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Dois bandidos ( II )*

29.06.2004 | Fonte de informações:

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Em sua perseguição de rastreador, Cássio se perguntava: o natural de Santiago, o que é? A partir da própria experiência, sabia que a face mostrada em público escondia sempre faces mais íntimas. Ainda que se exibissem vexatórias necessidades, como, por exemplo, a miséria material, ou os desconfortos de um salário infame, nem sempre recebido, e este era o caso de Santiago no Dom Vital, essa exibição poderia ser uma nuvem de fumaça. Ainda que não houvesse nela a intenção de desorientar, exibia-se apenas o exibível, porque a intimidade mesmo, ah, isso deveria ser matéria da investigação de uma alma de artista. Com isto Caio queria dizer, se o bom Cássio imitasse, se vestisse, se encarnasse as múltiplas naturezas de toda a gente, ah, com certeza o bom Caio abocanharia a vítima.

Lá com ele, sem proclamar isto a ninguém, para não revelar o seu melhor método, Caio acreditava que a semelhança de um homem a outro levaria à abertura de segredos do homem real para o homem que o imitava. O imitador funcionaria como uma armadilha, com um disparo automático, para derrubar a caça. E isto não deixava de ser bem ousado, bem corajoso, Cássio pensava. Se no reino animal o disfarce era uma defesa, um confundir-se com o mundo físico para confundir o predador, com ele o disfarce era um ataque, um avançar no reino do inimigo, para ali abatê-lo. Era mais: em vez de atacar e fugir, ele atacava e se alojava, porque seria um igual.

Já se vê que em momento algum Cássio se via como um falso em seus papéis. Ele era o homem que imitava, tão à perfeição que por vezes se perguntava: o meu natural, o que é? Para não responder com cinismo, que o seu natural seria o que ele quisesse fingir ser, ele respondia que o seu natural era a natureza de suas potencialidades, que ele apenas selecionava. E concluía: “Eu sou o criminoso que eu busco”. E se determinava: “Preciso das características do semelhante que recomponham a minha alma”. Como a chave do enigma era difícil, mais adiante ele se perguntava: “Por que não fazer do próximo um semelhante dos possíveis crimes que eu trago reprimidos na memória?”. O que vale dizer, por que não atrair o próximo, a vítima, para os traços que ele, Cássio, astuciosamente exibisse? Neste caso, a força de atração passaria a ser a simpatia do próximo para com um semelhante, ele próprio, Cássio, a alma-gêmea. Então ele se perguntava, e se perguntou: “Que homem eu poderia ser, que homem eu fui ao cometer esse crime?”. Ele não se perguntou como ou por quê. Interessava-lhe então: que homem eu sou?

Santiago se furtava, sob muitas camadas, a ser esse homem. À primeira vista era um pobre coitado. Calças puídas nos fundos, sapatos de liquidação de estoque, camisas conseguidas sabe Deus onde, feições de Zé com fome. Santiago deixava sempre a impressão de ser um homem caído, no chão, babando-se, que faria vergonha até mesmo numa sala de estar, que dirá numa sala de professores. Na pior das hipóteses, ele guardava a aparência de residir e de se revolver no chão. Na melhor, a de ser um homem em queda, descendo uma rampa inclinada. Em uma hipótese ou em outra, ou ele já havia chegado, ou descia para o raso chão. Quem sabe, analisando-o melhor, o seu corpo em queda seria uma imagem mais própria. Isto não só porque essa queda levaria à hipótese de se fazer por uma força oculta, que o arrastava, como também em razão da desconfiança de que o piso não seria o seu limite. Ele descia ao abismo. E neste caso, ele já não seria o pobre-diabo da primeira impressão. De um homem que desce para o abismo pode-se dizer tudo, menos que seja um coitadinho. Dir-se-á que é no mínimo um danado, um ser em danação, rumo às profundas. O fato é que Santiago era, já a partir da aparência, um ser deslocado.

Onde o lugar de Santiago? Cássio se perguntou. E com o dedo apontado para o próprio coração, procurou descer outra camada. E viu. Nos últimos tempos, Santiago passou a falar um português que procurava ser educado. Ele evitava expressões de origem e sabor popular, porque não recomendadas pela norma culta. Nele o popular passou a ser censurado pela forma, pelo significado, ou pela sintaxe. Ora, não é preciso ser um experto para notar que isto era absolutamente postiço. Não tendo apreendido uma educação básica, porque herdou miséria e ignorância secular de família, e jamais tendo combatido esse estágio por um incansável autodidatismo, Santiago se enfeitava com ouropéis, que o levariam ao ridículo, não fosse ele inclinado ao trágico. Pois como rir da ferida de um bêbado? O bom senso de Machado de Assis, a quem Santiago citava por dever de ofício, não o socorria: em vez de recolher da tradição culta o que lhe fosse útil, ele recolhia da tradição o impedimento do dizer corrente. Daí que o seu sentimento expresso, falado, sofria lacunas. A isto ele combatia com torneios, com voltas, ou para usar um ponto de suas aulas, com paráfrases.

“Esse artifício”, pensou Cássio, “já denota uma falsidade. Mas essa ainda não é a falsidade que eu quero desmontar”. E procurou descer-lhe mais um véu, para que atingisse a própria alma, dele, Cássio, descoberta. E passou a lhe falar de sexo, com método. Com modos passíveis de interpretação homossexual no cerco:

- O mestre tem quantos anos?

- De idade?

- Sim, de idade.

- Quarenta, vividos e sofridos, professor.

- Eu não acredito. Nem rosto nem corpo de quarenta o mestre possui. O senhor se cuida, não é?

- Cuidar-me como, professor? É correr, correr sempre. Corro de um lado para outro a dar aulas. Como arranjar tempo para cuidar do físico...deste meu corpo?

- É curioso. E não é só o corpo, mestre. Seus olhos também. Seus olhos brilham como os de um menino.

- Os meus? Pelo contrário. São os olhos do amigo que me vêem assim. Bondade sua.

- É verdade. A idade real não é a idade do tempo que passou, o mestre sabe. – E como por acaso: - Com uma idade assim, não é?, o mestre está em pleno vigor... em todos os sentidos .

- Sim. Para não dizer um rotundo não, talvez. Acho que sim. – E mudando de assunto: - E as suas aulas, como vão, professor?

- No de sempre, sem novidade. – E voltando à carga: - O melhor mesmo são as alunas. É maravilhoso ver como estão ficando bonitas. Estão ótimas. O mestre percebe?

- Não. Evidentemente, não. Alunas são alunas, nada mais.

- Mestre, por favor, não venha me dizer que não percebe o calor daqueles corpinhos ... As rapariguinhas em flor, não venha me dizer que não percebe.

Santiago baixa e baixaria sempre os olhos a essa investida, e responde, como sempre respondia:

- Com licença, professor. Preciso ver se consigo algum dinheiro na secretaria.

Cássio mordia o lábio, para reprimir um sorriso. “Puritano! Deve ser um pervertido”. Cássio via o professor Santiago com os olhos da maldade, que vê a maioria dos homens como bandidos, canalhas, depravados, porcos. Em um número não determinado, acima de 60% dos casos, acerta. Quem joga com esse trunfo nas mãos, parte na frente. O problema é a menor parte restante, que fica dos casos em que a maldade não acerta. O rosto injustiçado, ao sofrer um crime de preconceito, faz da maldade um maiúsculo erro. Se o professor Cássio tivesse uma visão de Raios X para o ser que não reside nos ossos, ele veria que os puritanos se pervertem não porque tenham duas faces, mas porque têm uma e uma só face: o puritano retira do que reprime a força da transgressão. O objeto reprimido valoriza a indecência a um ponto tal que a santifica. Enobrece-a, como um prazer que se deve guardar na alma. “Criança, para quê este umbigo de fora? Que imoralidade é esta?”, ao mesmo tempo em que se diz, “Isto é um bem que não se desperdiça em público”.

A tal ponto de entendimento não se precisava descer, descer, como o julgaria o professor Cássio. Bastava-lhe a boa incidência de acertos de sua visão. Ou melhor, ele sequer considerava que estava sendo maldoso, que agindo assim quase sempre acertaria: ele apenas estava convencido de que o professor Santiago, o Mestre, era depravado, porque esta seria a natureza de todos os homens. No caso, com uma diferença, específica: Santiago deveria ser o depravado do gênero mais perigoso, porque teria feito de um ato natural um crime. E por isto voltou mais agudo no ferir, com a ponta da seta mais mergulhada em veneno. Em voz suave, baixa, acercava-se, às sete da manhã:

- Mestre, posso lhe confessar uma coisa?

Santiago o olhava, afastando-se lento, num instinto de defesa:

- O quê, professor?

- Mestre, eu adoro crianças.

- Sei. – E depois de uma pausa: - É natural, professor. Quem ensina, adora infantes.

- In...

- Infantes, professor. Crianças mesmo.

- Não é só isso não, mestre. Eu adoro é menina. Menina, brotinho, de corpinho delicioso, com os seios inocentes. Adoro, amo-as, mestre.

Ao dizer isto, os lábios de Cássio se umedeciam, e ele pôde ver que Santiago mal continha a umidade nos próprios lábios. E continuava:

- Eu seria... seria, não, eu sou capaz de tudo para abraçar, para amassar, comer e roer um corpinho desses. A minha carne clama, entende, mestre? Ela pede, exige esse tipo de carne. O mestre compreende?

- Claro, claro... – Santiago ficava evidentemente vexado, perturbado. As palavras não lhe vinham. – Claro. É claro. Entendo. É ... – E ficava em silêncio, olhando o rosto de Cássio, como se procurasse nele alguma senha, alguma trapaça. E baixando a vista, socorria-se de um livro didático, o primeiro que encontrasse. Fechava-se.

- Mestre ... – A voz de Cássio um dia mais baixou, como numa prece, como uma prece que fosse ao mesmo tempo uma confissão infame. “Eu, pecador confesso...”. – Mestre ... – e para não dizer, “eu cometi esse crime do qual você é o suspeito, eu sou a infâmia da qual você deve ser o autor”, ele disse: - Mestre, eu seria capaz de qualquer coisa para poder amar e comer uma menina dessas.

- Qualquer coisa?

- De qualquer coisa, mestre. De tudo.

- Brincadeira, professor.

- Sério. – E quase inaudível: - Mestre, até de um crime.

Ao ouvir “isto”, que não soube definir, se doce pecado, abjeção, tontura, desmaio, Santiago olhou para os lados como um ladrão que, num roubo, ao mesmo tempo temesse o flagrante e desejasse testemunha. Ergueu-se e nesse movimento ergueu também a voz:

- Professor, eu não quero saber. Eu não vou dividir com o senhor nenhum segredo. Eu não serei cúmplice!

- Cúmplice, mestre? – Cássio sorriu. No traço que se levantou dos seus lábios finos, Santiago viu o próprio diabo ao oferecer as riquezas do precipício. “Se tu és Filho de Deus, lança-te daqui abaixo”. E recuou, e, dando-lhe as costas, sumiu.

Cássio ficou só, sem a anterior graça. Tão fino, tão perspicaz, ele não alcançou que Santiago já o percebera, antes mesmo que em confissão, ele, Santiago, caísse.

* De O Caso Dom Vital, inédito.

 
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