra os outros, não pode haver um sistema benevolente e pacifista quando há outro Imperio do mal e belicista, os Estados Unidos da América, a trocar as voltas sempre que pode.

Por isso os Russos decidiram colectivamente que o sistema tinha de se adaptar à realidade. Não considero que a URSS foi derrotada de maneira nenhuma. Foi uma mudança pragmática, política, colectiva e interna, uma decisão livre.

Respondendo à segunda parte da sua pergunta interessante, esta mudança envolveu uma década de ajustamentos, que foi bastante dolorosa porque quando se muda um governo forte por um fraco, liderado por um incompetente alcoólico, que foi o palhaço chamado Yeltsin (sem dúvida imposto pela CIA), há caos.

Os magnatas apoderaram-se das instituições, levando-os à bancarrota falsamente para depois os comprar a preços absurdos e o poder regional se instalou. A década dos anos 90 foi na minha opinião uma catástrofe nacional, uma vergonha. O país estava à berma de se desmembrar e isso teria beneficiado quem? Pois...

No entanto, colectivamente, e ao contrário dos norte-americanos, os russos não são estúpidos, nem incultos. Sabem muito bem o que fazem. Vladimir Putin e o seu grupo estavam atentos a aquilo que se passava e quando não suportavam mais a incompetência de Yeltsin, que passou os seus dias perdidos numa garrafa de vodka, num delírio alcoólico, decidiram que a Rússia merecia melhor e cá estamos com a Federação Russa de hoje.

O que vemos é um país com um crescimento económico de entre 5 e 7% por ano (PIB), com muitos recursos, com um poder central muito bem estabelecido, com a corrupção controlada e os magnatas criminosos no estrangeiro, onde pertencem.

Vemos também uma diplomacia e política externa que segue a linha de multilateralismo e igualdade de poderes entre as nações, utilizando a ONU como forum de debate, numa abordagem que pretende usar diálogo, debate e discussão na resuloção das crises.

Não é preciso realçarmos aqui a diferênça entre esta posição e a abordagem adotada pela administração criminosa de Bush.

Acho que a Federação russa de hoje, baseada na União Soviética de ontem, está a assumir o seu papel na comunidade internacional e acho que recebe o devido respeito entre os seus amigos a volta do mundo, que inclui o Brasil.

Um grande abraço de amizade e espero que esta carta tenha ajudado o seu trabalho de geografia. Aprecio a sua iniciativa.

Timothy Bancroft-Hinchey

 
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