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Consequências do assalto a Berlim na segunda guerra

28.03.2005 | Fonte de informações:

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A RIA "Novosti" continua a publicar materiais sobre os segredos e as causas da II Guerra Mundial, sobre os motivos da tomada de decisões pela liderança soviética e o comando das Forças Armadas, sobre o difícil caminho da vitória. O nosso interlocutor é o doutor em Ciências Históricas Valentin Falin. A conversa foi conduzida pelo observador militar da RIA "Novosti" Viktor Litovkin.

LITOVKIN: Hoje, na véspera do 60.º aniversário da Vitória, são frequentes as discussões em torno da operação de Berlim, efectuada na etapa final da Guerra pelas tropas da 1.ª Frente Bielorrussa. O Ocidente continua a acusar a União Soviética e Gueorgy Jukov de terem sacrificado muitas vidas humanas por um efeito propagandístico duvidoso de fazer içar a bandeira vermelha na cúpula do Reichstag. O que pode dizer sobre isto?

FALIN: Não posso esconder que esta questão sempre me interessou. Teria sido justificada a operação de Berlim, que sacrificou quase cento e vinte mil vidas dos soldados e oficiais soviéticos? Teriam sido justificadas as perdas tão elevadas para colocar Berlim sob o nosso controlo? Não tenho uma resposta unânime. Só quando tive a oportunidade de ler todos os documentos britânicos originais (foram tornados públicos há 5-6 anos), comparei a informação que continha toda esta documentação com os dados que conhecia ainda desde a década de 1950, muita coisa ficou no seu lugar, tendo-se dissipado uma parte das minhas dúvidas.

Por detrás da determinação da parte soviética de tomar Berlim de assalto e de chegar às linhas de delimitação definidas no encontro de Estaline, Roosevelt e Churchill em Yalta, estava uma tarefa importantíssima - prevenir na medida do possível a aventura, alimentada pelo líder britânico com o apoio dos círculos influentes dos EUA, de transformação da II Guerra Mundial em III Guerra Mundial na qual os nossos aliados poderiam vir a ser nossos inimigos.

- Como seria isso possível se a coligação anti-hitleriana estava na altura no auge da sua glória?

- Sim, mas a vida está cheia de cataclismos. É difícil encontrar no século passado um político igual a Churchill, com tal capacidade de induzir em engano os seus e os outros. O ministro militar na administração de Roosevelt, um tal Henry Lewis Stimson caracterizou o comportamento do primeiro-ministro britânico como uma "variedade mais desenfreada de deboche". Mas o futuro sir Winston teve especial êxito na sua atitude farisaica e intrigas em relação à União Soviética.

Nas suas mensagens dirigidas a Estaline ele "rezava para que a união anglo-soviética fosse fonte de inúmeros benefícios para os dois países, para as Nações Unidas e para o mundo inteiro", desejando "todo o sucesso a tão nobre empreendimento". Tratava-se da ofensiva em larga escala do Exército Vermelho em toda a frente Oriental em Janeiro de 1945, preparada à pressa em resposta às insistentes solicitações por parte de Washington e Londres de prestar ajuda aos aliados que se encontravam numa situação crítica nas Ardenas e na Alsácia. Mas tudo isso eram palavras. E na realidade? Churchill considerava-se a si próprio livre de quaisquer compromissos face à União Soviética, procurando em vésperas do encontro de Yalta empurrar Roosevelt para a confrontação com Moscovo. Mas quando a manobra não resultou, o primeiro-ministro decidiu agir por conta própria.

Foi nessa altura que Churchill mandou armazenar o armamento alemão prevendo o seu eventual uso contra a URSS, internar o pessoal militar alemão, aquartelando os soldados e oficiais do Wermacht que se renderam nas divisões de Schleswig-Holstein e na Dinamarca do Sul. Só depois se tornaria claro o significado da trégua macabra do primeiro-ministro britânico.

É de lembrar que desde Março de 1945 a Segunda Frente (frente ocidental) já não existia tanto em termos formais como na prática. Os destacamentos alemães ou se rendiam ou recuavam para o Oriente, sem oferecer uma resistência mais ou menos séria aos nossos aliados. A táctica dos alemães era a seguinte: manter as posições o máximo possível ao longo de toda a linha de confronto soviético-alemão até que a virtual Frente Ocidental e a real Frente Oriental se encontrassem e as tropas americanas e britânicas "recebessem a estafeta" do Wermacht na resistência à ameaça soviética que pairava sobre a Europa.

Cabe assinalar que os aliados ocidentais poderiam ter avançado a ritmos muito mais rápidos na orientação oriental se os Estados-Maiores de Bernard Montgomery, Dwight Eisenhower e Harold Alexander (teatro italiano de acções militares) tivessem planeado com um maior empenho as suas acções, coordenando um pouco melhor as suas forças e meios sem gastar o tempo em vão em discussões e desavenças inúteis. Enquanto Roosevelt estava vivo, Washington não tinha pressa de pôr termo à cooperação com Moscovo. Mas para Churchill "o mouro soviético fez o que devia fazer e então devia ser afastado".

É lógico colocar a pergunta de como devia reagir a direcção soviética, recebendo a informação sobre a hipocrisia de Churchill? Convencer-se a si própria de que a vitória conjunta estava perto, de que havia entendimentos de acordo com os quais cada uma das três potências iria estabelecer o controlo sobre a sua zona de responsabilidade? Apostar nas decisões tomadas sobre as normas de tratamento da Alemanha e dos seus satélites? Ou seria melhor analisar os dados fidedignos sobre a traição ideada, na qual Churchill queria envolver Harry Truman e os seus conselheiros William Leahy e George C. Marshall, para além de William Donovan, chefe do serviço de reconhecimento dos EUA, e de outros?

- Não sei responder.

- Recordemos os acontecimentos de então. A conferência de Yalta terminou a 11 de Fevereiro. Na manhã do dia 12 de Fevereiro os hóspedes partiram para casa. A bem dizer, na conferência da Criméia foi acordado que a aviação das três potências iria observar nas suas operações as linhas de delimitação. Na noite de 12 para 13 de Fevereiro os bombardeiros dos aliados ocidentais reduziram a escombros Dresden, tendo alvejado de seguida as principais empresas na Eslováquia, na futura zona soviética de ocupação da Alemanha, para que não ficássemos com elas. Em 1941, Estaline propôs aos americanos e ingleses destruir os jazigos petrolíferos em Ploiesti, utilizando para o efeito os aeródromos na Criméia. Mas na altura resolveram não o fazer. Estes jazigos foram alvejados em 1944, quando do centro petrolífero que abastecia de combustível toda a Alemanha se aproximaram as tropas soviéticas.

- E Dresden? Por que a destruíram os aliados?

- Entre os principais alvos em Dresden estavam as pontes através do rio Elba. Tudo se fazia no âmbito do conceito de Churchill, partilhado pelos americanos, de fazer deter as tropas soviéticas o mais possível a Oriente.

- Então a destruição da cidade foi um efeito colateral?

- Foram "os custos da guerra". Mas havia ainda outra razão. Nas instruções dadas às tripulações britânicas antes de levantarem voo dizia-se que era necessário mostrar aos soviéticos as capacidades da aviação aliada. E mostraram. E não apenas uma vez. Em Abril de 1945 bombardearam Potsdam, destruíram Oranienburg, explicando depois que os pilotos o fizeram por engano. Quer dizer, tinham na mira Zossen, onde estava sediado o quartel-general da Força Aérea alemã. Trata-se da clássica declaração para desviar as atenções, entre muitas outras. Oranienburg foi bombardeada por ordem de Marshall e Leahy, visto que lá se encontravam os laboratórios relacionados com o tratamento de urânio. Para que não ficássemos com os laboratórios, o pessoal, o equipamento, os materiais, reduziram tudo a escombros, ou mesmo a pó.

Hoje em dia, ao analisarmos os acontecimentos daquela época dura, procuramos encontrar a resposta para a pergunta: por que teria a direcção soviética optado pelas inúmeras vítimas humanas no final da guerra? Mas teria havido uma margem de escolha? Para além das tarefas militares urgentes era ainda preciso resolver os quebra-cabeças políticos e estratégicos de futuro, incluindo construir as barreiras para fazer gorar a aventura ideada por Churchill.

- E não teria sido possível avisar os aliados de que sabíamos dos seus planos e os considerávamos inadmissíveis? Informar a sociedade sobre estes planos macabros?

- Não penso que isso desse qualquer resultado. Houve tentativas de exercer uma certa influência sobre os parceiros, dando-lhes um bom exemplo a seguir. Com base no testemunho de Vladimir Semionov, diplomata soviético, soube o seguinte: Estaline mandou convidar Andrei Smirnov, na altura dirigente do 3.º Departamento Europeu do MNE da URSS, que desempenhava ainda as funções de ministro interino dos Negócios Estrangeiros da Rússia, para debater com a participação de Semionov as variantes de acções nos territórios que iriam passar para o controlo soviético.

Smirnov relatou que as nossas tropas, perseguindo o inimigo, saíram fora das linhas de demarcação na Áustria, tal como estas haviam sido acordadas em Yalta, e propôs fixar de facto as nossas novas posições até que se visse como iriam actuar os nossos aliados numa situação semelhante. Estaline interrompeu-o e disse: "Errado. Escreva um telegrama às potências aliadas". E começou a ditar: "As tropas soviéticas, perseguindo os destacamentos da Wermacht, foram obrigadas a sair para fora da linha que havia sido acordada antes. Pela presente quero confirmar que, terminadas as acções militares, a parte soviética retirará as suas tropas para dentro das zonas de ocupação estabelecidas".

- Os telegramas foram enviados a Londres e Washington?

- Não sei para onde nem para quem. Foram enviados pelos canais militares ou políticos. Posso repetir só o que ouvi de uma testemunha deste episódio. Há que constatar que a nossa posição não impressionou Churchill. Após a morte de Roosevelt (12 de Abril de 19454), ele exerceu forte pressão sobre Truman, tentando provar que não havia qualquer necessidade de respeitar os acordos de Teerão e de Yalta. Chegara a hora de criar novas situações, as quais iriam exigir outras soluções. Quais?

De acordo com o primeiro-ministro, o desenrolar dos acontecimentos levou as potências ocidentais a novas posições, mais avançadas para Oriente e as "democracias" devem-se fixar nestes territórios. Churchill era contra o encontro em Potsdam e contra a convocação de uma outra conferência que viesse a formalizar a vitória e a reconhecer o grande contributo para a mesma do povo soviético. De acordo com a lógica do primeiro-ministro britânico, o Ocidente teve uma boa oportunidade de tirar proveito do momento quando os recursos da URSS estavam quase esgotados, as retaguardas demasiado alargadas, as tropas extenuadas, os equipamentos gastos, exigindo mesmo lançar um desafio a Moscovo, forçando-a aceitar o "diktat" anglo-saxão ou viver as privações de mais uma guerra.

Há que assinalar que não se trata de especulações, nem de hipóteses, mas da constatação de um facto concreto que tem um nome próprio. Churchill mandou no início de Abril (segundo outros dados, no final de Março) iniciar urgentemente os preparativos para uma operação com o nome de código "Impensável". A data do início da guerra estava marcada para 1 de Julho de 1945. Previa-se o envolvimento de tropas americanas, britânicas, canadianas, de um corpo de expedição polaco e de 10-12 divisões alemãs, aquelas que se mantinham em Schleswig-Holstein e na Dinamarca do Sul.

Verdade seja dita que o Presidente Truman não apoiou a ideia jesuíta, por duas razões pelo menos. A sociedade americana não estava pronta para aceitar tão cínica traição da causa das Nações Unidas.

- Ou mais exactamente, uma traição pérfida.

- Sim. Mas parece que isto não é o principal. Os generais americanos souberam defender a necessidade de continuar a cooperação com a URSS até à capitulação do Japão. Para além disso, os militares americanos, tal como os seus colegas britânicos, estavam seguros de que seria mais fácil iniciar uma guerra contra a URSS do que terminá-la com êxito, argumentando o risco demasiado grande.

Aqui é oportuna uma pergunta: como deveria agir o comando supremo da URSS após ter recebido estes sinais? A bem dizer, a operação de Berlim foi uma reacção ao plano "Impensável", tendo a façanha dos nossos soldados e oficiais nesta operação sido uma advertência a Churchill e aos seus correligionários.

O conceito político da operação de Berlim foi proposto por Estaline. O autor da componente militar da operação foi Gueorgi Jukov. Este último seria depois criticado por todas as falhas da ofensiva e da grandiosa batalha que de desenrolou nos arredores de Berlim e depois na própria cidade. A crítica devia-se, em parte, a motivos de carácter emocional. O marechal Konstantin Rokossovski chegara perto da capital do Terceiro Reich antes de Jukov e, muito possivelmente, já se preparava para receber as chaves da cidade. Mas o Comando Supremo colocou a Rokossovski outra tarefa, dando preferência a um cabo de guerra de carácter mais duro. Um outro militar, o marechal Konev, ficou desanimado, para não dizer, esquecido. Ouvi isso mesmo da boca do próprio Ivan Konev. Na operação de Berlim foi-lhe atribuído um papel de segundo plano.

- Diga-se de passagem que em Abril de 1945 as suas tropas estavam também mais perto de Berlim do que as tropas de Jukov...

- Fosse o que fosse, mas a escolha recaiu num marechal que era tido como o braço direito do Comandante Supremo. Claro que a queda de Berlim iria fazer brilhar ainda mais a "glória militar do Comandante Supremo" que comandava este "braço direito". Segundo tudo indica, naqueles dias Estaline ainda não era muito sensível às insinuações daqueles que colocavam na boca de Jukov determinadas afirmações referentes às suas graves falhas e não só em 1941 ....

- E o que era Berlim para nós naqueles dias?

- O assalto de Berlim, a bandeira da Vitória na cúpula do Reichstag não foram meros símbolos ou o acorde final na guerra e muito menos mera propaganda. Para as tropas soviéticas era extremamente importante serem as primeiras a entrar no reduto do inimigo, marcando assim o fim da mais difícil guerra na história da Rússia. Todos os soldados sabiam que a fera fascista, que trouxe incontáveis sofrimentos ao povo soviético, aos povos da Europa e de todo o mundo, saíra de Berlim. O Exército Vermelho entrou nesta cidade para iniciar um novo capítulo da nossa história, da história da Alemanha e de toda a Humanidade.

Analisemos com atenção a documentação elaborada sob a ordem de Estaline na Primavera de 1945, ou seja, em Março, Abril e Maio. Para cada pesquisador objectivo é claro que não se tratava de qualquer vingança por parte da União Soviética. A direcção soviética ordenada tratar a Alemanha como um Estado que sofreu a derrota, e o povo alemão como responsável pela guerra... Mas ninguém pretendia fazer com que a derrota acabasse por ser um castigo sem prazo definido e sem um futuro digno. Estaline realizou a tese avançada ainda em 1941: os hitleres vão e vêm, mas a Alemanha e o seu povo ficam.

Claro que foi preciso obrigar os alemães a contribuírem para a recuperação da "terra queimada", que eles deixaram como herança nos territórios outrora ocupados. Para cobrir na íntegra as perdas e os danos sofridos pelo nosso país, seriam insuficientes todas as riquezas da Alemanha. Ficar com o máximo possível, sem se responsabilizar pelo abastecimento de alemães, "pilhar o mais possível", foi nesta linguagem pouco diplomática que Estaline instruiu os seus subordinados no que se referia às questões das reparações. Nenhum prego era supérfluo para fazer renascer das ruínas a Ucrânia, a Bielorrússia e as regiões centrais da Rússia, onde foram destruídos quatro quintos das capacidades produtivas, tendo um terço da população ficado sem abrigo. Os alemães fizeram explodir mais de 80 mil km de vias férreas. Destruíram todas as pontes. Oitenta mil quilómetros é muito mais do que todas as vias férreas da Alemanha antes da Segunda Guerra Mundial.

Ao mesmo tempo, ao comando soviético eram dadas rigorosas instruções de impedir os maus tratos da população local e, antes de tudo, em relação a mulheres e crianças. Os violadores deveriam ser entregues ao Tribunal Militar.

Moscovo mandava punir sem piedade todas as incursões, acções subversivas por parte de alemães irreconciliáveis que pudessem ocorrer em Berlim derrotada e no território da zona de ocupação soviética. É de constatar que não eram poucos os desejosos de disparar contra as costas dos vencedores. Berlim caiu a 2 de Maio, tendo os combates locais sido terminados dez dias depois. Ivan Zaitsev, funcionário da nossa embaixada em Bona, confessou que "sempre teve mais azar do que outros". "A guerra acabou a 9 de Maio, mas eu combati em Berlim até 11 de Maio", adiantou. Em Berlim resistiam às tropas soviéticas destacamentos SS de 15 países, contando nas suas fileiras com nazis da Noruega, Dinamarca, Bélgica, Holanda, Luxemburgo.

- A queda de Budapeste levou mais tempo do que a queda de Berlim.

- Budapeste é um caso especial. Mas voltemos a Berlim. Tudo o que ocorreu nesta cidade deu grandes dores de cabeça ao comando soviético. Estabelecer o controlo sobre a cidade era uma das tarefas mais complicadas. Para entrar em Berlim era preciso antes de tudo superar as colinas adjacentes, ultrapassar com enormes perdas as sete linhas de defesa. Nas cercanias da cidade os alemães costumaram enterrar os tanques nos vales, transformando-os em postos blindados de fogo. Por exemplo, quando as nossas tropas se aproximaram da avenida Frankfurter, que leva directamente ao centro da cidade, foram alvejadas pelo fogo cerrado de todos os tipos de canhões, o que nos custou muitas vidas humanas.

- Antes da guerra a avenida Frankfurter chamava-se estrada de Hitler?

- Era assim chamada até Maio de 1945. Ao longo desta avenida os tanques alemães eram instalados em todos os pontos cruciais, as suas tripulações atiravam quase à queima de roupa contra a infantaria, camiões e tanques soviéticos. A Wermacht pretendia organizar nas ruas de Berlim um segundo Estalinegrado, mas desta vez nas margens do rio Spree.

Quando penso nisso hoje até me vêm lágrimas aos olhos. Não teria sido melhor fechar o cerco em torno de Berlim e esperar até que se rendesse? Era assim de facto tão importante içar a bandeira sobre o Reichtag, raios o partam? Durante a tomada deste edifício tombaram centenas dos nossos soldados.

É muito difícil julgar os vencedores e os vencidos passado tanto tempo. Segundo tudo indica, na altura predominaram as considerações estratégicas. As potências ocidentais, reduzindo Dresden a escombros, pretenderiam meter medo a Moscovo, demostrando assim o potencial da sua aviação de bombardeamento. Claro que em resposta Estaline queria mostrar aos autores do plano "Impensável" o poderio de combate das tropas soviéticas, como que dando a entender que o desfecho da guerra não se decide no ar, nem no mar, mas precisamente em terra.

- Mesmo assim, será possível afirmar que a tomada de Berlim deteve de facto Londres e Washington da tentação de desencadear uma terceira guerra mundial?

- Uma coisa é certa. A batalha de Berlim fez voltar à realidade muitas "cabeças quentes", desempenhando assim a sua função política, psicológica e militar. Há que dizer que na Primavera de 1945 não faltavam no Ocidente mentes embriagadas pelo relativamente fácil sucesso. Basta lembrar George Patton, general americano das tropas blindadas, que exigiu mesmo de forma histérica não parar nas margens do Elba, mas fazer avançar as tropas americanas através da Polónia e Ucrânia rumo a Estalinegrado, para terminar a guerra no local onde Hitler fora derrotado. Foi este mesmo Patton que nos apelidou de "descendentes do Gengiscão". Por sua vez, Churchil também não tinha mais cuidados na escolha das expressões, chamando-nos "bárbaros" e "macacos selvagens". Resumindo, a teoria dos "semi-homens" não era monopólio alemão.

A morte de Roosevelt trouxe uma mudança quase instantânea à política americana. Na sua última mensagem ao Congresso dos EUA (25 de Março de 1945), o Presidente prevenia: ou a parte americana assume a responsabilidade pela cooperação internacional no cumprimento dos entendimentos de Teerão e Yalta, ou será responsabilizada por um novo conflito mundial. Para o Presidente Truman este aviso ou melhor dizendo, este testamento político do seu antecessor, não era um obstáculo. Na sessão reunida na Casa Branca a 23 de Abril ele formulou pela primeira vez o seu curso para a perspectiva mais próxima, declarando que a capitulação da Alemanha era uma questão de alguns dias. A partir daí os caminhos da URSS e dos EUA ir-se-iam separar radicalmente, sendo o equilíbrio de interesses uma ocupação para os fracos de espírito. A "Pax Americana" tinha que prevalecer.

Truman estava pronto a romper imediatamente a cooperação com Moscovo, o que poderia ter acontecido se... Se não tivesse havido resistência por parte dos militares americanos. Acontece que em caso de ruptura com a União Soviética, os EUA teriam que lidar com o Japão sozinhos o que, segundo o Pentágono, iria custar aos EUA de 1 a 2 milhões de vidas de soldados americanos. Foi assim que os militares americanos preveniram em Abril de 1945 o agravamento das nossas relações políticas, mas por um curto período de tempo.

"A ofensiva contra os entendimentos de Yalta" ia sendo efectuada pouco a pouco à socapa, organizando-se a simulação da capitulação da Alemanha na cidade de Reims. Na realidade, este acordo separado encaixava-se perfeitamente no plano "Impensável". Outra prova de que a cooperação entre os aliados após a queda de Berlim ia enfraquecendo foi a recusa de Eisenhower e Montgomery de participar na parada militar da Vitória na antiga capital do Reich. Eles deviam passar revista à parada juntamente com Jukov.

- Foi por isso que a parada foi organizada em Moscovo?

- Não. A parada em Berlim teve lugar, mas nela participou só o marechal Jukov, o que aconteceu em Julho de 1945. E, como se sabe, a parada em Moscovo teve lugar a 24 de Junho.

 
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