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A tentação de Aliócha Karamazovi

31.05.2004 | Fonte de informações:

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Esta é a suja e secreta pergunta que alguns se atrevem a fazer, em meio à repugnância e vergonha com que a humanidade respondeu às recentes fotos que mostram soldados norte-americanos atormentando indefesos prisioneiros no Iraque.

É uma pergunta que foi formulada de maneira inesquecível e temerária há mais de 130 anos por Dostoievski em Os Irmãos ...

Paremos, cessemos agora esta imitação, porque de tanto imitar acabaríamos por repetir a retórica do artigo “La tentación de Iván Karamazov”, de Ariel Dorfman. Nesse artigo, relaciona-se uma possível ética da tortura a um trecho de Os Irmãos Karamazovi. “Naquele romance”, escreve Dorfman, “o beatífico Aliócha Karamazovi se vê tentado por seu irmão Ivan, confrontado com um dilema intolerável. Suponhamos, diz Ivan, que seja necessário, para que os homens sejam eternamente felizes, que seja inevitável e essencial torturar durante uma eternidade uma pequena criatura, tão só a um menino, não mais que um. Tu o consentirias?” .

De passagem, anotemos que causa espanto, em um escritor que se quer digno do nome, a confusão, a identificação feita entre criador e personagem. Tal equívoco acreditávamos ter deixado de existir desde a Arte Poética, de Aristóteles. O artista, que imita o real, não é bem esse real imitado. A sua arte, vale o velho exemplo, não é a toalha de Verônica, até mesmo quando ele narra na primeira pessoa. Ora, quando Dostoievski escreve o capítulo O Grande Inquisidor em Os Irmãos Karamazovi, os argumentos ali narrados não são os da pessoa física de Dostoievski, ainda que nos pareçam muito eloqüentes. Estão mais próximos de Ivan. A opinião do romancista por vezes não está nem no conjunto orgânico do romance. A criação, ao atingir a sua felicidade, é uma vitória do gênio humano, até mesmo contra a opinião da pessoa civil do criador. Daí o espanto que nos causa uma pergunta-provocação de Ivan Karamazovi ser confundida com uma pergunta de Dostoievski.

De passagem ainda, anotemos um desacerto mais básico. Não há na fala de Ivan, “Imagina que os destinos da humanidade estejam entre tuas mãos e que para tornar as pessoas definitivamente felizes, proporcionar-lhes afinal a paz e o repouso, seja indispensável torturar um ser apenas, a criança que batia no peito com seu pequeno punho, e basear sobre suas lágrimas a felicidade futura. Consentirias tu, nestas condições, em edificar semelhante felicidade? Responde sem mentir!”,

não há, nessa fala de Ivan, uma tentação de Ivan. A tentação é de Aliócha. A tentação é de quem a sofre. Desde o Novo Testamento, onde se escreve que o demônio tentou Cristo no deserto, que se diz que a tentação foi de Cristo. O paciente é o dono do seu sofrimento.

Em última visão passageira, anotemos nossa estranheza diante de “Uma verdade incômoda: os soldados norte-americanos e britânicos no Iraque, como os torturadores em outros lugares, não se consideram a si mesmos como malvados, mas como os guardiões do bem comum, patriotas que mancham as suas mãos para libertar da violência e da ansiedade a maioria ignorante e cega”, do artigo de Ariel Dorfman. Os torturadores, e pedimos perdão ao leitor por essa tortura, porque tão óbvio é o fato, os torturadores não se alimentam de ideais nobres. Os seus comandantes, os fascistões do gênero Franco, Bush, Pinochet, em falsa consciência, talvez. Mas o torturador de baixo e médio escalão, os soldados, os oficiais.... mais uma vez, solicitamos o nosso perdão por essa tortura. Por favor, esses caras de gente são profissionais. Trabalham para qualquer ordem, independentemente dos objetivos proclamados. No caso desses que aparecem a sorrir nas fotos do Iraque, não, eles não se julgam maus sujeitos, indivíduos tenebrosos, não. Mas se sabem muito longe de guardiões da moral e do bem comum. O que dizer da militar norte-americana que zomba da nudez envergonhada, humilhada, dos soldados presos? O que dizer dela, enquanto posa e arrasta um grande cão pelo solo do cárcere? Vamos além das fotos. Entrevistados, os torturadores dizem que cumpriam ordens, e as ordens eram fazer a vida desses prisioneiros um inferno. Daí a direção ordenada para quebrá-los, no corpo, nos costumes, na religião, na alma. Daí a exibição da grande pornografia, à americana: amontoados de carnes e músculos, como fartura de mercadorias em liquidação.

E agora, de um modo menos ligeiro, permitam-nos entrar no mérito mesmo do artigo. Nele há um apoio básico nos pontos: 1) a pergunta de Ivan Karamazovi, a que não saberíamos bem responder até hoje; 2) mais perguntas, ou situações-problema, que poderiam justificar, de um ponto de vista ético, a tortura de um prisioneiro. Comecemos pelo romance amputado. Mas com um brevíssimo preâmbulo. Os cidadãos ingleses sabem muito bem que as obras de Shakespeare servem para qualquer situação: para glorificar Blair, e para condená-lo; ou para elogiar a subserviência, e para maldizer a subserviência. Os cidadãos italianos devem sentir isto com Dante, os alemães, com Goethe, os espanhóis, com Cervantes. E todo o mundo, em um nível de menor exigência, deve sentir isto com as fábulas de Esopo. Dito isto, cheguemos mais perto: ainda que o romance dostoievskiano tenha sido tão pobre e estreito na compreensão de conspiradores revolucionários, como em Os Demônios, deveríamos poupá-lo de ter uma citação para justificar um ato sujo. Deveríamos guardá-lo para as muitas e fundamentais iluminações que legou, e, no caso de Os Irmãos Karamazovi, deveríamos tê-lo em nossa companhia, na dor que sentem os torturados, como neste ponto:

“Gritavam-lhe: - ‘Arrastaram teu pai pela barba para fora do cabaré; tu corrias ao lado dele pedindo misericórdia’... – Não faças as pazes com ele, papai, de modo nenhum. Os meus colegas na escola dizem que ele te deu dez rublos por isso. – Não, meu pequeno, por coisa alguma do mundo aceitaria dinheiro dele, agora. (O meu pequeno se pôs a tremer, agarrou minha mão nas suas, beijou-a .) – ‘Papai, provoca-o a um duelo, na escola eles me infernam dizendo que és um covarde, que não te baterás, mas que aceitarás dele dez rublos’.... Sabe você que quando os meninos são taciturnos e altivos retêm por muito tempo as lágrimas, mas quando elas brotam, por motivo de um grande pesar, não correm, mas jorram? Suas lágrimas ardentes inundaram-me o rosto. Ele soluçava, convulsivamente, apertava-me contra ele. ‘Papai – gritou ele -, meu querido papai, como ele te humilhou!’ Então os soluços dominaram-me e nos abalavam, enlaçados sobre esta pedra”.

Esta cena dispensa qualquer retórica de moldura. Melhor, rejeita-a . Ela é mais eloqüente, ao falar da dor dos humilhados, que a pergunta de Ivan, ao insinuar uma ética em quem humilha.

Intelectuais de seguro e sereno juízo crítico vêem no artigo de Dorfman um deslocamento do conteúdo político da tortura para uma abordagem moral. Ainda que se reconhecesse a repercussão moral de qualquer ato humano (e estamos supondo que as sevícias a outro sejam um ato humano), a discussão da tortura a presos de guerra passaria antes pelo desrespeito à Convenção de Genebra, e à Declaração Universal dos Direitos do Homem. É fato, a crítica é procedente. Mas queremos dizer, é aqui, exatamente aqui nesta esfera moral, que Ariel Dorfman mais fracassa. A começar , num primeiro passo, pela busca de robustez intelectual para uma prática vulgar, acanalhada, das delegacias de polícia às prisões orientadas pela CIA. Jamais uma obra de Dostoievski mereceria uma citação como legenda de foto de um homem arrastado como um cão. O pensamento escrito de Dostoievski não se mistura à pornografia de corpos nus, sodomizados. Mas Ariel Dorfman tenta, e tentar, nesse artigo, é uma palavra que lhe é cara.

No passo seguinte, reconhecemos a sua perícia de escritor, que antes fracassara no primeiro passo. Nesse movimento, Dorfman levanta a sua voz, é certo que num deserto da verdade, mas levanta-a, e clama contra a tortura, retoricamente (alguém se lembra do discurso de Bruto em Júlio César?). No entanto, eis o que ele faz: constrói possibilidades, “morais”, que justifiquem a tortura. Todas, as possibilidades, como se fossem conseqüências extraídas da primeira pergunta de Ivan Karamazovi. O recurso retórico é conhecido: e se, e se ... Seria algo como:

- Você é capaz de matar uma criança? - Não, claro que não. - E se a criança fosse uma terrorista? - Crianças não são terroristas. - E se ela estivesse domesticada, com lavagem cerebral, que a tornasse uma terrorista? - Ainda assim, de modo algum eu a veria como uma terrorista. - E se essa criança trouxesse o corpo cheio de bombas? - Eu preferiria morrer a matá-la. - E se essa criança, com o corpo de bombas, entrasse para explodir uma creche? - Não sei. - E se nessa creche estivessem os seus filhos e as pessoas que você ama? - Neste caso ...

E neste caso estariam justificados os fuzilamentos de meninos que atiram pedras em tanques de Israel. E neste caso, num desenvolvimento natural, estaria justificado até o assassinato dos que aceitam passivamente o domínio israelense, porque mais cedo ou mais tarde se tornarão terroristas. E para que não vejam nisto um exagero, citamos as palavras de Kenneth Roth, da Human Rights Watch: “Os defensores da tortura sempre citam o cenário da bomba-relógio. O problema é que tal situação é infinitamente elástica. Você começa aplicando a tortura em um suspeito de terrorismo, e logo estará aplicando-a em um vizinho dele”.

É este cenário que Ariel Dorfman pinta, enquanto desloca os nossos olhos dos crimes de guerra, porque tais crimes seriam justificados por nosso pavor, por nosso medo: “E se o preço do Éden fosse a tortura? Ou a pessoa a quem se tortura soubesse onde se esconde uma bomba que está a ponto de explodir e matar milhões? Responderíamos que não (torturaríamos)? Responderíamos que a tortura, seja qual for a nossa ameaça ou nosso medo, é sempre absolutamente inaceitável? ...”.

Se não somos iraquianos, se não somos prisioneiros em Guantánamo, se não somos muçulmanos, se não somos palestinos em Gaza, se não somos um desses suspeitos de portar uma bomba, em resumo: se não estamos sob as botas da civilização norte-americana, ah, então poderemos ganhar um sereno distanciamento da retórica viciosa de Dorfman. E só então, tranqüilos, ponderados, compreenderemos o título do seu artigo. Ele tem razão em chamá-lo de “A tentação de Ivan Karamazovi”. Há razão robusta nisso. O seu artigo é a própria tentação de Ivan, que Dostoievski jamais escreveu.

 
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