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O que há nos olhos femininos?

30.05.2003 | Fonte de informações:

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Os olhos dos pássaros que caçam têm olhos que focam na frente, como os dos humanos, enquanto os pássaros que são caçados possuem olhos em ambos os lados da cabeça, para cobrir um grande campo de visão. E porque os olhos das mulheres, sem se diferenciar tanto dos homens, são tão capazes de nos fazer sentir o que por qualquer outro meio não pode ser sentido?

Para os oftamologistas todos os olhos são iguais, crêem que não passam de um mosaico de cristalinos, vasos, globos, órbitas, córneas, íris, retinas...mas há diferenças. Isto pode confirmar quem já foi encarado por AQUELA mulher. Não qualquer uma, mas aquela que, dentre milhões, nos escolheu para encarar. Em tal situação especial, os olhos delas parecem mais brilhantes, mais vivos, enuviados de mistério e mais coloridos...não importa se são azuis, verdes, negros ou castanhos. Não são comuns, são os dela.

O encanto do homem pelo olhar feminino, independente de qualquer maquiagem, não surgiu há alguns séculos atrás. É bem provável que nossos ancestrais homo-sapiens já percebessem o reflexo das fogueiras nos olhos de suas companheiras nas escuras noites do início dos tempos. E eles devem tê-las amado da forma que sua evolução sentimental, aquela altura permitia.

Tão comunicativos quanto o corpo ou os gestos e a fala, os olhos das mulheres podem ser encarados como uma ameaça. Bem sabiam disso os guerreiros talibans do Afeganistão que não contentes em cobrir todo o corpo de suas mulheres com a burka usavam também uma tela, como acessório, para cobrir-lhes os olhos.

O olhar feminino é um tema recorrente na música, nas artes plásticas e na literatura. Exemplo disso é a música "Este seu olhar" de Tom Jobim, o olhar da Monalisa de Da Vinci, o das prostitutas em "les demoiselles d'Avignon" de Picasso ou o olhar esculpido, frio e soberbo da Vênus de Milo. Há dois casos célebres na literatura que podem significar uma questão de influência: "Os sofrimentos do jovem Werther (Die Leiden des jungen Werthers, 1774)" de Goethe e "Dom Casmurro" (1899) de Machado de Assis.

Os sofrimentos do jovem Werther é considerado por muitos, o romance que deu origem ao romantismo e levou a uma onda de suicídios por toda a Europa. Ele inspirou muitos escritores da geração romântica, dentre eles, Álvares de Azevedo e por que não, o realista Machado de Assis? Tudo bem, ele era realista...mas o tempo de sua infância era romântico. E foi nesse ambiente que ele foi educado.

No livro de Goethe, o jovem Werther escreve uma série de cartas para seu amigo Wilhelm. Lá o jovem aristocrático se encanta com a paisagem idílica e os habitantes do lugarejo de Wahlheim. Certo dia indo a um baile, ele numa coche vai pegar a bela Charlotte S...(este artifício de não terminar nomes também foi usado por Joaquim Manuel de Macedo) e passa o resto do livro em delírios, se encantado pelos olhos de "Lotte". Chama a atenção no livro o fato de Lotte ter olhos negros, porque Werther a eles se refere constantemente em passagens como: "como me deleitava, durante a conversa, com aqueles olhos negros...como toda minha alma era atraída pelos lábios vívidos e pela magnitude de seus pensamentos, não ouvia as palavras com as quais ela se expressava...", "(...) Deus sabe com que deleite, via-me preso em seus braços e nos seus olhos repletos da mais verdadeira expressão do mais puro e mais sincero prazer(...)", "Ela apoiou nos cotovelos e seu olhar percorreria a paisagem; olhou para o céu e para mim e vi os seus olhos cheios de lágrimas(...)", "E olhei novamente para seus olhos (...)", "Foi o mais magnífico nascer do sol. A floresta úmida e os campos fresco! As nossas acompanhantes adormeceram. Ela perguntou se eu não queria fazer o mesmo; poderia ficar despreocupado com ela. 'Enquanto vir esses olhos abertos', disse-lhe e fitei-a 'não há perigo de fechar os meus "e há outras referências mais sobre os olhos de Lotte por todo o livro. Para não estragar a leitura de quem ainda não leu este excepcional romance da literatura alemã, deve-se esclarecer apenas que Charlotte antes de conhecer Werther era noiva de um "homem muito distinto" e candidato a um cargo importante que estava em viagem de negócios.

O outro romance que chama a atenção pelo valor que dá aos encantos produzidos pelo olhar feminino é apontado pela crítica como um dos maiores romances brasileiros de todos os tempos, "Dom Casmurro" de Machado de Assis. Esse livro aborda um suposto adultério, repleto de análises e sondagens psicológicas. Humano.

Possivelmente, aquele considerado o maior escritor brasileiro de todos os tempos leu "Os sofrimentos do jovem Werther" na juventude não só por uma questão cronológica mas também porque na época a obra de Goethe já era muito famosa. Se Machado de Assis realmente leu a obra de Goethe, o que só se pode especular, ele foi inspirado para escrever algumas passagens de seu Dom Casmurro. Precisamente aquelas que falam sobre os olhos de Capitu. Vejamos este belíssimo trecho do livro: " - (...) Deixe ver os olhos, Capitu. Tinha-me lembrado a definição que José Dias dera deles, 'olhos de cigana oblíqua e dissimulada'. Eu não sabia o que era oblíqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se se podiam chamar assim. Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira; eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas. A demora da contempla creio que lhe deu outra ideia do meu intento; imaginou que era um pretexto para mirá-los mais de perto, com os meus olhos longos, constantes, enfiados neles, e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios, com tal expressão que... Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo ,o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá ideia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros; mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me. (...)" Lindo não?! É interessante perceber a temática de Dom Casmurro: um amor nascido na adolescência, a conspiração do destino para que os protagonistas não possam ser felizes juntos, traição, triângulo amoroso (Bentinho, Capitu, Escobar) um marido ciumento a desconfiar que o filho não é seu, a mulher supostamente infiel (Machado de Assis não esclarece), o melhor amigo possivelmente aproveitador. Todos esses ingredientes podem ser encontrados no mais vil romance barato, tipo Sabrina. Mas o que torna Dom Casmurro um monumento a fazer sombra para as taperas literárias de Sabrina? A resposta pode ser encontrada se observarmos como Machado de Assis usa a velha língua portuguesa. Note: em vez de escrever diretamente "olhos verdes" ou qualquer referência óbvia a cor dos olhos da moça, ele prefere escrever "Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá ideia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros; (...)". Isso não significa que tudo tenha que ser dito recorrendo-se a metáforas, mas pode-se dizer que a metáfora quando bem empregada e sem abuso tem a vantagem de espantar o fantasma da banalidade.

Não se pode afirmar com certeza se houve ou não alguma influência a não ser a obsessão pelos olhos das respectivas amadas. No resto, os romances são totalmente diferentes: o livro de Goethe fala de um amor irrealizado, Dom Casmurro insinua uma traição. Se for apenas uma questão de coincidência, Machado de Assis se saiu bem melhor. Verá quem os ler.

Muitas letras de músicas, telas, poesias ou romances ainda hão de se inspirar numa das duas obras ou diretamente nas amadas porque sempre existirão as mulheres e seus olhares...pouco importando se Lotte realmente amou Werther ou se Capitu traiu ou não Bentinho. Os olhos são a referência permanente de um corpo que o simples passar dos anos, definha.

Ler Dom Casmurro ou Os sofrimentos do jovem Werther é constatar a universal compreensão que Joaquim Maria Machado de Assis e Johann Wolfgang von Goethe tinham do ser humano e atestar a mediocridade das relações sentimentais de hoje. E mesmo assim, por incrível que pareça, elas continuam a nos olhar.

por Adriano Medeiros Costa

 
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