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Deputados e Igreja exigem proibição do Ocultismo

28.02.2005 | Fonte de informações:

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Ao longo dos séculos na Rússia os médiuns, magos e videntes eram vistos com benevolência. Eles tinham a possibilidade de fazer fortuna e até entrar na alta sociedade.

Assim, em 1779 toda a população de São Petersburgo ficou encantada com as actividades do conde Alexandro Caliostro, "coronel do Exército Espanhol, verdadeiro mago e Grão-Mestre". Ele vendia um famoso elixir do amor, tinha contactos com as almas dos mortos e até "curou" certa vez brilhantemente uma criança de peito, filho de um dos famosos cortesões, substituindo-o por um bebé saudável. No entanto, as dúvidas dos pais obrigaram o falso conde a fugir para Varsóvia. Mais tarde o czar Nicolau II procurava não tomar decisões importantes sem pedir conselho ao "velho santo" Grigori Rasputin que, como se considerava, dispunha do dom de vidente e de curar doenças. Já no final da existência da URSS Leonid Brejnev enviava emissários à vidente búlgara Vanga, consultando-a sobre o seu abalado estado de saúde.

No entanto, o "boom" de ocultismo que se registou na Rússia no fim da década de 80 do século passado é difícil de ser atribuído a quaisquer tradições históricas. É necessário fazer justiça aos "parapsicólogos" e videntes que se aperceberam da confusão espiritual do país em desintegração e da incerteza dos seus habitantes no dia de amanhã - desde o camponês ao homem de negócios - e propunham oportunamente os seus serviços.

O Estado Soviético desacostumou a população a viver de forma independente, de organizar a sua vida ao seu próprio critério. Na URSS as autoridades resolviam pelos cidadãos muitos aspectos da sua vida, ou seja, onde eles deviam viver e estudar, como se deviam vestir, que livros deviam ler, que viagens deviam fazer ou não fazer. Quando este Estado totalitário desapareceu, muitas pessoas sentiram-se impotentes como crianças, extraviadas na selva das novas relações de mercado, relações completamente incompreensíveis para elas. Foi então que os ocultistas ergueram a sua voz exortando: "Venham ter connosco que resolveremos todos os vossos problemas!"

Por seu lado, a população não tinha escolha, pois até hoje na Rússia não existe um instituto de psicoterapia mais ou menos desenvolvido. Em consequência, os feiticeiros "pretos" e "brancos" encarregaram-se praticamente das mesmas funções que nos países desenvolvidos são exercidas pelos psicanalistas. De acordo com certos dados, hoje na Rússia há um vidente para cada 1500 habitantes. É difícil acreditar, mas no actual século da Internet e da engenharia genética a facturação do mercado de serviços ocultistas do país é comparável com a facturação do mercado de drogas. Só em Moscovo funcionam cerca de três dezenas de centros e escolas de magia, cujo rendimento mensal varia entre 60 a 120 mil dólares. No mercado deste tipo de "serviços" existem ainda os parapsicólogos e feiticeiros que praticam o seu ofício individualmente. De acordo com diversos cálculos, em Moscovo o seu número é de 3500 a 6000.

É curioso que, como mostram as pesquisas sociológicas, a indústria ocultista é controlada em 70 por cento por homens de negócios que, embora não acreditem nas matérias sobrenaturais nem recorram aos serviços dos intermediários das forças do outro mundo, procuram um nicho lucrativo para investimentos. Um número esmagador de videntes, que se dizem com frequência parapsicólogos, não tem instrução médica nem qualquer outra e não passa de banais vigaristas que se aproveitam da credulidade e das neuroses dos clientes. Os ocultistas da Rússia renovam constantemente o leque dos seus serviços em conformidade com o espírito da época. Se anteriormente os feiticeiros prometiam ajuda na solução de problemas, em geral inofensivos como "trazer de volta bem-amado com 500 por cento de garantia", a cura do mau-olhado ou da infertilidade, hoje em dia estão na moda os serviços ocultistas de carácter mais comercial. Assim, um mago de Moscovo concordará em "programar o cliente para a riqueza" em troca de 50 a 1000 dólares, inspirar ao devedor a ideia da necessidade de devolver urgentemente a dívida por 10 a 15 por cento da respectiva soma e, por fim, "eliminar" o concorrente de determinado negócio por 200 a 2000 dólares. As autoridades da cidade estão convencidas de que a prática do ocultismo se torna cada vez socialmente mais perigosa. Com efeito, em muitos casos a polícia tem dificuldade em apurar se a causa da retirada deste ou daquele concorrente dos negócios ou até a sua morte foi o resultado de manipulações do feiticeiro ou de outros motivos puramente criminosos. O ocultismo corrompe a sociedade, faz mergulhar as pessoas, especialmente os jovens, num mundo ilusório e irracional. A Igreja Ortodoxa Russa manifesta-se também veementemente contra a propagação do ocultismo, tendo criado em Moscovo o "Centro Ortodoxo de Reabilitação de Vítimas do Ocultismo".

Foram todas estas considerações que levaram os deputados da Duma Urbana de Moscovo a exigir a alteração da lei sobre a protecção da saúde dos cidadãos, promulgada em 1993. Na sua variante anterior este diploma só proibia as sessões colectivas de "cura" de grande número de pessoas por parapsicólogos e, antes de tudo, através dos meios de comunicação social. Os legisladores tinham em vista Kachpirovski e Tchumak, populares parapsicólogos no início da década de 90, que realizavam sessões televisivas de "cura" durante as quais "carregavam de energia positiva a água" e procuravam tratar doentes à distância. Mas desde então os serviços dos ocultistas propagaram-se de forma significativa.

A perspectiva da sua plena proibição preocupa os defensores da chamada medicina popular, ou seja, dos métodos de diagnóstico e tratamento baseados nas tradições populares, que já confirmaram a sua eficácia. "Os deputados não poderão separar a prática da medicina popular do ocultismo - receia Yakov Galperin, director do Centro Nacional Científico de Medicina Popular. - Charlatães há por toda a parte e a sua proporção na medicina popular é igual à da medicina académica, isto é, cerca de 13 por cento".

Mas Liudmila Stebenkova, dirigente da comissão da Assembleia Municipal que está a elaborar as alterações à lei, está convencida de que a medicina popular não corre ameaça. Na Rússia estão oficialmente registados cerca de 2 mil praticantes da medicina popular - lembra ela - enquanto o número de videntes, feiticeiros, bruxas e cartomantes ultrapassa os 100 mil segundo dados não oficiais. Portanto, a nova proibição será dirigida contra estes "prestadores" de serviços místico-ocultistas e pseudo-religiosos. -0-

Vladimir Simonov observador político RIA "Novosti"

 
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