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DETECTOR DE MENTIRAS *

28.03.2004 | Fonte de informações:

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- Sente-se, por favor, doutora – Saulo pede.

- Gostaria de ficar sozinha com o senhor – responde-lhe a delegada.

- Pois não, doutora. – E para a secretária: - Dona Augusta, saia, por favor. Eu não estou pra ninguém. – E com as bochechas em repouso, embora brilhantes de suor, para a delegada: - Em que lhe posso ser útil?

- Como foi que isso aconteceu?

- Eu sou um homem de bem, doutora ...

- Eu não lhe perguntei sobre isto.

- Como aconteceu? Eu ia lhe dizer. Eu, sinceramente, não sei. – E apresenta as palmas das mãos vazias, gordas e largas sobre a mesa. Saulo não sabe que esse gesto de se mostrar puro, sem mácula de crime, para a delegada é como um pedido de palmatória.

- Como não sabe? O senhor não estava no colégio?

- Sim, doutora, estava. – A voz de Saulo ganha um tom de choro, porque ao dizer “estava”, ele gostaria de dizer, “doutora, a minha vida tem sido um martírio”, e começar a desfiar todo o seu sofrimento, de como a sua escola chegou aonde está: as inadimplências, as traições, a rebeldia dos mestres, as ingratidões... – Sim, doutora, eu estava. Eu estava aqui, quando ouvi uns gritos, uma confusão lá embaixo... – E repete o que viu na superfície dos acontecimentos, como se não tivesse nem sombra de inteligência para perceber além do exterior da ocorrência, como se fosse uma câmera imóvel. Na verdade, ele faz uma câmera imóvel que tivesse a maldade da censura, pois vela fatos que não são convenientes, monta-os, disfarça-os, confunde-os. E conclui: - É o que eu sei, doutora.

- Eu vou ativar a sua memória, doutor Saulo. A criança estava de calcinha, não estava?

- Sim, eu já lhe disse.

- E por que o senhor disse que a calcinha estava suja de sangue e de esperma?

- Juro, doutora, eu não vi. Eu lhe contei apenas o que eu vi.

- Não viu? Como é que você não viu uma coisa que se apresentou logo à sua frente, Saulo? Você estava com areia nos olhos?

- Doutora, entenda. Eu enxergo bem. Não é isso. Entenda. Havia muita gente na sala. A doutora pode investigar. Havia mais gente do que a sala agüenta. Entende? Eu não vi a mocinha de frente. Pra falar a verdade, doutora, eu mal vi umas pernas. Sim, isso eu vi: eu vi umas pernas descobertas.

- Vou reativar sua memória, Saulo. Você ontem, para a imprensa, descreveu o cadáver da menina. A sua descrição, Saulo, das duas uma: ou você está mentindo agora, ou mentiu para os repórteres.

- Eu menti, doutora, eu menti para a imprensa. Entenda. Eu estava acossado por tudo quanto era canto. Eu tinha que dizer alguma coisa. A doutora entende?

- Entendo. Você mentiu antes e mente agora. E olhe lá, esta é a sua melhor opção. Porque se você mentiu antes, é porque não viu o corpo da menina com tantos detalhes. Então, como é que sua descrição bate tão bem com as informações de outras pessoas? Você viu o cadáver antes que dessem o alarme no Colégio, Saulo? Você esteve sozinho com essa criança antes de todo o mundo? Vamos, rápido.

- Nãao. Nunca, doutora.

- Então, como é que bate? Como é que sua versão bate com a de quem viu?

- Assim, doutora. A gente ouve, a gente ouve daqui, ouve dali, e sem querer a gente diz que viu o que ouviu. A doutora entende?

- Entendo. Você ouviu apenas o que quis ouvir. Você não ouviu o mais grave, você não ouviu que a criança tinha a calça melada de sangue.

- Foi ... Acho.

- Saulo, por que é que você mente? Vamos, rápido. Por que você só faz mentir? Responda!

- Eu menti lá, doutora. Isso eu lhe digo. Agora, não ... Doutora, eu quero que a senhora entenda que eu sou um homem de princípios. Eu sou cristão. Eu tenho os meus pudores, doutora. Existem coisas que eu não digo. Me fazem mal. É a minha educação, é a minha moral, a senhora entende?

- Mais importante que dizer é fazer, Saulo. Existem certas coisas que a gente não deve fazer, e, no entanto, faz.

- Claro, a doutora tem toda a razão.

- E se eu lhe dissesse que certas coisas que você não deveria fazer, você faz, Saulo, o que você me diria?

Saulo, ruborizado, contrai os punhos:

- Doutora, eu não sou santo. Todos nós pecamos.

- Eu me refiro a coisas de sexo mesmo, Saulo. Você quer que eu lhe diga? Você quer que eu lhe conte coisas suas?

Saulo ruboriza a ponto de sofrer um ataque cardíaco. Não sabe o que responder. Baixa os olhos. Então se lembra de que de olhos baixos mostra que se envergonha, e, à força, levanta-os. Mas sem poder encarar aquela cínica, mexe-se na cadeira, procura uma saída, e então, lá do fundo do crânio uma eloqüente voz lhe grita, e ele faz de seus lábios o canal íntimo do cérebro. Estende os braços, os pulsos, e grita:

- Prenda-me, doutora! Eu sou o culpado. Prenda-me! Fui eu quem matou. Fui eu quem estuprou. Eu sou um total canalha. Feche as algemas. Eu sou o criminoso.

A doutora não se move. Continua sentada, olhando aquele indivíduo gordo, vermelho e grande. Uma ruína de homem. Ele não é o primeiro, nem será o último. Perguntar, saber perguntar, também é uma porrada. A doutora sabe.

- Você me dá licença para fumar? – Ela pergunta. Esta é uma de suas piadas. Pedir a quem não lhe pode negar, pedir, quando a sua posição é só ordem. Na sua versão do momento, ela pede a Saulo, redondo, rubro, que ora lhe entrega os pulsos. A doutora pede para fumar na sua sala, e o “sua” aí não é dele, é dela. Ela está no seu terreno. Tira um cigarro, acende-o, solta uma fumaça que, suprema gentileza, evita que se dirija aos olhos torturados de Saulo.

- Eu posso tomar isto como uma confissão de culpa – ela lhe diz. – Aí o caso se encerra. Você é mesmo o culpado, Saulo?

- Siim, a senhora não está dizendo? A senhora está me acusando. A minha vida particular, doutora, nada tem a ver com a morte dessa menina.

- Talvez. Talvez sim, talvez não.

- Então me leve. Eu sou culpado por não ter visto manchinha de sangue na calcinha de uma aluna. Pois me leve.

- Você será culpado, Saulo, de estupro e homicídio por esganadura de uma criança. É disso que você se acusa. – A delegada abre a bolsa, retira as algemas. – Tudo bem. É isto o que você quer.

Saulo recua os pulsos.

- A doutora diz que Cristininha foi estrangulada?

- Esganada, Saulo.

- O fato é que foi assassinada.

- E estuprada, Saulo. Vamos, eu não posso perder tempo.

- Eu sou inocente, doutora! Juro, eu sou inocente.

Com as algemas sobre a mesa, a delegada ordena:

- Então acabou o faz-de-conta, certo, Saulo? Acabou a brincadeira. A verdade, somente a verdade. Ou do contrário...

Saulo assente mudo, com a cabeça, rendido. A delegada continua:

- Primeiro: você viu a menina inteira, violentada.

- Vi.

- Segundo: por que você mentiu?

- Para abafar o escândalo.

- Muito bem. E por que mentiu para mim?

- Eu não tinha confiança na senhora.

- E agora, tem?

- Não.

- E por que vai me dizer a verdade?

- É melhor para mim.

- Muito bem. Você sabia que a criança já estava morta.

- Não. Quer dizer, sim. Eu sabia.

- E por que mandou o cadáver para o Hospital da Restauração?

- Pra não ficar com a batata quente.

- Você sabe o que você fez, Saulo?

- Não.

- Crime de ocultação de cadáver.

- E agora? Eu posso ser punido?

- Depende do seu comportamento. Você pode muito bem não ter sabido que a criança estava morta.

- Então eu não sabia.

- Depende. – E sem pausa. – Ontem, você foi o primeiro a chegar ao colégio?

- Eu não sei. Eu não me lembro. Acho que chequei às sete e meia, pouco mais ou menos. Foi tanta coisa!...

- Ao chegar, você viu algum professor no colégio?

- Sim, quer dizer, não. Eu não me lembro.

- Por que você primeiro disse “sim”?

- Eu não tenho certeza. Não quero ser leviano.

- Lembre-se então. A depender do seu comportamento ...

- Talvez um vulto assim, de um professor ...

- De que professor?

- Estava de costas. Mas eu não sei se isso foi antes ou depois...

- O certo é que já havia professor aqui antes do senhor chegar?

- É quase certo.

- A que horas chega o porteiro?

- Às seis. O vigia sai quando ele chega.... A doutora já tem algum suspeito?

- Sou eu quem pergunta. Você, você mesmo, suspeita de quem?

- Isto pode não ser ético, doutora.

- Quem decide isto sou eu. Fale.

- As cobras me matam, doutora. Eu estou cercado de víboras... – Saulo gagueja. Com isto ele quer dizer, “doutora, entenda, eu posso ter algum rabo-de-palha, e eles vão tocar fogo no meu”. – A doutora entende?

- Eles não precisam saber o que você me disse. Eles não vão saber que foi você. Vamos.

- Se é assim... – E Saulo, procurando ganhar tempo, reclama do calor, e olha a doutora, que fuma, apesar do ar-condicionado. Por entre a fumaça, por entre os escombros da própria percepção, ele a considera: não sabe se pela força do cargo, ou peso da autoridade, ela lhe parece um tanto máscula. Talvez pelas rugas, pelo vocabulário forte, pelo tom rude, autoritário, essa mulher é um tanto viril. As qualidades de comando de um homem, ela as possui. Será mesmo uma mulher? Talvez não seja de todo feia. Do pescoço para cima, que ela, com mais atenção, deve cuidar, a doutora não é feia. No entanto, ser anfíbio, do ventre para baixo, é uma quarentona descuidada, uma superposição de sacos de batatas, apertados, Saulo se diz. Mulher, mas sem sexo. Homem, com pescoço e cara de mulher.

- Eu ainda não sei o nome da doutora... – Saulo procura ser gentil, para manter um nível de civilidade, para quase lhe fazer uma corte, prudente e distante. Para lhe ser agradável, enfim, para amolecer Satanás no inferno.

- Carla.

- Nome muito bonito, doutora.

- Mas vamos ao que interessa.

- Pois não ... – E Saulo passa um olhar de arrastão pelo corpo da delegada, dizendo-se, “essa mulher não tem útero. Nem ovário”. – A doutora perguntava mesmo o quê?

- Nomes. Nomes de quem você suspeita.

- Ah! – Saulo volta à realidade, do cerco que sofre. Vai em pensamento até a sala dos professores, lá onde eles se reúnem e maltratam sem dó a sua pessoa. – Isto aqui é um Butantã, doutora. Olhe, se é pra falar de suspeitos, eu não retiro nem as mulheres. A começar por dona Celestina. Ela ensina Biologia. Ela é sonsa, manhosa, total. É gorda, mas é uma fera. Eu sei o que ela, por trás, fala de mim.

- Fala o quê, Saulo?

- Ah, que eu não presto, que eu engano os professores, que eu tenho um caixa 2...

- Mas isso todos falam.

- É, e outras coisas mais, umas picuinhas de fofoca.

- O quê, por exemplo?

- Ah, coisinha medíocre... que eu sou beato, solteirão... a senhora entende.

- Claro. Outros professores dizem o mesmo.

- É, como a senhora sabe?

- Adiante. Vamos. Por que ela seria suspeita?

- Ela gosta de meninas, doutora. É isso. Saiba a senhora que ela gosta de meninas, que troca beijinhos, alisa...

- O que isso tem de mais, Saulo?

- É? E pegar nos botõezinhos do peito, pra saber se estão crescendo, e convidar as meninas taludinhas pra passar com ela o fim de semana, isso é normal, doutora?

- Talvez sim, talvez não. – Anota: - Celestina ...

- Isso.

- E dos homens, quem você destacaria?

- Todos. Menos Cássio.O professor Cássio é um homem decente.

- Por quê?

- Porque ele é casado, parece que bem casado, tem dois filhos estudando aqui, ele não iria se envolver numa besteira destas.

- Os outros são solteiros?

- Que eu saiba, não. Olhe, pra ser sincero, é o professor Cássio quem me defende. É o único. É por ele que eu sei o que os outros falam de mim.

- Entendo. Ele faz jogo duplo.

- Pra mim, não. É jogo único. Ele não pode é dizer que está do meu lado. Ele cairia em desgraça e eu perderia o meu informante. É um professor muito bom, muito competente.

- Sei. E os outros?

- Não escapa um só. Até prova em contrário, todos são suspeitos.

- Mas por quê? Somente porque você tem raiva deles?

- Olhe, doutora, eu não tenho raiva. Conviver com essas feras é parte do meu ofício. Pra senhora ter idéia, tome por exemplo o professor Gusmão. É um calvo, buchudo. Esse não tem condições de fazer parte nem de uma quadrilha. É desbocado, moleque, sem educação. É um sujeito inescrupuloso, total.

- Por quê?

- Pra senhora ter idéia, eu já soube que ele vende, vende, doutora, ele vende questões da prova a alunos. Veja a senhora. E por que é que eu desconfio dele? Ele é muito feio, e no entanto tem prestígio com alunas bonitas. Daí que eu acho que ele cobra outro preço a elas.

- E por que você mantém um sujeito destes na sua Escola?

- Doutora... – Saulo abre os braços, largo: - Doutora, a senhora não sabe o que é isto. A senhora acha mesmo que o comportamento dele é exceção? Demito, vem outro, talvez até pior.

- Mas nem todos os professores são corrutos. Ou são?

- Sim. É claro que não.

- Então por que você não demite um elemento destes?

- Doutora... E o dinheiro, doutora? Como é que eu vou pagar um canalha desses? Ele tem 10 anos de casa! Eu já virei escravo dele. Se eu botá-lo na rua, ele me bota no mesmo dia na Justiça. Pior eu ficaria sem ele.

- Entendo. E os outros? O que você levanta de suspeita sobre os outros?

- O professor Santiago. Esse banca de pobre-diabo, mas de diabo ele só tem 1 chifre, lá embaixo. A doutora me desculpe. É que eu tenho visto as cantadas, muito engenhosas, que ele dá nas alunas. Os bilhetes.

- Como assim? Você já viu bilhetes dele?

- Nas provas, doutora. É claro que eu tenho cópias das chaves dos armários dos professores. E já flagrei prova dele, com bilhetinhos.

- Eu preciso dessas cópias.

- Das chaves?

- Das chaves e dos bilhetes.

- Dos bilhetes eu não tenho mais como. Ficaram nas provas, devolvidas aos alunos. Eu não ia adivinhar que isso um dia fosse de interesse.

- Você se lembra do que os bilhetes diziam? Ele fez algum bilhete para a aluna morta?

- É possível... Os bilhetes eram mais ou menos assim: “parabéns, rainha. Minha princesa, você é demais”, coisas assim. Um negócio meio sutil. Mas para a menina, para a cabecinha dela, era uma declaração de amor. A doutora entende?

- Alguma coisa mais?

- Nãao .. ah, tem também o professor Antônio Luís. História. É um sujeito baixinho, moreno, metido a revolucionário. É uma praga, doutora. Esses professores de história ou são muito ruins, ou são metidos a comunistas. Esse Antônio quer ser o contestador, sempre. É a minha experiência que diz, doutora: essas pessoas muito contestadoras, que são contra tudo, ou são mentirosas, ou são loucas. Então eu acho que de uma forma ou de outra, esse Antônio Luís é suspeito. Ou ele finge que é um cidadão de bem, ou é um louco. E só um louco, ou um imoral, um pervertido, pode cometer uma safadeza dessas.... A doutora está me ouvindo?

- Estou anotando. Repita: “só um louco, ou um pervertido” ...

- Só um louco ou um pervertido, um tarado, pode cometer uma safadeza dessas. – E depois de uma pausa: - Anotou, doutora?

A frase a doutora já havia anotado. O que ela agora procura anotar, e não consegue, é a expressão dos lábios, da face de Saulo, quando pronuncia “tarado”. Ela anota e risca, e risca. O que é, a dificuldade, que ela não consegue resolver: ao dizer “tarado”, o diretor salivava, com os olhos levantados para o crucifixo na sala.

* Da novela inédita O Caso Dom Vital

 
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